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Máfias/Dinheiro Sujo

 

MAFIA: A Número 1 do Crime Organizado.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

'NDrangheta, a transnacional máfia calabresa.




A Cosa Nostra siciliana vive seus piores momentos, mas ninguém acredita que essa secular organização criminosa transnacional esteja agonizante, até pelo forte vínculo mantido com membros poderosos da classe política italiana.

No planeta, a máfia siciliana só não é mais a primus inter pares. Ela cedeu lugar à 'Ndrangheta, de formato piramidal, cúpula de governo, 106 famiglie espalhadas por 409 cidades calabresas, 8 mil “soldados” e sede em Reggio Calábria.

Em razão da estratégia de ataques terroristas ao Estado italiano e aos seus representantes, o capo dei capi da máfia, Totò Riina, provocou uma emergência nacional. Esta resultou em pesada repressão pelas forças de ordem e os resultados positivos não cessaram após a sua prisão, em 15 de janeiro de 1993.

Antes de aterrorizar, Riina mantinha-se blindado, sem precisar deixar Palermo. Passou 23 anos e 6 meses foragido e o seu último domicílio era na aristocrática e palermitana Via Bernini.

O seu lugar de capo foi ocupado por Bernardo Provenzano, considerado um “fantasma”, em razão de ter passado 42 anos foragido: acabou preso em abril deste ano. Provenzano só deixou a Sicília uma vez na vida, para realizar uma operação de próstata, num hospital da francesa Marselha. A polícia contava com apenas uma fotografia sua, tirada dos arquivos de alistamentos militares, quando tinha 18 anos.

Antes de partir para Marselha, Provenzano tirou passaporte e ninguém notou os registros de ordens de prisão e as cinco condenações de perpétua. O poderoso Riina também gozava de facilidades, como escreveu Enzo Biagi, o decano dos jornalistas italianos: “Casou-se diante de um padre, batizou quatro filhos e, segundo um cálculo razoável, mandou para o outro mundo milhares de companheiros, todos devotos da Nossa Senhora da Anunciação, considerada a padroeira da Cosa Nostra”.

Na sexta-feira 17, pela primeira vez, 57 mafiosos sicilianos foram processados e julgados monocraticamente pelo rito abreviado (algo bem apropriado para integrantes dos PCCs, Comandos Vermelhos e similares). A soma das condenações ultrapassou 300 anos e a sentença foi dada pela juíza Adriana Piras, a primeira mulher a condenar mafiosos.

Os 57 mafiosos foram investigados por Marzia Sabella, integrante da magistratura do Ministério Público. Eles eram da rede tecida que deu, por 42 anos, proteção a Provenzano.

No domingo 19, quando do encerramento do encontro de três dias que levou o nome de Stati Generali dell’Antimafia, ficou patente que as organizações da sociedade civil continuam atentas e a disseminar uma cultura antimáfia.

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O premier Romano Prodi esteve na abertura e anunciou a criação de uma Agência Gestora dos Bens Apreendidos da Máfia. Por sua vez, a Associazione Libera apresentou, para venda no Natal, o catálogo de produtos das terras seqüestradas da criminalidade mafiosa. Chamou a atenção o vinho Cento Passi, nome do premiado filme sobre o assassinato do jornalista Peppino Impastato pela máfia: as uvas são de parreiras de fazendas que pertenceram à Cosa Nostra.

No curso do encontro, apoiou-se o protesto do senador Nello Formisano, do partido Itália dos Valores. Para o senador, não podem integrar a Comissão Parlamentar Antimáfia “aqueles que defendem a cultura da ilegalidade”. Formisano referia-se a dois membros com antecedentes criminais recém-eleitos para a Comissão Antimáfia. Um deles é Paolo Cirino Pomicino (Democracia Cristã), que está condenado por caixa 2 para financiamento de campanhas e partido político.

Enquanto a Cosa Nostra permanece na alça de mira, a calabresa N’drangheta torna-se a mais forte das associações delinqüenciais transnacionais.

O serviço secreto da República Federal Alemã (BND) descobriu, neste mês, que a 'Ndrangheta investiu cerca de 90 milhões de euros no país e usa, para trânsito de drogas e armas, a Saxônia, a Turíngia e a costa oriental do Mar do Norte.

Para reciclar dinheiro do tráfico europeu da cocaína colombiana e do comércio ilegal de armas procedentes do Leste Europeu, a 'Ndrangheta adquiriu, na Alemanha, hotéis, imóveis e condomínios em cidades turísticas. Além disso, comprou, na Bolsa de Frankfurt, ações da Gazprom, a gigante russa.

A Gazprom é parceira das alemãs Siemens e Ruhgas, que detêm 6,4% do seu capital acionário e formam o consórcio que constrói um metanoduto no Mar do Norte.

A N’drangheta é a operadora de rede planetária na qual estão conectados, dentre outros, os cartelitos colombianos de cocaína e as máfias da Albânia, da Rússia e da Síria.

WFM/Carta Capital, 27 de novembro de 2006.


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