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Máfias/Dinheiro Sujo

 

CADÁVER EXCELENTE E CRIME ORGANIZADO

Por WFM-CARTACAPITAL

O primeiro cadáver excelente de 2005 é o da missionária Dorothy Mae Stang, morta com seis tiros na zona rural de Anapu, no estado do Pará.

Como lembrou o consagrado escritor siciliano Leonardo Sciacia – um observador atento do fenômeno mafioso que nasceu no campo e migrou para as cidades nos estertores do feudalismo –, as associações delinqüenciais eliminam vítimas anônimas e produzem cadáveres excelentes. Ou melhor, matam pessoas de destaque, como religiosos, jornalistas, juízes, líderes sindicais etc.

Os homicídios excelentes servem para disseminar o medo, desarticular iniciativas de contraste e remover lideranças incômodas. Além disso, difundem a máxima mafiosa do “Somos sempre os mais fortes”.

A freira Dorothy representava a resistência aos organizados grileiros de terras públicas e aos predadores madeireiros. Antes dela ocorreram outros homicídios excelentes de pessoas que incomodavam a delinqüência organizada, como o jornalista Tim Lopes (2-6-2002), o juiz criminal Antônio José Machado Dias (14-3-2003) e o sindicalista Chico Mendes (22-12-1988).


Segundo a Comissão Pastoral da Terra, tivemos em área rural 1.003 casos de assassinatos, entre 1985 e 2003, nos estados do Pará, Maranhão, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais e Pernambuco. Casos, voltando a Sciacia, de vítimas anônimas.

Uma avaliação da atuação das autoridades responsáveis pela segurança pública, pelas políticas fundiárias e de proteção ambiental mostra estar o crime organizado no Brasil mais forte do que o Estado. Exemplo disso, ficou estampado pelo jornal Folha de S.Paulo: “Diante de 1.349 vítimas de conflitos no campo de todo o país, apenas 64 executores e 15 mandantes foram condenados. E o Brasil julga só 7,5% dos crimes no campo”.

Como todo mundo sabe, as associações de modelo mafioso também se interessam pelos lucros obtidos com a exploração de recursos naturais e a posse de terras. Agem diretamente, por interpostas pessoas ou aproveitando-se de situações de entropia em áreas de conflitos rurais ou urbanos. Dois exemplos ajudam a esclarecer: na Calábria (Itália), de parcos recursos hídricos, a organização mafiosa conhecida por ‘Ndrangheta controla as nascentes, fontes e reservatórios. Na Região Norte do Brasil, há anos associações delinqüentes derrubam florestas para negociar madeira. Ainda esgotam minas, poluem rios, comprometem a biodiversidade, cooptam indígenas de reservas e grilam terras da União.

Pior, a cada homicídio excelente de repercussão internacional, as autoridades brasileiras apresentam paliativos e mesmices: “forças-tarefa”, “Exército”, “punição exemplares”, “mudanças legislativas”, “instalações de postos policiais”, “construções de cadeias” e “Justiça célere”. A propósito, está aí a recentíssima Reforma Judiciária que não vai tornar um minuto mais rápido o andamento dos processos.

O Brasil vive das emergências, depois da porta arrombada por corpos tombados de vítimas inocentes. Não existe um sistema orgânico de medidas legais e administrativas. É a cronologia dos homicídios excelentes que norteia o anúncio de reações.

Para o secretário Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, “o ciclo de impunidade está com os dias contados, com a federalização dos crimes que atentam contra direitos humanos”. Em outras palavras, ele aposta numa solução tirada da recente “Reforma Judiciária”, isto é, de substituição de competências: entram a Polícia, o Ministério Público e a Justiça Federal no lugar dos equivalentes estaduais. Saem os estados federados, entra a União.

O equívoco da posição de Nilmário fica patente ao se recordar a significativa carta de Chico Mendes ao então delegado superintendente da Polícia Federal do Acre, Mauro Spósito. Está transcrita no livro de Edilson Martins, intitulado Chico Mendes – um povo da floresta:

“Venho, pela presente, expressar-lhe a nossa preocupação com relação aos últimos acontecimentos relacionados aos pistoleiros Darli e Alvarino Alves, ambos proprietários da fazenda Paraná, em Xapuri...

Como é do conhecimento de V. Sas., desde setembro do corrente ano foi expedido, pelo Exmo. Sr. Juiz (estadual) de Direito de Umuarama-PR, um mandado de prisão contra os referidos pistoleiros, cujo mandado foi encaminhado para sua mão para que fosse cumprido imediatamente...

A Polícia Militar de Xapuri (estadual), atendendo a ordem do Juiz, deslocou-se para a fazenda Paraná... e, para surpresa da PM, os mesmos estavam foragidos, tinham sido avisados com antecedência...

E para minha surpresa e dos meus companheiros, tivemos a informação de que o Sr. (autoridade federal) foi o autor do aviso, ou seja, deu todas as dicas para que os mesmos se livrassem da prisão...” (ed. Garamond, 1998, pág. 15).


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