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Máfias/Dinheiro Sujo

 

Um Tim Lopes mexicano:vítima dos cartéis mexicanos

Por WFM-CARTACAPITAL

A Cidade do México, em 2004, foi palco de uma expressiva e comovente manifestação contra as escaladas da violência e da criminalidade organizada. Chegou a lembrar o Rio de Janeiro, mas sem “socyalites”.

Durante o protesto não faltou quem lembrasse a observação do escritor siciliano Leonardo Sciascia, criador da expressão “Cadáveres Excelentes”. Tal expressão virou título do filme sobre o assassinato do juiz Giovanni Falcone, pela máfia. Ou melhor, advertiu Sciascia precisar a criminalidade organizada exibir vítimas anônimas e cadáveres de excelência social, para mostrar força e difundir o medo.

No México, o último “cadáver excelente” ,morto em junho de 2004 foi o do jornalista Francisco Ortiz, vítima do Cartel de Tijuana, que leva o nome da cidade que faz fronteira com a norte-americana San Diego, na Califórnia.

Para contrastar a macro e a microcriminalidade, o presidente Vicente Fox chegou a recorrer à contratação de Rudolph Giuliani, ex-prefeito da cidade de Nova York. Giuliani assessorou na implantação, na Cidade do México, do seu violento plano de segurança pública, chamado de Tolerância Zero.

Pela assessoria, Giuliani embolsou US$1 milhão, em um ano.

Só em junho de 2004 ano e no espaço de 5 dias, foram mortos o supracitado jornalista Francisco Ortiz, do semanário Zeta, sediado e editado em Tijuana, e o policial Fernando Jimenez, chefe da task-force mexicana antiseqüestros. Esses dois homicídios tiveram como causas imediatas as denúncias de Ortiz e as prisões de Jorge Aurelano Félix e Efrain Perez Pasuenga, ambos pertencentes à cúpula do Cartel de Tijuana.

Nos últimos 15 anos, foram eliminados vinte jornalistas mexicanos. Ortiz recebeu três tiros, --dois no tórax e um na cabeça--, quando estava voltando para casa, na companhia dos dois filhos, de 8 e 10 anos de idade.

Ortiz realizava no semanário Zeta um trabalho de jornalismo investigativo semelhante ao do saudoso Tim Lopes, ambos com igual coragem e correção profissional. A propósito, o Zeta é uma publicação especializada em denúncias acerca da atuação do Cartel de Tijuana, do seu poder corruptor e das suas alianças com os narcoprodutores e os narcotraficantes colombianos.

Diante do prestígio conquistado, todos os jornalistas do Zeta viraram alvos móveis. O primeiro deles a ser assassinado foi o vice-diretor e editorialista Hector Felix Miranda, em 1988.

Num trabalho dee sucesso, Ortiz identificou e denunciou dois dos sicários de Felix. Num processo criminal de tramitação lenta, os dois acusados receberam condenações recentes da Justiça mexicana.

Um dos assassinos de Felix Miranda era guarda-costa do empresário Jorge Hank Rhon, dono do hipódromo de Tijuana e que foi candidato à prefeitura da cidade, nas eleições de agosto de 2004.

A segunda vítima pertencente ao Zeta foi o jornalista Jesus Blancornelas. Ele saiu gravemente ferido de uma emboscada articulada pelo Cartel de Tijuana. O seu guardacosta, Luis Lauro Valero, não sobreviveu às balas. À época e em artigos assinados por Blancornelas, o Zeta denunciava David Baron Corona, do cartel de Tijuana, como o mandante do assassinado de dois agentes da polícia mexicana.

Os cartéis mexicanos de Tijuana e Juarez estão ligados, em potente netwoork, aos colombianos e isto para distribuir drogas aos EUA e ao próprio México. Na Colômbia, os carteis de Cáli e de Medellín foram extintos. Com mega estrutura operativa sobrou o Cartel do Vale Norte. O lugar dos grandes cartéis colombianos foi ocupado pelos chamados “cartelitos”: hoje, existem mais de 200 dessas organizações independentes na Colômbia.

O Cartel de Juarez opera em rede com os pequenos cartéis colombianos, ao passo que o de Tijuana integra a network gerenciada pelo Cartel do Vale Norte. Pelo Pacífico, o Cartel do Vale Norte faz chegar a droga ao Cartel de Tijuana, que controla o desembarque pelo Golfo da Califórnia. Depois de recebida, a droga é despachada ao território norte-americano e atravessa a linha de fronteira seca entre as cidades de Tijuana e San Diego.

Quando preso por associação ao narcotráfico, o general de exército Gutierrez Rebolo, que era o czar antidrogas do México, apresentou uma justificativa pelos seus atos ilícitos. Segundo ele, o prestígio pessoal do homem mexicano é medido pelo número de amantes mantidas. Como ele tinha várias “casas chicas” para sustentar, teve de receber dinheiro do narcotráfico. Os seus relatos foram publicados pelo semanário Zeta.


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