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Máfias/Dinheiro Sujo

 

MÁFIA, POLÍTICA, JOGOS DE AZAR E CACHOEIRA

Por IBGF/WFM

O Brasil é sempre igual. Basta a aproximação do carnaval para os bicheiros tomarem conta da cena e da mídia. Neste ano, o protagonista, que nega ser bicheiro, tem até título imperial: Augusto. Ou melhor, atende pelo nome de Carlos Augusto de Almeida Ramos e pelo apelido de Carlinhos Cachoeira. Charles Waterfall, na tradução literal do The New York Times.

Carlinhos não é um bicheiro à antiga, imortalizado na figura de Castor de Andrade. Domina a telemática, as apostas “on-line” e o mundo virtual. Não reconhece limitações de fronteiras, como se pode verificar pela localização da sede, na tranqüila Anápolis (GO). De Anápolis para o mundo, como diria um antigo locutor de rádio.

Apesar de navegador pelas infovias dos jogos de azar, Cachoeira aplica as regras perpétuas do universo mafioso. Essas regras foram denunciadas em 1875 por Diego Tajani, procurador-geral de Palermo, quando a máfia siciliana colocava grana e influência nas campanhas, elegia os seus políticos e escolhia os seus representantes nos governos: “Posso afirmar que a máfia prospera por motivos políticos e só é forte na medida da proteção recebida das autoridades”.

Os gerentes.
Lauricella (dir.) e Filippeddu operam no Rio, em 1998
Embora o PT pareça não saber, as modernas máfias empresariais são parasitárias, seguindo a tradição das antigas. E no sistema de poder que operam, a exploração de jogos de azar tem sempre lugar de destaque, quer em cassinos clandestinos, quer em máquinas com softwares viciados ou loterias on-line.

Como parasitas, as máfias procuram grudar no Estado para obter favores, controlar as licitações, obter administrativamente concessões, permissões, etc. Por meio da corrupção de autoridades, desfrutam das denominadas instâncias decisórias de governo: aí é que entra a legalização do jogo de azar, com concessões, alvarás e “privatização das loterias”. Como decorrência, a crônica policial e a produção cinematográfica ficam repletas de fatos particulares.

Até as pedras sabem ser comum o financiamento de campanhas políticas pela contravenção, uma das espécies do gênero criminalidade organizada. Como têm controle de território e social, comandam os votos dos eleitores, ainda que na marra.

O Cachoeira em destaque não limita a sua capacidade empresarial a um único ramo. Sua empresa exibe, já na razão social, os seus serviços: Capital Construtora e Limpeza Ltda.

Quando assumiu a administração da cidade de Nova York e apresentou o seu programa de Tolerância Zero, o ex-prefeito Rudolph Giuliani não esqueceu do combate às organizações criminosas, ou seja, à Cosa Nostra, como foi batizada pelo apelidado Lucky Luciano (Salvatore Lucania) a associação delinqüencial com sede de governo em Nova York.
Giuliani atacou a Cosa Nostra começando pela limpeza pública, incluídas a coleta e a reciclagem do lixo. Comparada com as de outras cidades norte-americanas, a coleta, a limpeza e a reciclagem do lixo de Nova York eram, até a gestão de Giuliani, as mais caras do mundo, como foi atestado pelos bolsos dos contribuintes.

Para se ter idéia, as duas maiores empresas mundiais desse setor de limpeza e lixo, a U.S. Waste e a Waste Management, não participavam das concorrências públicas feitas pela municipalidade de Nova York.

No caso, a Cosa Nostra manobrava as licitações, graças ao poder corruptor e à intimidação difundida. As empresas localizadas em outros estados não ousavam participar, quer pelas “cartas marcadas” impedidoras da livre concorrência, quer pelo temor a danos patrimoniais e, até, pela vida dos seus trabalhadores.

Conforme apurado, em cada distrito da cidade de Nova York havia uma associação incumbida de reunir e controlar todas as empresas operadoras no setor do lixo. Os sócios dessas empresas submetiam-se ao controle da famiglia mafiosa local, que executava as ordens da cúpula da Cosa Nostra. Assim, em cada licitação, uma só empresa participava e, evidentemente, levava pelo preço apresentado. Na seqüência, começava a subempreitagem.

A empresa de Cachoeira, além do jogo eletrônico que controla no Rio Grande do Sul e da participação na gestão da loteria do Rio de Janeiro, explora, ainda, a construção civil. E a construção civil, no Brasil, continua a ser alavancada como forma de reciclagem de dinheiro de procedência mafiosa, como se verificou, por exemplo, em capitais nordestinas.

