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BOCA DA VERDADE: a MÁFIA no governo do premier italiano Andreotti.

Por WFM-CARTACAPITAL

A Boca da Verdade está embutida no pórtico da harmoniosa igreja de Santa Maria in Cosmedin, construída em Roma no século VI.

Segundo lenda medieval relacionada ao mago Virgílio, o mentiroso ficaria com a mão presa se a colocasse na Bocca della Verità, que é uma máscara a representar uma divindade fluvial. Divindade com cara barbada de poucos amigos, olhos alucinados e boca semi-aberta.

Na Boca da Verdade ficaria presa, seguramente, a mão do senador vitalício Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro da Itália, mais de 50 anos de vida pública e antigo condutor do partido político da Democracia Cristã.

Perante a Justiça, Andreotti caiu em contradições ao negar a sua participação na secular Máfia siciliana – uma organização criminosa com movimentação financeira superior à da Fiat, Pirelli e outras multinacionais italianas.

Por incrível, a referida divindade fluvial não abocanharia a mão do mafioso Tommaso Buscetta, falecido em abril de 2000, nos EUA. Ao tornar-se colaborador da Justiça, Buscetta contou sobre os tentáculos da máfia, popularmente chamada de La Piovra (o Polvo), na política partidária. Também denunciou os vínculos da Máfia com o senador Andreotti. Outros colaboradores da Justiça confirmaram, em juízo, as delações de Buscetta.

Diante de tal quadro, a Procuradoria Antimáfia de Palermo, chefiada pelo procurador Giancarlo Caselli, iniciou apurações e solicitou, do Parlamento, autorização para processar criminalmente Giulio Andreotti. A autorização foi concedida e o processo iniciado em 27 de março de 1993.

O processo criminal terminou no fim de 2004. Seus fascículos somaram 1,4 milhão de páginas. Andreotti foi acusado de autoria de dois crimes, em distintos períodos: 1. Associação criminosa delinqüencial até 1982. 2. E, depois, participação em organização mafiosa.

Em primeiro grau, acabou absolvido das duas imputações. Então, virou garoto-propaganda de cartões de crédito e insistiu-se em apontá-lo como o Varão de Plutarco da política italiana.

Seus marqueteiros exploraram, também, a imagem de velhinho injustiçado, amigo de vários papas, estadista europeu e fiel freqüentador de missas, sempre pronto a receber a hóstia consagrada.

Evidentemente, não esperavam a reviravolta. A decisão da Suprema Corte de Cassação foi bastante incisiva: até a primavera de 1980, o senador mantinha relações estáveis e amigáveis com a ala moderada da Cosa Nostra. E só não pôde ser punido porque o crime prescreveu.

Convém recordar. Buscetta pertencia à tal ala moderada que governava a Máfia. Os vínculos de Andreotti eram com os capi-mafie Stefano Bontate e Gaetano Badallamenti.

O estreitamento do relacionamento foi proporcionado pelo eurodeputado Salvo Lima e pelos exatores Antonino e Ignazio Salvo, todos mafiosos, como era público e notório.

Salvo representava a corrente política de Andreotti na Sicília. Como ocorreu com o superboss Bontate, Salvo acabou assassinado pelo grupo radical da cidade de Corleone, comandado por Totó Riina. Logo no início da grande guerra da Máfia, Buscetta fugiu para o Brasil.

Logicamente, a participação mafiosa garantia os votos sicilianos para a corrente da Democracia Cristã de Andreotti.

Importante frisar ter a Corte de Cassação proclamado a prescrição relativa aos fatos reveladores do envolvimento de Andreotti com a Máfia até a primavera de 1980.

No ano de 1982, um novo modelo penal foi introduzido no Código Penal italiano, ou seja, o crime autônomo de associação mafiosa. E a Corte de Cassação decidiu que não existia no processo criminal prova a vincular Andreotti com a Máfia depois da primavera de 1980. A partir daí, Andreotti, como chefe de governo e parlamentar, combateu a máfia, já sob nova direção: “Não ficou demonstrado que o senador Andreotti tenha, no período sucessivo à primavera de 1980, cultivado amigável relacionamento com os expoentes da Cosa Nostra, ou tenha revelado disponibilidade para com os mesmos, ou tenha agido para facilitar, ajudar, o sadalício mafioso”.

Resumindo, durante anos, Andreotti interagiu com a máfia. Com relação ao período pós-primavera de 1980, Andreotti foi absolvido por não ter tido ligações com a máfia de Totó Riina.

Para bom entendedor, a Itália, no período de Andreotti como primeiro-ministro, tinha a máfia como parceira na chefia do governo.

É bom alertar que terá a mão mordida e presa pela Boca da Verdade aquele que sustentar, sem ressalva, a absolvição de Andreotti. Até as grades das prisões sabem que prescrição não se confunde com absolvição. Quando ela é reconhecida pela Justiça, proclama-se extinta a pena e não se julga o crime. A decisão judicial, então, é substituída pelos julgamentos político e histórico.


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