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IGREJA E MÁFIA: O EVANGELHO E A LUPARA

Por IBGF/WFM

A Agência ANSA veiculou notícia acerca da prisão do padre carmelita Mário Frititta, acusado de cumplicidade com a potente máfia siciliana. Posteriormente, na televisão, apareceram as imagens do padre algemado pela polícia.

Em tempo de alegria nos carmelos pelo recente reconhecimento de Santa Teresinha como doutora da Igreja e pelas vibrantes poesias de São João da Cruz ("Onde não há amor, põe amor e tirarás amor"), o mencionado sacerdote carmelita, pelo anunciado, mantinha estreitos vínculos com o impiedoso mafioso Pietro Aglieri.

Ligado ao grupo de Totó Riina, capo dei capi, o facínora Pietro Aglieri, de 38 anos e chamado em tosco dialeto siciliano de ‘u signurinu’, era o chefe da potentíssima ‘famiglia mafiosa’ di Santa Maria di Gesù.

Preparou e comandou a chacina de Via D’Amelio, que resultou na morte do magistrado Paolo Borselino. Executou a política de terror contra o Estado Italiano, engendrada pelo corleonese Riina, aliás mandante de mais de 800 homicídios. Aglieri foi o responsável, também, pelas auto-bombas que explodiram em Roma <14 maio 1993>, Firenze <27 de maio 1993, com a destruição da Torre del Pulci e da Accademia dei Georgofoli> e Milão <27 de julho 1993>.

A propósito, com Aglieri e Riina sepultou-se definitivamente a tradição da lupara bianca, fuzil de caça a lobos e arma-símbolo nos homicídios perpetrados pelos mafiosos. Somente a máfia matava pessoas com lupara bianca. A lupara tinha nascido na idade média na Sicília e difundiu-se com os gabellotti < disfarçados na figura de administradores> e os campieri < com carreira delinqüencial a dar suporte às quadrilhas e bandos>. Os gabellotti e os campieri, na verdade, constituíram-se na matriz geradora do tecido social mafioso.

Mas, e voltando ao ponto inicial, a prisão do padre Mário reabriu velha ferida, que o Papa João Paulo II havia tratado em 1993, por ocasião da tensa visita ad limina a Palermo. A sociedade civil, naquela ocasião, havia elaborado uma carta-aberta ao pontíficie, iniciada com um importante mea culpa, decorrente do fato de ter desprezado o fenômeno mafioso, entendendo-o representar um dos tantos casos de associações delinqüenciais comuns.

A resposta veio logo e o Papa, com a sua reconhecida coragem, admitiu a presença da máfia como o mais grave impedimento para uma autêntica evangelização. Proclamou: "é tempo de abrir o coração. Em nome de Deus, basta com a violência".Assim, procurou contrastar o insuportável fenômeno mafioso, sempre voltado à acumulação de riquezas materiais e ao controle social. Deixou claro que a máfia sempre representou o anti-Deus, ou melhor, procurou marcar no inconsciente coletivo a autêntica vocação do homem, que não corre atrás de riquezas, porque é quem deve enriquecer o mundo.

Por evidente, a chaga agora reaberta renovou o debate sobre Igreja e máfia, com velhas e novas estórias, a relembrar: &127 O Banco Ambrosiano, segundo relatou o arrependido Francesco Marino Manóia, recebeu, para lavagem, dinheiro depositado pela máfia; &127A Ordem Eqüestre del Santo Sepulcro di Gerusalemme, apoiada pela Igreja, chegou a se constituir em uma indesejada "espécie de maçonaria católica", plena de membros mafiosos; &127 O padre Agostino Coppola, condenado definitivamente por associação mafiosa, celebrou o casamento, numa pequena igreja do bairro de São Lourenzo, do então foragido chefão Totó Riina; &127A Igreja apoiou o Partido da Democracia Cristã, contaminado por mafiosos de ponta, com figuras como a do executado euro-deputado Salvo Lima < em vida mafioso siciliano> e do senador vitalício Giulio Andreotti. O senador Andreotti , quinze vezes ministro e presentemente processado por associação mafiosa e participação, como mandante, no homicídio do jornalista Mino Pecorelli ; &127O combate dado pela Igreja ao comunismo, com despreocupação com a máfia, que também refutava aquele regime; &127o emblemático Don Stilo, de Africo, e as acusações de ligações com a máfia calabresa <‘N Drangheta> e com o narcotraficante e mafioso Antonino Salamoni, atualmente brasileiro naturalizado; &127os frades de Mazzarino, dados como detentores de mentalidade mafiosa e as condenações dos padres Venâncio e Agrippino.

A ferida, no entanto, voltará a fechar, pois a Igreja já elaborou o remédio, ou seja, não aceita o fenômeno delinqüencial e nem a mentalidade mafiosa. Evidentemente, não pode ser medida pelos deslizes de alguns poucos. Por outro lado, não se deve esquecer que vários padres, no trabalho de evangelização e conscientização, foram mortos por mafiosos. E nesse passo é importante recordar o martírio do padre Pino Puglisi.

Além do mais, existe absoluta incompatibilidade entre o comportamento do cristão e do mafioso. Jamais haverá confusão de valores, pois somente o primeiro conseguirá desejar a paz ao semelhante e vigilante aguardará a parusia. Sua reta intenção sempre estará dirigida a Cristo, que é o fim e o motivo das suas ações.

A Sicília não é terra só da máfia, como demonstrado pelas reações da sociedade civil. E a Sicília mantém, desde 1740, uma das manifestações mais vivas da espiritualidade cristã: a novena da Viaggiu Dulurusu. Em dialeto siciliano, canta-se por nove dias, no período do Natal, textos compostos por Binidittu Annuleru (, --nome artístico do padre António di Liberto, que servia em Monreal--), referentes à fatigante e gloriosa viagem de Maria e José. Os relatos mudam diariamente, mas a melodia é sempre a mesma.

Em síntese, o Evangelho não é a lupara. O sangue, no primeiro, é o símbolo da fonte da vida, da nova e eterna aliança; na lupara, é o anátema.


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