São Paulo,  
Busca:   

 

 

Agora

 

Italia. Vergonha, criança e mãe sequestradas e deportadas

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 18 de julho de 2013.

,br>



Vergonha italiana: sequestro e deportação de criança e sua mãe.



A opinião pública internacional está chocada e receita à Itália, na sua democracia, mais respeito aos direitos humanos, cumprimento à convenção das Nações Unidas sobre os direitos da criança e punição pela Justiça dos que difundem o ódio racial.



Com efeito, direita italiana mostrou, mais uma vez, como se comporta mal e mantém laços estreitos com ditaduras: Líbia, no passado e, no presente, com a ditadura no Kazaquistão. O grande escândalo diz respeito ao sequestro de uma criança de 6 anos e da sua mãe e envio de ambas ao ditador do Kazaquistão (no Brasil se prefere grafar Cazaquistão).



Por partes:

--1. O vice-presidente do Senado, Roberto Calderoli, revelou, num palanque e durante uma festa da Liga Norte na província de Bergamo, que ao ver a negra ministra para a integração, Cécile Kyenge, lembrava de um orangotango.



Dada a repercussão negativa ao ódio racial revelado, Calderolli piorou a situação ao tentar consertar a ofensa: -“Disse isso porque gosto muito de animais”. Só para recordar e quanto à Legha Nord: ela nasceu separatista, com perfil filo-fascista e a inventar, como demonstrado unanimente pelos historiadores, a existência na antiguidade de uma inteira região, a Pandânia (rio Pó), independente. Assim, pregavam a secessão, criaram uma bandeira e um hino. Depois de desmascarada, a Liga passou a se apresentar como federalista e o seu líder e fundador , Umberto Bossi, caiu em descrédito e no ostracismo pelo envolvimento em corrupção e isto ao embolsar, com o filho mais novo, dinheiro público destinado às atividades do partido da Liga Norte.



--2. Logo depois de saber que a suprema Corte italiana colocou na pauta de 30 de junho o julgamento de Berlusconi, já condenada por crimes financeiros no chamado caso Mediaset e com aplicação de pena acessória de impedimento perpétua para ocupar função pública, o partido Popolo della Liberta (PDL), cujo mandachuva único é Berlusconi, ameaçou sabotar as sessões do Parlamento e levar o país à ingovernabilidade.



Berlusconi está inconformada com a data fixada para julgamento. E a Corte a fixou para evitar a prescrição que se aproxima. Como represália, os “falcões” berlusconianos idealizaram a acima mencionada sabotagem e a provocar a queda do gabinete do premier Enrico Letta.



--3. O fato mais grave e que causa vergonha à Itália diz respeito ao delfim de Sílvio Berlusconi, que é ministro do Interior (Segurança pública) e vice-premier.



O ministro Angelino Alfano mentiu descaradamente ao dizer que nada sabia quanto à iniciativa, --pela chefia da polícia de Estado--, do sequestro e da sumária expulsão da Itália, em avião particular a serviço da ditadura kazaca de Nursultan Nazarbayev, da menina Alua Shalayeva-- de 6 anos de idade-- e da mãe Alma Shalayeva.



A propósito, Alua e Alma são, respectivamente, filha e esposa de Mukhtar Ablyazov, um dissidente da ditadura instalada no Kazaquistão por Nazarbayev, no poder desde fevereiro de 1990.



Desde 2009, o dissidente Ablyazov recebeu asilo político britânico e vive em Londres.. A esposa Alma e a filha Alua residem em Roma, numa casa à rua Casal Palocco.



O sequestro e a brutal deportação começou a ser tramada no final de maio deste ano e se efetivou em 14 de junho. Mas, o escândalo só veio a furo nesta semana e culminou com a demissão do chefe de gabinete de Angelino Alfano, o ministro do Interior que esqueceu do ensinamento popular de a mentira possuir pernas curtas.



Tudo começou como se o embaixador kazaco, Adrian Yelemessov, fosse o chefe da polícia italiana e mandasse no ministério do Interior. Adrian esteve com o chefe de polícia para informar e exigir a prisão (decretada no Kazaquistão) de Mukhtar, que estaria em Roma a visitar a filha e a esposa. Depois, Adrian solicitou audiência e esteve no palácio Viminale, sede do ministério do Interior.



O ministro Alfano determinou que o embaixador do Kazaquistão fosse recebido pelo seu chefe de gabinete, Giuseppe Procaccini. Só que Alfano alertou Procaccini, pessoalmente, que se tratava de “um caso muito grave”.



