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A síndrome do papa Ratzinger

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 16 de fevereiro de 2013


papa Ratzinger na sua última Quaresma como regente da Igeja


No “Ano da Fé”, o papa Ratzinger apontou como causa do seu ato voluntário de renúncia aquilo que os geriatras diagnosticam como “síndrome da fragilidade”. Algo inevitável quando, já na estação do inverno, alcança-se os 85 anos de idade. Não se trata de doença mas de perda dos vigores físico e do ânimo, mantido o intelectual: - “Não tenho mais forças, me perdoem”, disse Ratzinger em consistório.



Poucos acreditam na “síndrome da fragilidade” e no incontido desejo de Ratzinger de voltar aos livros. Ora, quem deseja isso não deixa uma encíclica a caminho do prelo e não declara que continuará a residir nos jardins do Vaticano, no monastério Mater Eclesie que mandou restaurar. Na sua vida sacerdotal e até chegar a papa, Ratzinger sempre esteve perto do poder e participou, com intervenções progressistas, nos trabalhos desenvolvidos no Concílio Vaticano II, obra de reformulação iniciada pelo papa João XXIII.



Longo é o elenco das causas de renúncia dadas como reais. Só não é maior ao das críticas por ter Ratzinger “jogado a toalha”. A mais acerba crítica veio do Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia e ex-secretário do papa Wojtyla: - “ Da cruz não se desce”.



O pontificado de Ratzinger foi marcado por desacertos e confusões, com destaques aos escândalos (1) dos sacerdotes-pedófilos, (2) do IOR (Instituto para as Obras Religiosas), conhecido por banco do Vaticano, (3) da fuga de documentos e informações a envolver o condenado e perdoado mordomo Paolo Gabriele, (4) do complô de assassinato do papa, transmitido-lhe no ano passado pelo monsenhor Luigi Bettazzi e pelo cardeal Paolo Romeo (desmentiu depois) e (5) pela permanente luta intestina de poder entre alas. Além disso, Ratzinger desgastou-se por conta própria como, por exemplo, na aula magna em que atacou por tabela Maomé; na forçada reaproximação com o grupo de lefebrianos, com muitos nazi-fascistas de batinas; no apressar a santificação do papa Pacelli, que silenciou quando hebreus foram aprisionados em Roma e enviados a campo de concentração nazista. Deve ser consignado que Ratzinger tentou corrigir as pisadas na bola. Por exemplo, pregou no muro das Lamentações e visitou sinagoga. As retratações, nos mundos islamico e no judaíco, reforçaram as desconfianças, apesar do sustentado em contrário pelas diplomacias.



Não se deve olvidar, no campo dos “desgastes fatais”, como lembra o jornalista e historiador Corrado Augias na sua obra “I Segreti Del Vaticano”, a inicial resistência de Ratzinger em admitir os casos denunciados de pedofilia por parte de sacerdotes e a tentativa, com o cardeal Solano à frente, de considerar tudo “chiachiericcio” (conversa mole). A mudança de atitude só veio depois de duros editoriais do New York Times, Dear Spiegel, El País, Le Monde, La Repubblica. E, lembra Augias, a resistência de Ratzinger cedeu após a publicação, em 9 de abril de 2010 e pela Associated Press, de carta do seu próprio punho, quando comandava o antigo Santo Ofício, vista como a “colocar areia” num caso de ocorrido em Oakland (Califórnia) e referente ao padre-pedófilo Stephen Kiesle. O reconhecimento e o pedido de perdão, com encontro com algumas vítimas, só veio depois de muita resistência. No IOR, nunca foram cumpridas as ordens de Ratzinger de aplicação das normas antirreciclagem de capitais recomendadas pela União Européia: a queda do presidente, banqueiro Gotti Tedeschi, ainda não foi explicada e, no momento, a magistratura italiana investiga a participação do IOR no escândalo do banco Monte dei Paschi di Siena, o mais antigo em atividade no mundo (é do século XV) e o terceiro maior da Itália.



Ratzinger, como até os coroinhas da outra margem do rio Tevere sabem, perdeu o controle sobre a Cúria, composta por ministros escolhidos pelo próprio papa para ajudar na gestão da Santa Sé. Nas sombras das muras leoninas, Ratzinger é acusado de insistir em posições conservadoras e no discurso sobre o relativismo ético-moral. Isso teria afugentado fiéis, vocações e batismos, na Europa. Na América Latina, abriu espaço para seitas evangélicas. O crescimento de cristãos só se verificou na África e na Ásia e isso pelo trabalho de clérigos progressistas e interessados em melhorar as condições materiais e sociais.



Num resumo e vale para vaticínios ( termo derivado de Vaticano), significativa a carta deixada pelo cardeal emérito de Milão, Carlo Maria Martini, falecido em agosto do ano passado: “Um tempo tinha sonhos sobre a Igreja. Uma Igreja que trilha pela estrada da pobreza e da humildade, uma Igreja independente dos poderes deste mundo . . . Uma Igreja que dá espaço às pessoas capazes de pensar de maneira mais aberta. Uma Igreja que infunde coragem, sobremaneira naqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje, não tenho mais esses sonhos. Depois dos 75 anos decide orar pela Igreja”.

--Wálter Fanganiello Maierovitch---


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