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Máfias/Dinheiro Sujo

 

Tutti Rubiamo Cosi.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

A operação Navalha da Polícia Federal coincide com o 15º aniversário da internacionalmente famosa Operazione Mani Pulite (Mãos Limpas), popularmente chamada de Tangentopoli (Propinópolis), conduzida por um pool de magistrados do Ministério Público de Milão.

Mario Chiesa, o Mariuolo.


As duas operações criminais revelam ser comuns, pelo planeta e em todos os tempos, as correlações entre empresários, políticos, partidos, funcionários e administradores públicos em busca de indevidas vantagens financeiras.

Essas vantagens e promiscuidades permitem aos políticos a conquista de maior poder e aos empresários mais negócios.

Nesses tipos de ações criminosas, onde empresários e políticos formam uma societas criminis, a atuação é claramente parasitária, ou seja, os envolvidos encostam para sugar o Estado, em todos os níveis de governo: municipal, estadual e federal.

Num depoimento de senador condenado na Operação Mãos Limpas, chamou a atenção a observação de “a política custar muito e os partidos serem máquinas de comer dinheiro (mangia-soldi)”. Para o então senador socialista italiano Antonio Natali, que recolhia comissões provenientes do setor de transporte e que passou bom tempo preso cautelarmente, os partidos, no que toca à arrecadação de fundos, “evoluem” da colaboração da militância e do financiamento público para o clientelismo.

Saverio Borelli. o procurador chefe do pool de Mani Pulite, já aposentado.


Nas operações Navalha e Mãos Limpas, verificados os motivos que deram origem às investigações e os resultados finais, fica claro ter-se buscado extirpar um tumor e se deparado com metástases por todos os lados.

A operação Navalha, por exemplo, começou em 2004 para investigar policiais suspeitos de corrupção. Ela culminou com metástases criminais em nove estados, tudo protagonizado pela Construtora Gautama, chefiada pelo empresário Zuleido Soares Veras, que, ao que parece, não vai demorar a sair da prisão. Como precedente judiciário, poderá invocar o case Marcos Valério-Delúbio, que nunca foram presos cautelarmente.

Em Milão, o prestador de serviços de limpeza Luca Magni não suportou, no início de 1992, os achaques de Mario Chiesa, um político (equivalente a vereador em Milão) ocupante, desde 1986, de prestigioso cargo no segundo escalão.

Por indicação do ex-primeiro-ministro Bettino Craxi, o referido Chiesa presidiu o megacomplexo hospitalar público denominado Pio Albergo Trivulzio (PAT). Ele recebeu a incumbência de arrecadar para dois ex-prefeitos de Milão, Paolo Pilliteri (cunhado de Craxi) e Carlo Tognoli, depois deputados, e de fazer caixa para a campanha de Bobo Craxi – atualmente vice-ministro no governo de Romano Prodi e filho de Bettino.

os procuradores que deram início à Operação Mãos Limpas.


Preso ao receber um envelope, semelhante àquele filmado e embolsado na sede do Ministério de Minas e Energia pela assessoria do demissionário ministro maranhense Silas Rondeau, o engenheiro Chiesa permaneceu em silêncio por quase um mês, no cárcere de San Vittore de Milão.

Convém frisar que, na posse das tangenti (comissões) contidas no envelope e de outras liras empacotadas e recebidas pouco antes de outro empresário, Chiesa correu para o banheiro e tentou enviá-las ao esgoto, via vaso sanitário e um equipamento de descarga. Este, no entanto, foi incapaz de dar vazão a tamanho volume de dinheiro sujo.

Quando estava encarcerado, Chiesa ouviu o ex-premier chamá-lo, pelos jornais e televisões, de mariuolo (malandrão). Sentiu que o filho de 15 anos não respondia mais às suas cartas e soube estar o adolescente, no colégio Beccaria (nome do precursor do Direito Criminal moderno), sendo chamado de figlio di mariuolo. Além disso, a segunda esposa estava grávida de sete meses.

A primeira frase de Chiesa foi de arrasar, ao sintetizar a corrupção na política partidária: Tutti rubiamo così (Todos roubamos assim). Como se noticiou à época, as fraudes existiam em todos os campos: hospitais, obras públicas, cemitérios, transportes públicos etc.

Com a lama da participação nas grossas tangenti, o ex-premier Craxi fugiu para a Tunísia, depois de atravessar uma chuva de moedas atiradas por cidadãos honestos. Novos partidos políticos foram criados, a presumir novos hábitos. Vários empresários se suicidaram de vergonha, conforme cartas-confissões, e algumas das suas viúvas lutaram, com unhas e dentes, para manter as fortunas.

Na terça-feira 22, o jornal Corriere della Sera revelou que, no 15º aniversário da Operação Mãos Limpas, 58% dos italianos não suportam os políticos. Para 80%, “os políticos estão interessados no voto dos cidadãos e não nas suas opiniões”. Depois das duas últimas operações da Polícia Federal, Navalha e Furacão, os brasileiros não pensam diferente.

WFM/CARTA CAPITAL, 28 de maio de 2007.


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