Se o caso a ser tratado pelo embaixador kazaco ao chefe de gabinete Procaccini era grave, pergunta-se como Alfano afirma, depois do vergonhoso “pasticcio” a comprometer a imagem da Itália no mundo, que não sabia de nada ? Alfano sustenta, ainda, nunca ter falado com o embaixador kazaco e que jamais soube da presença de Alma e da menor Alua (friso: 6 anos de idade). Em outras palavras, quer tirar o corpo, -- como se não tivesse responsabilidade política por tão grave caso--, e jogar a culpa no chefe de gabinete, -- que já pediu as contas---, e na polícia. Sobre esse seu comportamento, o prefeito de Florença, Matteo Renzi, condenou o hábito de dirigentes italianos de colocarem, para salvar os seus cargos, a culpa nos “peixes miúdos”: Renzi é do PD, faz oposição interna e se apresentará em breve como candidato a secretário-geral do partido Democrático (PD). Sua meta é ser primeiro-ministro, evidentemente.



Alfano, o delfim de Berlusconi, mente, descaradamente. Pior, a deportação realizada implica em chantagem ao dissidente Muktar, que tem, -- no momento--, a esposa presa (prisão domiciliar na capital Astana) por fuga do Kazaquistão com passaporte falso. E a menor Alma, segundo informa o jornal italiano La Repubblica, estaria sob a guarda de uma tia, mas com risco de ser colocada sob custódia e proteção da ditadura de Nazarbayev.



No Kazaquistão, --convém lembrar--, a Justiça funciona com juízes escolhidos e nomeados pelo ditador Nazarbayev. E o ditador seleciona, também ao seu bel prazer, o chefe do ministério Público. Assim, toda a postulação feita pelo ministério Público é aceita pelos juízes.



Na última eleição italiana, o Partido Democrático (PD), --a contrariar o entendimento do seu demissionário e sério secretário-geral, Píer Luigi Bersani--, fez uma coalizão com o partido de Berlusconi. Numa partilha, Enrique Letta (PD) virou primeiro-ministro e Angelino Alfano (PDL) vice-premier e ministro do Interior.



Com o escâdalo kazaco, a Itália agitou-se e a saída de Alfano do governo, -- por quebra de confiança (vota-se a “sfiducia” amanhã no Senado), era esperada.



Para surpresa geral, o premier Letta, como a se agarrar na cadeira, não concorda com a saída de Alfano. Letta teme a reação do PDL e o fim da coalização, com marcação de novas eleições. Letta digere Alfano em nome da governabilidade. A saída de Alfano, segundo ameaçam os sabujos de Berlusconi, implicará no fim do governo Letta, ou seja, a quebra da coalizão e convocação de novas eleições. A moção de desconfiança (sfiducia), que será votada amanhã no Senado, foi apresentada pelo Movimento 5 Estrelas, do humorista Peppe Grillo. E Grillo cresce em prestígio, novamente, entre os eleitores. No momento, está a afirmar que Letta e Alfano não pensam na Itália mas em manter o poder.



Uma questão moral, de dignidade e violação absurda de direitos humanos, sede lugar à governabilidade. E a Itália, apesar da ditadura Nazarbayev , é a segunda maior parceira do rico Kazaquistão na Europa : a primeira é a Alemanha.



Hoje na parte da manhã, os senadores do PD se reuniram e, por 80 votos e 7 abstenções, concluíram que, amanhã (sexta-feira, 19), não votarão pela derrubada de Alfano. O premier Letta continua a sustentar que Alfano nada sabia e, dessa forma, finge acredita numa deslavada mentira.



Outro episódio vergonhoso diz respeito a Emma Bonino, uma ex-ativista de direitos humanos guindada ao ministério de Relações Exteriores. Bonino mantem-se em silêncio e diz que tudo ocorreu em outro ministério e não teve responsabilidade pelo caso kazaco.



Pano rápido. Letta quer salvar Alfano por acreditar que, com a sua derrubada, cairá também. Mostra o jornal Corriere della Será, na edição de hoje, poder ser votada uma desconfiança individual, ao ministro Alfano, e não a todo o governo. Na matéria, cita a uma decisão de 1966 da Corte Constitucional e que levou a queda do ministro da Justiça, Filippo Mancuso, e a manutenção do governo do premier Lmberto Dini.

Wálter Fanganiello Maierovitch


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet