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Máfias/Dinheiro Sujo

 

A JOGATINA ORGANIZADA PAGA O MICO

Por IBGF/WFM

Os empresários da jogatina e os seus colaboradores vivem momentos de tensão. Isso porque começou a dar zebra para eles. Até agora, não faltaram más notícias, prejuízos financeiros, prisões, fuzilamentos, sangue e enterro de luxo. Muitos deles, que não acreditam na sorte e sim em cartas marcadas, pressentem o risco de pagar pelo mico na Justiça atrás das grades.

No Rio, Waldemir Paes Garcia, apelidado de Maninho e patrono do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, foi fuzilado. Ao que tudo indica, o móvel do crime decorreu de disputa pelo poder no submundo do crime e da contravenção. Além de Maninho, deram-se mal Ivo Noal, Waldomiro Diniz e o megaempresário espanhol Joaquín Franco Perez, co-propietário da Recreativos Franco S.A.

No caso Waldomiro, o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que a CPI da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro pode, sem intermediação judiciária, quebrar sigilos bancários e fiscais. O bicheiro Noal, por crimes contra a ordem tributária, teve a prisão preventiva decretada e trocou o seu bunker da avenida Angélica, no aristocrático bairro paulistano de Higienópolis, pela carceragem reservada aos detentores de diploma de bacharel em Direito. O refinado Franco pagou US$ 1 milhão de fiança à Justiça do Estado do Arizona.

A Recreativos Franco tem sede em Madri e representações em 50 países, incluídos os EUA. A empresa, há décadas, fabrica e exporta máquinas e componentes eletrônicos para jogos de azar.

O empresário Franco foi recentemente preso nos Estados Unidos e acusado de subornar um funcionário do Departamento de Fiscalização de Jogos de Azar do Estado do Arizona, conforme divulgaram os jornais espanhóis e norte-americanos.

Além do crime de corrupção, Franco vai responder por fraudes, em face de suspeitas relativas a alterações de programas de computadores, a afetar 3.900 arquivos de três distintos sistemas de jogos. Para criminalistas norte-americanos, ouvidos pelo diário The Arizona Republic, Franco poderá pegar até 15 anos de cárcere se comprovadas todas as acusações. Ressaltam haver sempre a saída à americana. Ou seja, pela barganha judiciária (plea bargaing), que é sempre condicionada à confissão da sua culpa. No assassinato de Martin Luther King, por exemplo, Early Ray confessou a autoria para evitar a cadeira elétrica. Até agora, Franco negou todas as imputações.

A imputação mais comentada diz respeito ao suborno de Daniel Muler, um investigador do Departamento de Jogos de Azar do Arizona. Em troca de grana polpuda, Daniel obteria, para a Recreativos Franco, decisões autorizando instalações de máquinas de jogos eletrônicos de azar em cassinos do Arizona.

A Recreativos Franco tem negócios no Brasil. Em junho de 1999, a Direzione Investigativa Antimafia (DIA) da Itália, por meio do Centro Operativo de Roma, encaminhou às autoridades brasileiras (Casa Militar da Presidência da República e Secretaria Nacional Antidrogas) declarações prestadas pelo italiano Lillo Rosário Lauricella. No Brasil, Lauricella lavava e reciclava, com Fausto Pellegrinetti, dinheiro de cocaína colombiana.

A lavagem e a reciclagem do dinheiro sujo do narcotráfico internacional eram realizadas por meio da introdução, em São Paulo e Rio de Janeiro, de máquinas eletrônicas de jogos de azar, como bingos e caça-níqueis. Numa primeira remessa, segundo a DIA, foram encaminhadas 35 mil máquinas ao Brasil.

Das declarações de Lauricella constaram negócios feitos com a família Ortis, conhecidos exploradores de Casas de Bingo no Brasil. E Lauricella frisou, ainda, ligações entre Ortis e a Recreativos Franco, cujos sócios proprietários sono amici da tanti anni.

Os grupos mafiosos de Pellegrinetti e Lauricella – para a lavagem e reciclagem de dinheiro sujo das drogas ilícitas dos cartelitos colombianos no Brasil – adquiriram componentes eletrônicos da Recreativos Franco, como demonstrado pela DIA, na Operazione Malocchio (Mal Olhado).

