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Máfias/Dinheiro Sujo

 

Máfia. O jornalista Lirio Abbate é o novo alvo.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

Roma, 7 setembro de 2007.



.Viva e pronta para matar.
A Sicília é terra de grandes escritores. Talvez o mais conhecido no Brasil seja Pirandello.

Dos grandes escritores sicilianos, Leonardo Sciascia, nascido em janeiro de 1921 e morto em novembro de 1989, escreveu e ra profundo conhecedor da máfia e do “espírito mafioso”.

Além de escritor, Sciascia era jornalista. Certa vez, no Instituto Italiano de Cultura, os alunos do último ano tinham que formar grupos para traduzir um livro. Uma das traduções era publicada.

O livro Il Giorno della Civita (O Dia da Coruja) foi um dos traduzidos e mostra como a Máfia difunde o medo: intimidação difusa .

A respeito, tem uma passagem extraordinária no livro. Numa praça de Palermo, pessoas, bem cedo, acotovelavam-se para conseguir um lugar no ônibus que estava para passar.

Na referida praça fazia ponto, há anos, um vendedor de certo doce siciliano: panelaro.

Pois bem. O ônibus chegou e o primeiro a colocar o pé no degrau para subir recebeu um estrondoso tiro na cabeça, que ecoou por toda a praça. Caiu morto.

Quando a polícia chegou, no local só estavam o motorista e o cobrador do ônibus. Em outras palavras, ninguém quis ficar para testemunhar. Em resumo, a lei mafiosa do silêncio, ou seja, a omertà.

O motorista disse que olhava para frente e nada vira. O cobrador frisou que trabalhava e ganhava para isso e não para ficar a olhar a praça, onde ocorrera o disparo.

Aí, os policiais foram atrás do doceiro (panelaro), que sempre estava na praça. Não negou que lá estivesse. Mas, ao ser indagado sobre o ocorrido, o doceiro perguntou: dispararam?
Lirio Abbate.


Para Sciascia, a Máfia, para intimidar, faz vítimas anônimas e cadáveres excelentes, ou seja, pessoas conhecidas, de posição social, como juízes, senadores, deputados, policiais, prefeitos, etc.

Na Sicília, ainda lembrando Sciascia, existem pessoas sempre prontas a se associar, formar uma “cosca” (bando mafioso) para auferir vantagens patrimoniais indevidas. E, também, aqueles que não se curvam e têm de viver isolados.

Em resumo. Na Sicília, a máfia (Cosa Nostra) poderá produzir mais um “cadáver excelente”, para usar a expressão de Sciascia. E alguém que vive isolado, pois não compactua com o silêncio e nem integra uma “cosca”

O certo é que a máfia voltou a dar sinal de vida.

Ela se fingia de morta, depois da prisão do chefão Bernardo Provenzano.

Provenzado ficou foragido 43 anos. Só tirou o pé da Sicília uma vez, para operar a próstata na francesa Marselha.

E a máfia deu sinal para intimidar um jornalista.

Se não silenciar, um jornalista da agência Ansa (presente em 74 países) poderá ser eliminado pela Cosa Nostra. O jornalista é siciliano e se chama Lírio Abbate. Ele está sob escolta armada.

A agência Ansa quer transferi-lo da Sicília para Roma, mas Lírio Abbate resiste e disse: “Estou sob escolta numa Sicília sem honra”.

Lírio Abbate mostrou uma rede de cumplicidades a envolver políticos e que garantiu a “fuga” de Provenzano, ou seja, ficar blindado por 43 anos, sem perder o poder de mando.

Com a escolta, a vida profissional de Lírio ficará complicada Não dá para imaginar um jornalista sair às ruas, a fim de preparar matérias, sob escolta. Visitar uma das suas fontes reservadas, com esclta, é algo impossível

Para pior, a polícia acaba de descobrir uma bomba incendiária, com “timer” programado, colocada debaixo do automóvel do jornalista Lírio. A máfia sabe que Lírio prepara um segundo livro sobre Cosa Nostra e políticos. E a máfia percebeu que o primeiro livro virou sucesso editorial. Os procuradores antimáfia sabem que Lírio não quer deixar a Sicília. Fala em brio profissional. Melhor explicando, não sairá da Sicília por uma questão de respeito à sua própria pessoa e ao seu trabalho.


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