Noal.
Garantia o controle do território para a Magliana
Como toda organização mafiosa tem um fâmulo no governo, Cachoeira buscou, como revelado pela revista Época, Waldomiro Diniz, que passou pelo gabinete de José Dirceu antes da última reforma ministerial.

Sob a ótica mafiosa, não havia currículo melhor que o construído por Waldomiro. No governo Lula, ele atuava junto aos parlamentares que o consideravam um longa-manus de José Dirceu. Muitos o avaliaram como um ministro, de fato.

No vídeo, Waldomiro, na condição de presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), teria acertado com Cachoeira a “doação” de dinheiro para campanhas políticas de 2002. Trocou favores em cascata, como a redação de um edital licitatório e a comissão de 1%, aliás, acordo com padrão de estímulo praticado pelas internacionais criminosas.

Na campanha presidencial vitoriosa do colombiano Ernesto Samper Pizano, coube a Manuel Avella, arrecadador subterrâneo da campanha, recolher do Cartel de Cali a contribuição de US$ 6 milhões. E vale lembrar que a legislação colombiana havia fixado, para cada concorrente, o limite de gastos em US$ 5 milhões.

Santi Romano, um dos maiores constitucionalistas italianos, escreveu, em 1945, que “em troca de apoio eleitoral, a criminalidade organizada mafiosa recebia dos homens políticos de governo favores para os seus membros e os acólitos indicados”. Bem por isso, Santi Romano definiu a máfia como “uma forma de poder real e extralegal”.

A atuação parasitária da criminalidade organizada, incluída a marginalidade composta por contraventores dedicados à exploração de jogos de azar, tende a se perpetuar no Estado. Daí soa ingênua a colocação da cúpula petista de Waldomiro Diniz ter praticado ilícitos apenas antes de assumir a subchefia de Assuntos Parlamentares da Casa Civil da Presidência da República. Tamanha ingenuidade encontra semelhança no personagem ignoto que coloca a raposa para tomar conta do galinheiro.

No Brasil, e como comprovado por meio documental, são antigas e diamantinas as ligações estabelecidas entre exploradores de jogos de azar, narcotraficantes, mafiosos e corretores com carteirinha de traficantes de influências.

Em 1999, a Secretaria Nacional Antidrogas buscou, junto à Direção de Investigação Antimáfia da Itália (DIA) – então dirigida pelo coronel Angiolo Pellegrini–, prova dos vínculos entre o tráfico internacional de cocaína colombiana, a reciclagem do dinheiro da droga e a corrupção de autoridades governamentais.

Em face de investigações começadas na Itália, a mencionada DIA descobriu que no Brasil lava-se o dinheiro do narcotráfico por meio da disseminação de máquinas eletrônicas, com programas de videobingo, videopôquer, etc.

Depois da venda da droga colombiana na Europa, parte do lucro era destinada à compra, na Espanha, de componentes eletrônicos, contrabandeados para o Brasil, onde diversas empresas, dentre elas as do notório Alejandro Ortiz e do filho do bicheiro Ivo Noal, realizavam a montagem das máquinas de jogos, isto para posterior venda, locação ou leasing.

Outra parte do lucro ilegal com a venda de cocaína, embarcada à Europa pelo porto de Santos, acabava sendo reciclada na compra de frutas e flores exóticas da República Dominicana. Outra parte era reciclada por meio de compra e revenda de alumínio russo.

Toda essa ilegalidade transnacional tinha como gestor a Bando da Magliana, uma organização de modelo mafioso sediada em Roma. Os operadores eram Fausto Pelegrinetti, foragido da Justiça, e Lillo Rosário Lauricella, recentemente eliminado a tiros, por ter- se tornado colaborador da Justiça italiana e recebido o prêmio da redução e isenção de penas.

Nos interrogatórios, o colaborador Lauricella contou ao juiz instrutor italiano que permanecia no Brasil enquanto Pelegrinetti mantinha-se na Itália. Por vezes, Lauricella recebia o auxílio dos irmãos Filippeddu, um deles integrante do grupo terrorista de libertação da Córsega. Evidentemente, o terrorismo também precisa de capitais para operar.

