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CRIME ORGANIZADO: Crônia de uma Trágédia Esperada

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/FOLHA DE S.PAULO

São Paulo, sexta-feira, 29 de dezembro de 2006.

*WÁLTER FANGANIELLO MAIEROVITCH.
TRAGÉDIAS como as do Rio e de São Paulo são esperadas diante da falência das políticas, nacional e estadual, de segurança. Ao desmoralizar o Estado com ataques em série e difundir o medo exibindo 18 cadáveres de vítimas anônimas, o crime organizado no Rio reagiu a uma situação que comprometeu sua economia próspera e afetou facilidades desfrutadas por seus chefões. Nas duas últimas semanas, a "pax mafiosa" celebrada no curso do governo da família Garotinho foi quebrada e a convivência espúria rompida. A reação do crime tem como causa o inquérito presidido pelo delegado federal Alessandro Moretti. Aliás, uma apuração que deveria ter sido realizada pelo governo da família Garotinho e cuja omissão beirou a prevaricação.



O inquérito apontou duas ilicitudes a revelar como o crime organizado se infiltrou no Estado. Nele, ficou patenteada a cooptação de policiais militares por narcotraficantes. Essa banda podre da polícia militar é conhecida, há anos, por Comando Azul. Com a prisão de 78 policiais militares, a PF logrou desfalcar o lucro dos narcotraficantes. Mais, ocasionou o recuo da sempre blindada "burguesia mafiosa", empresários de "cara limpa" que financiam, à distância das bocas-de-fumo, a oferta de drogas. O inquérito desnudou o sistema de proteção dada à rentável "indústria da jogatina eletrônica", iniciada, no Rio e São Paulo, com a lavagem de dinheiro da cocaína dos cartéis colombianos. Com a prisão do reciclador mafioso Lilo Lauricella, os bicheiros cariocas, seus associados, tomaram conta do "negócio". Aí, passaram a contrabandear componentes eletrônicos para montagem das máquinas de jogos de azar, jamais aferidas pelas autoridades. Pelo inquérito, Rogério de Andrade e Fernando Iggnácio, os maiores exploradores dos jogos eletrônicos de azar, tinham cobertura do ex-chefe de polícia Álvaro Lins: o policial Lins elegeu-se deputado estadual pelo PMDB com apoio da família Garotinho. Os dois notórios e supracitados contraventores, diante do apontado no inquérito, perderam os escritórios que mantinham na prisão. Foram transferidos de carceragens e proibidos de usar os seus computadores e celulares.

Diante do quadro de perda de vantagens ilícitas e privilégios, a reação era esperada. Além disso, narcotraficantes aproveitaram para intimidar o Estado que, desde 2005, assiste à expansão de milícias privadas, formadas por policiais da ativa e reformados. Na cidade mais violenta do mundo, Mogadício (Somália), as milícias privadas cresceram a ponto de conquistar a capital e expulsar o governo. As milícias passaram a controlar territórios antes governados pelos narcotraficantes: condomínios, favelas. Iniciaram a extorsão de moradores, impuseram suas leis e cobraram comissões por barracos vendidos e alugados. Em síntese, a perda de territórios e a conivência governamental em permitir a expansão das milícias acabaram por reunir as facções criminosas, na trágica madrugada de quinta. Diante de tal quadro, a tragédia era esperada. *WÁLTER FANGANIELLO MAIEROVITCH, ex-secretário nacional Antidrogas da Presidência, preside o Instituto Brasileiro Giovanni Falcone.


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