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Máfias/Dinheiro Sujo

 

CRIME ORGANIZADO. Conexão Parque Laje

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

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Foto tirada pela Direção de Investigação Antimáfia de Roma, no carioca Parque Laje. O lavador de dinheiro sujo da máfia, Lillo Lauricella (cabelos brancos), conversa com Filippidu, outro italiano, que o assessorava no Rio de Janeiro.







Dois automóveis blindados, sirenes ligadas e luz azul intermitente estacionam na entrada do albergue Politeama, localizado na praça com o mesmo nome, em Palermo. À época, 1996, a cidade italiana era considerada a capital mundial do crime organizado de modelo mafioso, título atualmente nas mãos de Moscou.

O acolhedor lobby do hotel começou a se esvaziar. Os hóspedes, assustados, aglomeravam-se na portaria em busca das chaves dos apartamentos. Não era nada de mais. O então procurador antimáfia da Sicília Giancarlo Caselli passava pelo hotel para buscar um amigo brasileiro para jantar. Lógico, pediu desculpas por não poder ser num restaurante: questão de segurança.

Durante o jantar, Caselli observou que nenhum bando de delinqüentes comuns, no globo terrestre, tinha durado mais do que 20 anos. E arrematou: a máfia existe há 150 anos, pois é uma associação nada comum. O convidado brasileiro afirmou que uma organização ilícita do Rio de Janeiro, também incomum e igualmente fora-da-lei, com órgão de cúpula semelhante ao da máfia siciliana, mantinha-se viva e atuante há décadas. Em 1941, o jogo do bicho virou um negócio lucrativo. Três anos depois, um decreto-lei o definiu como contravenção.



No Rio, a cúpula do bicho sempre andou de namoro e agrados com a Cosa Nostra siciliana. Nos anos 50, o capo-mafia Antonino Salamone, foragido da polícia, desembarcou no porto do Rio. Foi recebido por Castor de Andrade, que lhe deu um emprego de fachada na Tecelagem Bangu, de sua propriedade.

Mais tarde, Salamone, mafioso e traficante internacional de drogas, condenado e com mandados de prisão nos Estados Unidos e na Itália, recebeu a cobertura da ditadura brasileira. O então ministro da Justiça Armando Falcão concedeu ao foragido a naturalização. Salamone virou brasileiro naturalizado por influência de Castor de Andrade.

A máfia siciliana modernizou-se e ingressou no universo da tecnologia de ponta, com assessoria especializada para lavagem de dinheiro. Representada pelo capo dei capi, Totò Riina, a família mafiosa de Corleone, cidade berço dos mais sanguinários chefes da organização, contratou Lillo Lauricella para limpar os milhões arrecadados de forma ilícita.

Lauricella, que adorava o Parque Laje, no Rio de Janeiro, era associado a Fausto Pellegrinetti, um dos cinco grandes lavadores de capitais sujos do planeta. Discípulo de Mayer Lansky, o gênio financeiro da Cosa Nostra de Nova York, Pellegrinetti transformava em dinheiro legal os desvios dos donos dos cassinos de Las Vegas.

Com o FBI nos calcanhares, Pellegrinetti resolveu mudar de ares. Começou a trabalhar no Brasil, na República Dominicana e na Rússia. Os principais clientes passaram a ser os chefões do tráfico internacional de drogas, principalmente da Colômbia.

No Brasil, coube a Lauricella procurar a cúpula do jogo do bicho do Rio. Como afirmou na Direção de Investigação Antimáfia de Roma (DIA) e perante um magistrado, a cúpula dos bicheiros, como a máfia, controla territórios, divididos com os afiliados, além de, evidentemente, resolver conflitos entre Turcão, capitão Guimarães, Anísio Abraão e Castor de Andrade. Ao juiz, Lauricella observou: “De que me adiantaria colocar máquinas eletrônicas de jogos de azar sem permissão e, no dia seguinte, constatar que estavam destruídas?”

O “investimento” era pesado, equivalente ao lucro da venda no mercado internacional de 900 quilos de cocaína pura. Lauricella espalhou Brasil afora 35 mil máquinas de jogos eletrônicos de azar, com componentes trazidos de uma empresa de origem espanhola com filial nos Estados Unidos.


Em interceptação telefônica realizada pela DIA, e depois confirmada perante relato a magistrado, Lauricella informou, do Rio, a Pellegrinetti, na Itália, que tudo caminhava bem. Uma lei nova autorizava a exploração de máquinas eletrônicas de jogos de azar (Lei Zico). Nenhum empresário da jogatina, ou mesmo da cúpula de bicheiros do Rio, tinha recursos financeiros suficientes para investir em um país de dimensão continental como o Brasil.

Lauricella, em outra interceptação e em interrogatórios policial e judicial, afirmou ter fechado parcerias com a cúpula do jogo do bicho do Rio, com a família Ortiz, Alejandro pai e Alejandro filho, em São Paulo e com o bicheiro paulista Ivo Noal.