Numa das respostas dadas ao magistrado, Lauricella explicou que conseguia atuar no Brasil mediante alianças com a criminalidade verde-amarela. Em São Paulo, com o bicheiro Ivo Noal. No Rio de Janeiro, “com a cúpula do jogo do bicho”. Para dar cobertura aos negócios em São Paulo, Lauricella contou que pagava cerca de US$ 80 mil para Ivo Noal:

– Ivo Noal noi lo pagavamo 80 mila dollari al mese. Noi partiamo dal Brasile perché c´era Ortiz, che era più forte, cioè è lui che parte dal Brasile com Filippeddu. A Rio de Janeiro esiste uma cupola, cosidetta cupola a Rio de Janeiro e a livello cupola come la intendiamo noi, eh, dove c´è capo e ci sono sottocapi per zone. Traduzindo: “A Ivo Noal nós pagávamos US$ 80 mil por mês. Começamos do Brasil porque havia Ortiz, que era o mais forte, isto é, ele que operava a partir do Brasil com Filippeddu. No Rio de Janeiro, existe uma cúpula, chamada de cúpula do Rio de Janeiro, no conceito de cúpula como nós entendemos, ou seja, onde tem chefe e subchefes por zonas”.

Ao caso, a DIA deu o nome de Operação Malocchio (Mau Olhado) e no inquérito e no processo criminal, além de interceptações telefônicas de ligações entre Brasil e Itália, aparecem nomes de empresas e de sócios, como, por exemplo, Alejandro Ortiz, Alejandro Ortiz Júnior, Johnny Viveiros Ortiz, Giuseppe Aronica, Paulo Manoel Pulido Garcia Zilhão, Vitor Manoel da Silva Franco, etc.

Os relatos de Lauricella, até agora, não foram cotejados com as denúncias formuladas, no fim de 1999, por Manuel Tubino, ex-presidente do Instituto Nacional do Desenvolvimento do Desporto (Indesp).

À Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal Tubino narrou ser responsável pela expedição de alvarás para funcionamento das “casas de bingo”. Ressaltou ter o diretor do Indesp, Luís Antônio Buffara de Freitas, fornecido, irregularmente e fora das suas atribuições, autorizações para as casas de bingo. As irregularidades, sempre segundo Tubino, eram do conhecimento do ministro dos Esportes Rafael Greca. Ressaltou, ainda, ter sido forçado por Greca a assinar a Portaria 23 do Indesp, que liberou as máquinas de bingo e caça-níqueis eletrônicos em todo o País.

Esses episódios levaram o Ministério Público Federal a propor uma ação de improbidade administrativa contra funcionários do ministério e até contra o ex-ministro Greca.

Durante anos, cópias autênticas das peças produzidas pela Operazione Malocchio aguardaram, na Polícia Federal, a liberação de verbas para a contratação de um tradutor juramentado. Depois do “escândalo” Cachoeira-Waldomiro, a Polícia Federal, com base no apurado pela DIA, realizou apreensões no escritório e na residência dos Ortiz em São Paulo.

Para as autoridades italianas, a operação da DIA desarticulou o Bando da Magliana, que ainda não conseguiu se reagrupar. As empresas apontadas no relatório da DIA e sediadas em São Paulo foram fechadas e a documentação apreendida, num trabalho do procurador Roberto Porto e do delegado Romeu Tuma Júnior. Evidentemente, outras foram reabertas, com novos nomes.

Passado o tempo, nota-se que os Ortiz continuam impunes e, segundo informações de policiais, apostam na legalização dos bingos, onde são investidos milhões em propaganda para mostrar “os benefícios sociais” que geram. Já Ivo Noal procura atuar, segundo policiais, por interpostas pessoas.

Muitos artistas de ponta foram remunerados e fizeram propaganda das vantagens sociais das casas de bingo. Até o secretário estadual Lars Grael recebeu patrocínio para velejar. Se soubessem da origem do bingo eletrônico no Brasil, mostrada nas investigações da DIA, teriam “tirado o time” antes de colar a imagem de “laranja”.

Ao contrário dos seus rivais Ortiz, o bicheiro Cachoeira mantém sociedade com coreanos. E não se deve esquecer as tentativas, no atual governo Lula e via influência de Waldomiro, de legalização dos bingos.

Parecem eternas as ligações da criminalidade organizada com o chamado clientelismo político e a subserviência de muitos ao poder econômico representado pelas máfias. Uma CPI para apurar o caso Cachoeira-Waldomiro chegaria em bom momento, até para evitar suspeitas a macular o governo Lula. Claro, levada a sério e sem uma instrumentalização dirigida a atender interesses político-partidários.

Por último, o nosso sistema apuratório e persecutório já não mais é desconhecido pelo cidadão brasileiro. Todos sabem que a Polícia Federal, apesar de atuar como judiciária nas apurações, está subordinada ao Executivo, mais especificamente ao Ministério da Justiça.

O procurador-geral da República, chefe do Ministério Público Federal, é escolhido e nomeado pelo presidente da República. Quanto à Justiça Federal, não havendo impugnação dos partidos políticos, limita-se, por força de lei, a homologar as contas das campanhas.


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