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TOLERÂNCIA ZERO, SEGURANÇA PÚBLICA E MÁFIAS

Por IBGF/WFM

O prefeito de Nova York conseguiu a reeleição. Contou, certamente, com o reconhecimento pelo trabalho empreendido na área da segurança pública e que resultou na redução da criminalidade em cerca de 30%. A redução, efetivamente, mudou a imagem da cidade e representou fato gerador de novos investimentos. Devolveu a sensação de tranqüilidade aos novayorquinos, que à noite voltaram a freqüentar teatros, cinemas, restaurantes, etc. Alegrou os comerciantes, desejosos de turistas sossegados. No começo e com budget de milhões de dólares ao ano, o prefeito Rudolph Giuliani, no uso de atribuição exclusiva, nomeou chefe de polícia da sua confiança e com iguais idéias. Sabiam ambos que o fundamental, mais que os dólares, era estabelecer a sinergia entre as policiais. Na seqüência e com forte apelo populista, colocou Giuliani em execução o projeto denominado tolerância zero. O projeto, com nova roupagem, fundou-se na radical teoria desenvolvida por George Kelling e James Wilson, elaborada em 1982 e denominada broken windows. Os dois mencionados ensaístas entendiam imprescindível eliminar a desordem para se poder conseguir reduzir a criminalidade. Exemplificavam: "se você deixar uma janela quebrada, a delinqüência penetrará na sua casa". Para Giuliani, o valor absoluto era o respeito às leis, aplicáveis a todos, ou seja, aos ricos do Park Avenue, aos magnatas de Wall Street e aos pobres do Bronx e Harlem. A regra imposta à população, no entanto, resultou no abuso e violência policial, cujos agentes da autoridade precisaram ser reeducados para a legalidade. A propósito, Giulianni gastou horas na televisão pedindo desculpas pela violência policial. A pregada eliminação da desordem ficou simbolizada na esquadra policial denominada beer and piss patrol, que passou a incomodar pessoas flagradas urinando ou bebendo cervejas nas ruas. Surpreendidas, passavam o resto da madrugada custodiadas. O grotesco, no entanto, serviu como componente promocional. Por outro lado, o emprego de tecnologia de ponta permitiu o controle à distância de quarteirões e áreas de concentração da delinqüência. Equipamentos eletrônicos para captação, geração e gravação de imagens, conectados às redes de telemática e aos programas de informática, foram instalados em parques, semáforos e territórios de risco, em especial nos de venda retalhada de crack e de prostituição. O prefeito resolveu, também, contrastar o sistema paralelo de poder implantado pela parasitária e economicamente potente máfia ítalo-americana, também conhecida por Cosa Nostra. Conseguiu afastar a influência e o domínio mafioso na Festa de San Gennaro; no Fulton Fisk Market e na coleta e reciclagem do lixo da cidade. Dando combate à economia da máfia, aplicou a famosa Lei Ricco de repressão à lavagem de dinheiro e ao crime organizado. A propósito, antes de ser eleito pela primeira vez para o cargo de prefeito, Giuliani era Procurador Federal no distrito meridional de Nova York. Por força de acordo voltado à cooperação internacional, tinha atuado com o magistrado italiano Giovanni Falcone no combate ao crime transnacional. No seu projeto de tolerância zero, considerou corretamente a máfia como associação delinqüencial voltada à acumulação de riquezas, sempre conseguidas mediante intimidação ou corrupção. Vale lembrar que a Cosa Nostra tinha americanizado a festa napolitana dedicada a San Gennaro, que passou a ser comemorada durante a semana inteira. O bairro da Little Italy, no curso das festividades, passava ao controle da máfia. A Cosa Nostra, por suas famiglie, conseguiu, por mais de vinte anos, colocar-se como intermediária nos procedimentos tendentes à outorga das permissões administrativas para montagens e explorações de jogos, barracas de venda de alimentos, etc. A segurança da festa de San Gennaro competia aos soldados mafiosos, que extorquiam os comerciantes e asseguravam a presença de disfarçados vendedores de maconha, cocaína e heroína. As permissões administrativas foram imediatamente suspensas e quase ficou comprometida a tradicional festa. O chefe de polícia Bretton designou comissário incumbido de rastrear os fluxos financeiros , os seus destinatários e conferir os informes de rendimentos. Como resultado, colheu-se a redução da influência mafiosa na festa em memória de San Gennaro. No Fulton Fish Market, a situação era peculiar. Os empresários que não cedessem às exigências da máfia não conseguiam descarregar e nem distribuir os pescados destinados à comercialização. A mão de obra que cuidava do desembarque do pescado também era controlada pela Cosa Nostra, num verdadeiro sindicato do crime. Ainda, a máfia indicava as empresas distribuidoras, ou seja, sociedades constituídas com capital do crime organizado. Àqueles que tentavam comercializar sem autorização mafiosa, freqüentemente se acidentavam e perdiam a mercadoria. A pretexto de realizar análises contábeis e pesquisar antecedentes criminais, comissários infiltraram-se no Fulton Fish Market. Apuraram a forma real do seu funcionamento e o prefeito, então, cancelou alvarás de funcionamento. Restabeleceu a livre concorrência e enfrentou as greves organizadas pela Cosa Nostra, que acabou perdendo o controle do até então cativo mercado do peixe. Por outro lado, em cada distrito da cidade a máfia controlava a respectiva associação classista de empresas incumbidas da coleta e reciclagem do lixo. Assim e por via indireta, o governo mafioso orientava as concorrências públicas e fixava o preço dos serviços nos distritos. Comparada com outras grandes cidades americanas, a coleta e reciclagem do lixo de Nova York era a mais cara do mundo. Mais, o temor pela vida dos empregados e pelos danos patrimoniais, afastavam empresas que operavam em outros Estados americanos. Mais uma vez, a antiga lei Ricco foi utilizada pelo prefeito Giuliani. E todas as empresas e membros das associações distritais foram investigados. Desmantelou-se a estrutura que serviu ao interesse do crime organizado e sempre impediu a livre concorrência. Por lei, estabeleceu-se nova disciplina para os serviços e até a Waste Manegemente, considerada a maior empresa do setor, voltou a participar das coletas na cidade de Nova York. Com efeito. Ao contrário dos seus antecessores, o prefeito Giuliani conseguiu resultados que vieram ao encontro do desejado pela sociedade, que, para o futuro, continuará a esperar e exigir que a delinqüência seja reduzida a níveis suportáveis. E a sua sensibilidade ao apelo por tranqüilidade e paz social, dentro da legalidade e respeito aos direitos fundamentais, acabou o reconduzindo a um segundo mandato.


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