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Máfias/Dinheiro Sujo

 

CORRUPÇÃO. EM NOME DA HONRA II

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

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4 junho de 2007.






Na famosa Operação Mãos Limpas, que comprovou corrupção na política partidária italiana e relações ilícitas entre empresários e políticos, os espíritos do mestre dos samurais, Saigo Takamori, e do comandante Takijiro Onishi, o inventor dos camicases, baixaram no presídio e em residências transformadas em prisões domiciliares.

Provas irrefutáveis levaram alguns empresários, envergonhados, ao chamado “suicídio purificador da honra”. Ou seja, realizaram uma volta sobre si mesmos, espécie de compunção, para exame de pretéritas condutas anti-sociais, geradoras de vantagens financeiras indevidas. Na seqüência, lançaram auto-sentença punitiva, verdadeiro resgate póstumo da dignidade.

Para ficar em dois exemplos de peixes grandes da Operação Mãos Limpas, vale lembrar os suicídios de Gabriele Cagliari e Raul Gardini. Também o infarto fulminante do deputado Vincenzo Balzamo, que, pouco antes do suspiro final, desabafou na Justiça: “Si, ho rubato, ma rubavano tutti” (Sim, roubei, mas todos roubavam).

Cagliari era presidente da mais rentável empresa italiana, a ENI, do setor de petróleo e energia. Preso preventivamente em 9 de março de 1992, foi encontrado morto na cela em 20 de julho de 1993, com carta-confissão e pedido de desculpas próximos ao corpo. Emocionada, a viúva de Cagliari devolveu ao governo italiano 6 bilhões de liras, recebidas ilegalmente pelo falecido a título de comissões. Fora isso, descobriu-se o caixa 2 (fondo nero) da ENI, com 500 bilhões de liras para pagar comissões e amolecer políticos.

Dentre os livros mantidos na cela por Cagliari, não constava o best seller Sidarta, do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962). A propósito, a fonte principal de inspiração de Hesse foi o ensinamento de Sidarta Gautama, em especial o desapego a bens materiais.

À época, vale frisar, não havia outra chave-interpretativa do pensamento prático do Iluminado (Buda). Só agora surgiu Zuleido Veras, da Gautama.

Gardini era presidente da Montedison de energia, antiga Sistema Estatal Edison. Para ter idéia, a Montedison construiu na Europa as primeiras centrais termoelétricas e de energia eólica. Em prisão domiciliar, Gardini foi encontrado morto em 23 de julho de 1993. Pouco antes, Carlo de Benedetti, presidente da Olivetti, havia confessado a entrega de 20 bilhões de liras para financiamento ilícito de partido político (na Itália, o financiamento é público).

Na véspera do pouco convincente e constrangedor discurso de Renan Calheiros, na condição de presidente do Senado e sob suspeita de promover interesses de empreiteiras em troca de vantagens financeiras, o ministro japonês da Agricultura, Toshikatsu Matsuoka, de 62 anos, partiu para o jisatsu, o suicídio simplificado, diverso do suicídio ritual, conhecido no Japão por hara-kiri ou seppuku.

Matsuoka foi encontrado pendurado numa porta, no anexo da Dieta (Câmara), que serve de apart-hotel para os parlamentares. Ele era deputado, afastado para integrar o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe. O ministro faleceu logo ao chegar ao hospital, sem a veste branca do samurai, mas envergando um prosaico pijama.

À semelhança do supracitado Cagliari, da ENI, o ministro japonês deixou uma carta-confissão em face dos desmandos e da suspeita de ter recebido indevidamente 1 milhão de ienes (cerca de 16 mil reais). Antes de partir para o enforcamento salvador da honra, Matsuoka escreveu: “Estou bem consciente das minhas responsabilidades de ministro. É meu dever proceder deste modo, para que coisas similares não se repitam”.

Não é da tradição brasileira pagar com o próprio sangue pelas falcatruas e assaltos ao Erário público. E a Justiça não dá respostas no tempo e à altura do desfalque. Ela banalizou a prisão cautelar, que, absurdamente, passou a ser considerada como pré-condição para realização de buscas e apreensões.

A prisão preventiva, importante medida de segurança social, acabou deturpada e transformou-se até em instrumento para garantir revelações em interrogatórios. Chegou-se ao absurdo de a ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), manter a prisão de Zuleido por ter ele exercitado o direito constitucional de se manter em silêncio.

Pior, o Supremo Tribunal Federal, em decisões liminares lançadas pelo ministro Gilmar Mendes, advertiu que as prisões, no STJ, foram lançadas sem motivação, ou melhor, sem dar as razões, caso a caso. A respeito, a Constituição da República exige decisão fundamentada.

Como se nota, no Brasil de nenhum suicídio por honra, só o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e o concurso público não bastam para certas funções.

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