“A Ivo Noal pagamos 80 mil dólares por mês. Começamos do Brasil porque havia Ortiz, que era o mais forte. No Rio de Janeiro existe uma cúpula como nós a entendemos. Ou seja, onde tem chefe e subchefes a controlar territórios”, afirmou ao juiz antimáfia italiano.

Em entrevista a CartaCapital, o general Angiolo Pellegrini, ex-diretor da DIA, não deixou dúvidas sobre a existência da conexão Brasil-Colômbia-Itália. “O grupo chefiado por Fausto Pellegrinetti traficava drogas e lavava dinheiro proveniente desse tráfico em diversas atividades e em diferentes países, inclusive o Brasil, por meio de Lillo Lauricella”, afirmou. Pellegrini chefiou a DIA durante a Operação Malocchio (Mau-Olhado), armada para liquidar a conexão mafiosa ítalo-brasileira de lavagem de dinheiro da cocaína. O general acrescentou: “Sabemos que o grupo de Pellegrinetti fez sociedade com algumas empresas e com a família Ortiz. Os Ortiz são brasileiros e as coisas aconteceram no Brasil, portanto, não era nossa competência processá-los”.

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A respeito da família Ortiz, que ajuizou contra este colunista de Carta Capital (também presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone) duas rejeitadas queixas por crimes contra a honra-crimes, tudo em razão de duas reportagens e uma coluna publicadas na revista em 2004, o coordenador da Operação Malocchio, Lucca Armeni, detalhou os passos da lavagem de dinheiro. Pellegrinetti e Lauricella enviaram dinheiro ao Brasil por meio da Astro Turismo. O fluxo do dinheiro passava por Suíça, Andorra e Estados Unidos. Provas documentais mostram saques feitos pela Astro Turismo em favor da Bingo Matic Produtos Eletrônicos, sociedade integrada pela família Ortiz.

Na Itália, quem praticou crime de lavagem e reciclagem de dinheiro de cocaína na Operação Malocchio foi condenado. No Brasil, apesar do acesso às mesmas provas contundentes reunidas pelos investigadores italianos, um procurador da República pediu o arquivamento do inquérito, por inexistência de crime.

O arquivamento causou surpresa na Itália, principalmente entre os especialistas antimáfia. Dizem ter ocorrido algo ilógico. <>Ou a Justiça italiana errou ao condenar por lavagem de dinheiro os envolvidos ou o Ministério Público Federal brasileiro comeu bola, no sentido de deixar de entender o que realmente sucedera.
As prisões resultantes da Operação Hurricane mostram quem tinha razão no caso. Com a palavra, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza.

Com Pellegrinetti foragido e Lauricella metralhado depois de colaborar com a Justiça italiana, os brasileiros da jogatina, de São Paulo e do Rio, receberam a herança deixada, de bandeja. A velha-guarda da cúpula carioca aproveitou-se da evolução tecnológica e o bicho cedeu espaço para a exploração das máquinas eletrônicas de jogos de azar.



A ambição de novos bicheiros provocou uma guerra de facções e assassinatos. Foi executado, por exemplo, Maninho, filho e sucessor de Miro, da velha-guarda do jogo do bicho. Miro possuía 7 mil máquinas eletrônicas e 1,4 mil pontos de jogos. Por mês, faturava 120 milhões de reais.

Na sucessão de Castor de Andrade, parte da polícia restou corrompida. Pior, o ex-chefe de polícia Álvaro Lins, eleito deputado, está sob suspeita de patrocinar os rivais sucessores de Andrade. Condenados, eles eram dados como foragidos da Justiça, sem deixar de circular livremente em pontos vips cariocas.

Na Operação Hurricane, confirmou-se uma antiga lição do juiz Giovanni Falcone, mártir na luta contra a Cosa Nostra siciliana. Ensinou Falcone que organizações de formato piramidal, com órgão de cúpula (governo), são parasitárias, isto é, grudam nos poderes do Estado.

A se confirmar em juízo o revelado no inquérito que deflagrou a operação, integrantes do Judiciário deram sustento e vida à parasitária cúpula do bicho e dos jogos eletrônicos.

O furacão que surpreendeu o Rio de Janeiro na sexta-feira 13, é bom lembrar, passou pelo Arizona. Lá, levou para a prisão o proprietário da Recreativos Franco, uma empresa espanhola que é a maior produtora e exportadora de componentes para jogos eletrônicos de azar. E que forneceu equipamentos para as primeiras máquinas instaladas no Brasil.

Franco, o dono, subornava o responsável pela fiscalização das máquinas eletrônicas instaladas nos cassinos norte-americanos. Mais ainda, segundo a polícia e a perícia, os equipamentos da Recreativos Franco contavam com programas que forneciam chances mínimas aos apostadores. Para deixar a cadeia, o empresário espanhol pagou a maior fiança fixada pela Justiça do Arizona, estimada em milhões de dólares.

WFM, abril de 2007.


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