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Máfias/Dinheiro Sujo

 

CRIME ORGANIZADO E AGENTES ENCOBERTOS. INFILTRAÇÕES e riscos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

No filme Traffic foi colocado um sósia no papel do czar antidrogas mexicano, general Rebollo. Ele foi acusado de ter sido cooptado pelo cartel de Tijuana.



Ao tempo da Guerra Fria, fazia parte do cotidiano dos serviços secretos infiltrar 007 no bloco adversário, comprar conhecimentos e desinformar os agentes duplos. Nem sempre essas operações davam certo.

Certa vez, Oren Riff, graduado do serviço secreto de Israel (Mossad), convenceu o palestino Mohammed Moukharbel a fazer jogo duplo, um deles de agente infiltrado a soldo do Mossad. Moukharbel era da organização terrorista Setembro Negro, braço armado da Al-Fatah e executora do assassinato de 11 atletas judeus, participantes dos Jogos Olímpicos de Munique (1972).

Moukharbel informava a respeito de Ilich Ramirez Sanchez, venezuelano de nascimento e conhecido como Carlos, the Jackal (o Chacal). À época, Carlos, o Chacal, era o terrorista mais procurado e famoso do planeta. Gozava de proteção do serviço secreto da Alemanha Oriental e se tornara, sem falar árabe, gestor das organizações palestinas que atuavam clandestinamente na Europa. Carlos era o Bin Laden daquele tempo, ou seja, o principal terrorista multinacional.

Walter Laqueur, um conhecido especialista sobre o fenômeno do terrorismo internacional, traçou um perfil de Carlos, o Chacal. Para ele, Carlos era um agente infiltrado “psicopata” e de vida boêmia: “A Carlos dava prazer matar pessoas e, quando foi processado em Paris, no ano de 1997 e depois de ser extraditado do Sudão, não demonstrou remorso pelos assassinatos (segundo Carlos, mais de 80). Como a maior parte dos psicopatas, não tinha medo de nada e nunca admitiu ter cometido enganos. Gabava-se de jamais ter matado uma mulher, porque isso não era digno do tipo de macho revolucionário latino-americano, que encarnava”.

No início de junho de 1974, Moukharbel foi convidado para um encontro secreto com o Chacal, em Paris. De pronto, avisou o Mossad. Na véspera do encontro marcado para 10 de junho de 1974, o Mossad participou ao serviço secreto francês, omitindo a presença de Chacal, o encontro do agente infiltrado com um poderoso traficantes de armas. Três 007 franceses foram designados para acompanhar Moukharbel e prender o traficante.

Acompanhado dos três agentes franceses, Moukharbel dirigiu-se ao local do encontro, um apartamento com entrada única, à rua Toullier, em Paris.

Ao toque da campainha, o próprio terrorista Carlos abriu a porta, com uma guitarra presa ao pescoço. Percebeu a traição por Moukharbel estar acompanhado. Com cara de vencido e conformado, Carlos, o Chacal, com naturalidade, colocou a guitarra no sofá e apanhou o seu paletó. Debaixo dele havia uma destravada e carregada metralhadora calibre 38. Moukharbel foi o último a ser alvejado, pois Carlos sabia que ele só andava desarmado: recebeu três balaços na cabeça.

Uma hora depois, Oren Riff embarcou num avião da El-Al, com destino a Tel-Aviv. Na bagagem, portava uma certeza: tivesse contado sobre Carlos à inteligência francesa, o resultado seria outro.

Pós-queda do Muro de Berlim e com Chacal preso na França em 1994, houve a escalada de dois outros fenômenos sociais: a criminalidade organizada sem fronteiras e o terrorismo fundamentalista. Diante disso, a infiltração de policiais, de agentes de inteligência e de delinqüentes contratados pelas forças de ordem, transformou-se em usual instrumento de contraste e prevenção.

Só que o crime também se infiltrou no Estado: o ex-czar antidrogas do México, general Gutiérrez Rebollo, acabou cooptado pelo Cartel de Tijuana. Rebollo participou de reuniões estratégicas no escritório do czar antidrogas da Casa Branca, durante o governo Bill Clinton, e na agência contra as drogas e o crime da ONU, em Viena.

Rebollo foi mostrado de maneira disfarçada no cinema em Traffic. O filme, premiadíssimo, mostrou os cartéis mexicanos em ação e o seu poder corruptor. Um sósia de Rebollo foi colocado como ator.



Para evitar ações indenizatórias, uma vez que Rebollo não tinha sido definitivamente julgado, o personagem do filme morre. Na vida real, Rebollo está vivo. No processo criminal, admitiu ter recebido dinheiro do narcotráfico, pois necessitava manter a tradição de “machão latino-americano”: declarou manter cinco amantes, com muitas jóias, dólares e boa vida.

Nos estados democráticos de direito, a infiltração é prevista em lei, exige autorização judicial, agentes treinados e fiscalização do Ministério Público. No Brasil, a lei admite infiltração pelas polícias e pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Com o passar do tempo e em face de crimes hediondos, nasceu na Itália, para repressão às máfias, uma radical mudança no instituto da infiltração. Assim, tornou-se possível evitar que o agente sob cobertura legal continuasse a desenvolver ações tecnicamente lícitas, mas eticamente repulsivas. Igual procedimento não foi adotado pelas agências norte-americanas, em especial aquelas dedicadas à falaciosa e oportunista War on Drugs.

Para evitar que o agente infiltrado cometa ilícitos penais e, depois, invoque uma causa legal excludente de ilicitude (como estado de necessidade ou estrito cumprimento do dever), a solução italiana focou na economia movimentada pelas máfias e cartéis: 400 bilhões de dólares anuais, pelo sistema bancário internacional.

Com efeito, o agente não mais ingressa na associação criminosa. Ele se traveste de corretor autônomo, especializado em lavagem de dinheiro e reciclagem de capitais. E, como até as portas de ingresso dos bancos sabem, lavar dinheiro é uma necessidade das máfias.

No Brasil, suspeita-se que uma infiltração ilegal levou ao chamado Massacre da Rodovia Castelinho, em 2002: membros da criminalidade organizada (o Primeiro Comando da Capital, o PCC) foram induzidos a se deslocar de ônibus até um inventado assalto. Em um pedágio da rodovia, foram atacados por policiais. Só contavam com armas que estavam no ônibus e não funcionavam. As armas quebradas foram requisitadas pela polícia e saíram de um depósito do Poder Judiciário.

Instalou-se um inquérito, com o então secretário de Segurança Pública Saulo de Castro como investigado, que acabou arquivado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (23 votos a 1).

Carlos, o Chacal: dava trabalho à inteligência da Alemanha Oriental, pela vida boêmia.


No universo das trapalhadas, a infiltração de agentes policiais é imbatível. Por exemplo, dois policiais militares paulistas, sem preparo, foram executados pelo PCC. Eles foram delatados por seus próprios hábitos. Vestiam sempre meias de cor marrom, hábito de todo policial militar, usavam o termo “elemento” e repetiam a cada frase a palavra “positivo”.

Em Berna, dia 18 de fevereiro de 1998, cinco agentes do Mossad atuando como infiltrados numa organização secreta iraniana começaram a instalar, de madrugada, equipamentos de escuta num prédio. Uma velhinha insone, moradora no último andar, suspeitou e chamou a polícia. Resultado: cinco agentes infiltrados presos e a diplomacia em ação para soltá-los e abafar o caso.

IBGF/Carta Capital, janeiro de 2007.


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