Outro personagem da história dos bingos e caça-níqueis no Brasil é o contraventor Ivo Noal, que, segundo a DIA, teve ligações com a criminalidade organizada de modelo mafioso, por intermédio do grupo de Pellegrinetti (foragido) e Lauricella (assassinado, depois de tornar-se colaborador da Justiça italiana e mudar para a Venezuela, onde explorava três cassinos).

Para permitir que as máquinas de jogos eletrônicos de azar funcionassem nos territórios que controla em São Paulo, Noal exigiu e recebia mensalmente US$ 80 mil. Como frisou Lauricella, as máquinas eram destruídas caso Noal não fosse pago. O próprio filho de Noal virou sócio em uma empresa de montagem e venda dessas máquinas, como noticiou o jornalista Vasconcelos Quadros, do Jornal do Brasil. Conforme frisou Lauricella, a “cúpula” do jogo do bicho do Rio garantia a exploração das máquinas.

Na madrugada do sábado 25, Noal foi preso pela Polícia Federal. Como de hábito, o mandado demorou a ser cumprido, pois Noal estava desaparecido desde que teve a prisão imposta na 6ª Vara Federal de São Paulo. Ele tem antecedentes criminais e, em 1998, acabou condenado por exploração de cassinos clandestinos. Noal é o introdutor, no Brasil, dos cassinos pinga-pinga, ou seja, que instalam-se por pouco tempo em cada mansão alugada. Com essa estratégia, evitava reclamações reiteradas de vizinhos incomodados. E a polícia podia chegar depois de já transferido o cassino.

As festas promovidas pelo contraventor na sua mansão em Ilhabela tornaram-se famosas, ao tempo que os colunistas sociais davam muito destaque ao carnaval carioca controlado pelos bicheiros, tudo sob as bênçãos do governo militar do general e presidente João Batista de Figueiredo.

Dentre os freqüentadores das festanças de Noal, destacava-se um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, que foi convencido, e não hesitou, a se aposentar. Noal migrou das colunas sociais para as páginas policiais dos jornais diante de suspeitas de ter mandado matar novos banqueiros do jogo do bicho. Em uma série apresentada pela Rádio Eldorado de São Paulo, destacou-se o assassinato, realizado no padrão gangsterístico e no bairro do Bom Retiro, de Salvador Carbone, apelidado de Francês.

Em sua trajetória, Noal tentou a vida parlamentar, mas a Justiça Eleitoral não deixou. Como era um contraventor conhecido, o Tribunal Regional Eleitoral desconfiou da veracidade da certidão de antecedentes criminais apresentada pelo candidato. Descobriu-se, então, que a chancela “nada consta”, inserta na certidão, decorria apenas do desaparecimento da ficha judiciária de antecedentes. Registro de candidatura cassado!

Barrado pela Justiça Eleitoral, Noal procurou concorrer a outro cargo, ou seja, o de conselheiro do Sport Club Corinthians Paulista. Coube ao jurista Rubens Aprobatto Machado, ex-presidente da OAB Federal, dar a estocada de São Jorge (símbolo do clube) na pretensão do bicheiro.

Naquele tempo, Castor de Andrade, potente banqueiro do bicho carioca e dirigente do Bangu Atlético Clube, tinha invadido, em Ubatuba, território de Noal. Capangas trocaram tiros e Castor recuou para Paraty, na divisa entre Rio e São Paulo. Castor era dono da Tecelagem Bangu e fingia empregar Antonino Salamone, membro da Cúpula de governo da Máfia siciliana (Comissione).

Como banqueiro do jogo do bicho, Noal mantém duas sólidas tradições. A primeira diz respeito à sua família. Seu avô e o seu pai também exploravam o jogo do bicho. A segunda tradição é a de nunca permanecer muito tempo preso.

Como se percebe, os chefões da jogatina experimentam, num jargão dos incautos jogadores de máquinas não fiscalizadas de estabelecimentos brasileiros, uma maré de azar, ou seja: só dá zebra.

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