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O CICLO DO ÓDIO

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 13 de agosto de 2015.
Tragédia no canal da Sicília


Conta-se que Albert Einstein teria dito ser mais fácil desintegrar o átomo do que acabar com os ódios na sociedade. Basta atentar para os primeiros sete meses de 2015 para lhe dar razão.



Sobre o tráfico de desesperados migrantes para a Europa, comove o relato do sírio Eyas Hasoun, dado ao jornal Corriere della Sera no apagar de julho e logo após a morte da sua filha Raghad, de 11 anos.



A menina sofria de diabetes. A esperança do pai era operá-la na Alemanha, onde ambos pretendiam chegar. Viajantes de um barco precário saído da Líbia, destinado ao tráfico de seres humanos e operado por uma das dezenas de organizações criminosas que passaram a deter parte do controle territorial e social do país depois da queda de Muammar Kaddafi, assassinado em 20 de outubro de 2011.



Segundo programado pelos traficantes de seres humanos, o barco chegaria à ilha siciliana de Lampedusa e Hasoun e Raghad fugiriam da Itália para a Alemanha. Pai e filha enferma pretendiam manter a clandestinidade e, para isso, tentariam evitar o obrigatório registro imigratório, medida geradora de proibição de ingresso em país da União Europeia diverso daquele do desembarque. A esperança de Hasoun virou pó ao cabo da aventura vivida para deixar uma Síria em guerra, evitar as tropas fiéis a Bashar el-Assad e as decapitação por “soldados” fanáticos do Estado Islâmico. Em alto-mar, o traficante no comando da embarcação atirou a mochila de Raghad às águas, embora sabedor de conter toda a medicação necessária a mantê-la viva. Pela falta de insulina, Raghad agonizou e morreu no curso da travessia, sem largar a mão do pai, desesperado e sem alternativas.



Nem essa tragédia conseguiu abrandar a xenofobia europeia, encabeçada por líderes populistas-fascistas, como a francesa Marina Le Pen e o italiano leghista Matteo Salvini. Em cena, na Europa de hoje, duas posturas opostas. De um lado o papa Francisco, que recomenda priorizar o ser humano. Do outro, o odioso discurso da direita europeia pelo fim da migração continental, e a sustentar o enganoso discurso do “ajudar nas próprias casas, nos seus países”, como se fosse possível dissuadir fugitivos e enviar ajuda do Chifre da África à Guiné Equatorial e aportes à Ásia. Fora isso, até a esfinge de Gizé sabe que dirigentes africanos gostam de embolsar ajuda internacional e manter na miséria os seus povos.



Nesta semana, dois barcos saídos da Líbia, ambos à deriva e um deles a fazer água, emitiram o SOS, captado por portos italianos. Houve pronta ajuda e 700 fugitivos foram salvos. Esse episódio, na esteira da tragédia da menina Raghad, reabre, desta vez com o secretário da CEI (a CNBB da Itália), monsenhor Galantino à frente, a repisar o pensamento do papa Francisco na condenação do ódio aos imigrantes, enquanto a direita europeia, clama contra a “invasão” da Europa. No pobre e falso discurso do “salvar as pessoas nas suas casas e nos seus países”, embarcou Beppe Grillo, ex-cômico, populista e líder do Movimento 5 Estrelas.



A solução possível e realista em face do fenômeno imigratório e do combate ao tráfico e exploração de seres humanos ainda não foi encontrado pela União Europeia. O recente sistema de cotas, pelo qual cada país haveria de receber um número determinado de imigrantes, está à beira da falência pelo simples fato de que chega mais gente do que o planejado. Nada melhor para a direita radical à busca de votos. O ódio assumia uma função cada vez mais decisiva no mundo, ao sabor do preconceito e da intolerância.



Em matéria, pontifica a Alemanha, tão desmemoriada em relação ao seu próprio passado: campeão na liga, o ministro das Finanças Wolfgang Schäuble, de fé luterana, protagonista do episódio do “GreExit”.



E Schäuble até esqueceu ter sido a reconstrução da Alemanha pós-Hitler bancada pelos vencedores da Guerra. Para o ministro, o caso da Grécia continua sendo de simples condomínio. E a condômina da União Europeia que não cumpre as regras e deixa de pagar os débitos sujeita-se ao despejo. Enquanto isso, o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, proclama o “erro histórico” do acordo com o Irã.

WFM.


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