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A MÁFIA PERDEU.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 07 de fevereiro de 2015. A Máfia perdeu

Palermo, 6 de janeiro de 1980. No calendário litúrgico católico era o dia da Epifania dos Magos. Em toda a Itália, -e o presidente era o socialista e legalista Sandro Pertini-, sentia-se a violência dos “anos de chumbo” protagonizada pelo terrorismo fascista (terrorismo nero), à frente o NAR (Nuclei Armati Revoluzionario ), e pela esquerda radical das Brigatte Rosse e de outras organizações menores (terrorismo vermelho).


Na Sicília, a secular Cosa Nostra desafiava ao matar magistrados e policiais incômodos: Pietro Scaglione, Cesare Terranova, Gaetano Costa e Boris Giuliano, o último da esquadra-móvel de Palermo.


Piersanti Mattarella, assassinado pela Cosa Nostra.


O clima político e social insular era o do pós Vitto Ciancimino, mafioso de ponta eleito em 1970 prefeito de Palermo (sindaco da Palermo), cassado pelos vínculos associativos mafiosos e falecido, em 2002, sob suspeito de intermediar uma tratativa entre Estado nacional e a Cosa Nostra para por fim, mediante facilidades a mafiosos, aos bombardeios decorrentes da guerra declarada pela Cosa Nostra contra o Estado italiano ( dinamitou Roma, Florença e Milão). A propósito ocorreram mortes de civis inocentes e de juízes antimáfia como sucedeu a Giovanni Falcone e Paolo Bosrsellino.


Numa vitória da antimáfia e para governar a Sicília elegeu-se, em 1978, Piersanti Mattarella, que lutou para afastar a influência mafiosa na administração regional e tornou-se, por mérito, símbolo da antimáfia, da correção e da transparência administrativas. Em síntese, ele incomodava o novo governo mafioso conquistado, na segunda “guerra de máfia”, pelo sanguinário grupo de delinquentes da pequena cidade de Corleone: Totó Riina e Bernardo Provenzano eram os novos chefões. O antigo, Stefano Bontate, da ‘famiglia mafiosa’ de Palermo, fora metralhado e o seu vice-capo, Gaetano Badalamenti, da ‘famiglia mafiosa’ de Cinisi, fugira para o Brasil e mantinha-se sob proteção, em São Paulo e Rio de Janeiro, da comunidade mafiosa fundada por Tommaso Buscetta e Antonino Salamoni.


Na companhia da esposa e da sogra, Piersanti, naquele fatídico 6 de janeiro, deixara a residência da “via della Libertà” para acompanhar a missa da Epifania. Ele guiava a Fiat 132 da sua propriedade e havia dispensado a escolta para os policiais passarem em família a festa religiosa da Epifania. Mal tirou o veículo da garagem, um killer solitário e até hoje não identificado, mas a mando de Riina-Provenzado, aproximou-se e descarregou a pistola em Persanti. Oito projéteis penetram no corpo do governador e um raspou o dedo da mão da sua esposa. Assim iniciou-se a chamada “estação do terrorismo mafioso” e a produção em série de “cadaveri eccellenti”, expressão de Leonardo Sciscia na obra “Il Contesto”.


O governador Piersanti e o prefeito Ciancimino pertenciam ao partido da Democracia Cristã (DC). Só que Piersanti era da ala dissidente de centro-esquerda conduzida por Aldo Moro e prestes a concluir uma aliança formal com o Partido Comunista Italiano: Moro restou sequestrado e eliminado pelas Brigadas Vermelhas em maio de 1978, após o primeiro-ministro Andreotti ter se negado a pagar o resgate. Nem o pedido do então papa Paulo VI sensibilizou os brigadistas.


Na Sicilia e em 1978, Piersanti elegeu-se com o apoio do partido Comunista. Na véspera do seu assassinato, esteve em Roma reunido com o ministro Virginio Rognoni, responsável pela segurança pública e nomeado após a execução de Aldo Moro. O tema foi a influência da Cosa Nostra na política e as ameaças de morte. Piersanti não contou a Rognoni as ameaças de morte que recebia da Cosa Nostra.


O corpo agonizante de Piersanti foi retirado da Fiat pelo irmão Sergio Mattarella, um professor universitário distante da política, mergulhado no mundo dos livros: um “pignolo” (reservado, meticuloso, severo), como se dizia em Palermo.


Sergio Mattarella, novo presidente da Itália e irmão de Piersanti.


Piersanti morreu pouco depois de dar entrada no hospital. Tinha seguido a vocação política do pai Bernardo. Ambos os irmãos eram próximos e tinham casado com as irmãs Chiazzese. Só depois de 22 anos, e graças as delações premiadas de Tommaso Buscetta, descobriram-se os mandantes do assassinato: Riina, Provenzano, Pippo Calo, Michele Greco, Nene Geraci, ou seja, todos os membros da cúpula diretiva da Cosa Nostra.


Aquele 6 de janeiro ficou na Sicília conhecido como o dia do “Kennedy di Palermo”. Só que a partir dele Sergio Mattarella, em homenagem ao irmão, mergulhou na vida política. Por 25 anos atuou como deputado (83 a 2005) e sempre se opôs às leis em benefício de Sílvio Berlusconi e as suas empresas (v.g: lei Oscar Mammi de monopólio radiotelevisivo). Ele assumiu, também, o encargo de vice-premier e a pasta da Defesa. Em 2011, por indicação do presidente Giorgio Napolitano, foi nomeado para a Corte Constitucional.


No sábado 31, Sergio Mattarella por expressivos 665 votos de um colégio eleitoral de 1009 participantes (321 senadores, 630 deputados e 58 delegados regionais) elegeu-se presidente da República italiana.


Perdeu a Cosa Nostra depois de passados 55 anos da morte de Piersanti. Também Berlusconi e políticos menores, oportunistas como o sabujo siciliano Angelino Alfano. Para Berlusconi, o presidente Sergio Mattarella faz parte dos catocomunistas (católicos-comunistas) da Itália.


Berlusconi tinha lançado como candidato do seu partido Giulio Amato, já primeiro ministro e atualmente juiz da Corte Constitucional. Depois do terceiro escrutínio (eram necessários 2/3 dos votos), recomendou, para o quarto do dia seguinte, voto em branco e acreditava, com isso, que Mattarella não alcançaria a votação necessária: para o quarto escrutínio, a Constituição estabelecia maioria absoluta (metade mais um dos votos). Nem todos os membros do seu partido atentaram à recomendação. O partido rachou e Berlusconi, -- que queria ser visto como o pai da pátria na escolha e eleição do futuro presidente da Itália---, teve de engolir a eleição de Sergio Mattarella.
Wálter Fanganiello Maierovitch.


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