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Máfias/Dinheiro Sujo

 

COISAS DA COSA NOSTRA

Por WFM-CARTACAPITAL

COSE DI COSA NOSTRA II

No dia 9 de maio de 1978, as Brigadas Vermelhas mataram o primeiro-ministro italiano Aldo Moro, anteriormente seqüestrado. O seu corpo foi deixado em Roma, próximo ao Altar da Pátria, no interior do porta-malas de um automóvel furtado.

A máfia aproveitou a violência protagonizada pelas Brigadas Vermelhas para cometer assassinatos. Só que despistava, com a finalidade de as suspeitas recaírem nos brigadistas.

Naquele fatídico 9 de maio de 1978, o maquinista Gaetano Sdegno conduzia uma composição que se aproximava da estação ferroviária da cidade siciliana de Cinisi. Sentiu um solavanco e resolveu brecar a locomotiva.

Assustado com o que viu, Gaetano comunicou-se com a estação de Cinisi e não tardou a chegada dos carabineiros e de populares atraídos pelo barulho causado por uma explosão de dinamite. Num raio de 300 metros foram encontrados pedaços do corpo do jornalista Giuseppe Impastato, apelidado de Peppino.

A explosão deslocou os trilhos da ferrovia que liga Trapani a Palermo. O major-chefe dos carabineiros concluiu pela ocorrência de terrorismo. O passado de Peppino, então, passou a ser usado pela polícia para justificar a autoria da malograda ação terrorista. Aí, ele acabou rotulado de “militante revolucionário” que, pela pequena rádio AUT, realizava denúncias no interesse do Partido da Democracia Operária.

Poucos dias depois da sua morte, apareceu nova versão: suicídio. Isso em razão de o Giornale di Sicilia publicar uma carta em que Peppino deixava transparecer o desejo de se matar.

No meio disso tudo, estudantes tinham recolhido, dentro de um casebre próximo à ferrovia, restos orgânicos e uma pedra com sangue de Peppino.

Portanto, nada de terrorismo ou de suicídio. Como constou de um manifesto colado nos muros de Cinisi, houve um homicídio perpetrado pela máfia.

Um dos grandes capi-mafia dessa época era Gaetano Badalamenti, nascido em Cinisi em 14 de setembro de 1923. O pai de Peppino era da famiglia mafiosa de Badalamenti. Como todos sabiam, Peppino era antimáfia. Não se dava com o pai e atacava Badalamenti e a organização pela pequena rádio AUT. Denunciou corrupção e favorecimentos a Badalamenti na construção de um aeroporto e de uma auto-estrada.

Passados seis anos e refeitos os laudos periciais, o Ministério Público concluiu ter Peppino sido assassinado pela máfia. De 1981 a 1983 explodiu uma guerra sangrenta entre as famiglie mafiose. E Badalamenti coloca-se contra os mafiosos da cidade de Corleone, comandados pelo sanguinário Totó Riina, que virou o capo dei capi (chefe dos chefes).

Badalamenti acabou preso em Madri, em abril de 1984. Ele participou da Operação Pizza Connection, de tráfico de heroína para os EUA e lavagem de dinheiro. No mesmo ano, rumou para o cárcere de Fairton (EUA), onde cumpre pena de 45 anos de reclusão, por força da Pizza Connection.

Apenas em 2002 logrou-se condenar o autor material do seqüestro e da eliminação de Peppino, ou seja, Vito Palazzolo. O mandante do crime, como revelou a prova, incluídos testemunhos de mafiosos do porte de Tommaso Buscetta e Gaspare Muttolo, havia sido Gaetano Badalamenti.

Aliás, tudo fora anteriormente mostrado no filme I Cento Passi, de Marco Tullio, vencedor do Festival de Veneza, em agosto de 2000. Badalamenti recebeu a pena de prisão perpétua, em 11 de abril de 2002. Como estava preso nos EUA, participou do julgamento pelo sistema de videoconferência.

Os desdobramentos desse processo criminal, no entanto, parecem não findar. Neste ano de 2004, Giovanni Impastato, irmão de Peppino, participou de um programa de televisão sobre violência e máfia. Uma das perguntas formuladas pedia sua avaliação sobre a tese apresentada na defesa de Badalamenti e constantemente proclamada pelo advogado Paolo Gullo.

Para Gullo, o falecido Peppino era terrorista e desequilibrado mental, tendo morrido em explosão por ele mesmo provocada, “num acidente de trabalho”. Sem pestanejar, Giovanni respondeu que se tratava de uma tese concebida por um imbecil. Resultado: em ação indenizatória, Giovanni foi condenado a pagar 5 mil euros ao advogado Gullo. Para o juiz da sentença, “uma tese de defesa em processo criminal pode ser criticada, mas o advogado não pode ser ofendido”.

As continuadas ofensas à memória de Peppino não foram consideradas pelo juiz. Nem os quase 24 anos de espera e de luta para resgatar a verdade sobre a morte do irmão Peppino.

Como o advogado Gullo avisou que doaria os 5 mil euros em benemerência, há um movimento na Sicília para que a doação não seja aceita por nenhuma instituição.


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