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CRIME ORGANIZADO: PCC e CAMORRA.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

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Brasil, Argentina e Uruguai foram mencionados em relatório oficial sobre a atuação da Camorra napolitana. A Camorra consolidou o status de organização criminal transnacional e econômica. Segundo estimado, os clãs camorristas movimentam, por ano e na Itália, cerca de 587 milhões de euros.

Numa visão comparativa, o Primeiro Comando da Capital de São Paulo (PCC), conforme inquérito policial revelado pelo jornalista Marcelo Godoy, conseguiu, por interpostas pessoas, adquirir 44 postos de gasolina na região do ABC e uma quantidade ainda indeterminada de microônibus para exploração comercial. As compras teriam sido realizadas com numerários provenientes da venda de drogas ilícitas e de roubos.

Composta de 40 clãs com atuação na cidade de Nápoles e mais 44 grupos espalhados pelo resto da Campânia, a Camorra é capaz de atuar sem limitação de fronteiras, de se inserir em atividades produtivas lícitas para reciclar capitais provenientes de atuações ilícitas e de administrar giros financeiros vultosos pelos sistemas bancário e financeiro internacional.

O PCC ainda não chegou a tanto, mas investe seus ganhos sujos em atividades formalmente lícitas. Como o melhor caminho para reprimir as organizações criminais especiais, tipo PCC e Camorra, é afetar a economia por elas movimentada, finalmente a polícia paulista passou a acreditar na máxima da pecunia olet, ou seja, o dinheiro tem cheiro e, portanto, pode ser seguido.

Nos últimos dois anos, a Direção de Investigação Antimáfia (DIA) seqüestrou bens de clãs camorristas avaliados em 400 milhões de euros. Em dez anos, quando o PCC ainda era neonato, a Camorra foi desfalcada em 1,1 bilhão de euros, representado por imóveis, dinheiro em contas bancárias e ações cotadas em Bolsa. A Guarda de Finanças, nos últimos cinco anos, fechou 357 mil sociedades comerciais ligadas à Camorra e estabelecidas na Campânia.

Ao contrário do PCC, que tem órgão de governo instalado no interior das prisões e afiliados que seguem as ordens transmitidas, a Camorra é formada por uma pluralidade de bandos quase nunca afinados: não há hierarquia ou cúpula com poder de mando.

Nascida no século XVI, somente nos anos 70 se tentou unificar os clãs. No presídio de Poggioreale, Raffaelle Cutolo, apelidado de “professore”, fundou a Nuova Camorra Organizzata (NCO). Mas velhos chefes de clãs se opuseram e criaram a Nuova Famiglia. Na seqüência, declararam guerra à NCO, que resultou numa centena de mortes.

Omertà (lei do silêncio) é quebrada por camorrista de Forcella, a "pátria da confrafação".


Como o PCC, a Camorra nasceu no meio urbano e pelo uso da violência mantém controle de territórios e social. Desde novembro, Nápoles assiste à guerrilha travada entre dois grupos de clãs. De um lado, estão os que controlam o centro e a periferia oriental (famiglie camorriste Misso, Mazzarella, Di Lauro, Sarno, Di Biase). Do outro, os dominadores do norte da cidade e da sua periferia ocidental (famiglie camorriste Licciardi, Contini, Lo Russo, Mallardo etc.).

Na semana passada, o clima de beligerância motivou um acerto de contas a demonstrar que a vendetta não prescreve nunca. O ex-chefe camorrista Luigi Giuliano, apelidado “Re di Forcella ( bairro conhecido como a “Pátria da Contrafação”), experimentou a vendetta trasversale: seu filho Salvatore, 32 anos, foi metralhado quando jogava bilhar no Napoli Club.

Preso em 2002, Luigi não suportou o cárcere duro e tornou-se um colaborador da Justiça. Entregou os outros chefões da Camorra e revelou a miríade de empresas controladas e em operação para lavar o dinheiro da droga, do tráfico de lixo urbano, das contrafações de marcas etc. Em face das delações, Luigi e a família ficaram sob proteção, em lugar desconhecido. O filho Giovanni, de 32 anos, resolveu renunciar à proteção do Estado e acabou assassinado.

A luta armada não interrompe os negócios dos clãs. Cada um continua a administrar uma série de empresas comerciais que atuam nos mercados internacionais. Por exemplo, descobriu-se que Mario Buonocore implantou 22 lojas para venda no Brasil, Canadá, Estados Unidos, Austrália, França e Portugal, Inglaterra e República Tcheca.

Quanto às contrafações, a Camorra inundou os mercados do Brasil, Alemanha, Espanha, Suíça, Canadá e França. Parte do material utilizado nas contrafações provém da China e a Camorra cuida do processo de composição e comercialização.



O camorrista Mario Fabbrocino adquiriu, por testas-de-ferro e para reciclagem de capitais na agroindústria, fazendas no Uruguai e na Argentina.

Em síntese, o PCC, ao comprar postos de gasolina e microônibus, começou, como fez a Camorra, a tecer uma teia para lavagem e reciclagem de capitais. E é aí que mora o perigo.

WFM/CARTA-CAPITAL, dezembro de 2006.


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