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Bento XVI começa a mudar a Cúria no rastro do escândalo do mordomo. Festa de São Pedro

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 26 de junho de 2012.
Mãos sorrateiras




O papa Bento XVI, em recente alocução feita em primeira pessoa, enviou um recado para os que já tramavam a respeito da sua sucessão e, com a divulgação de escândalos, forçam sua aposentadoria.

Tudo sem falar da entrevista dada por alto clérigo que afirmou ter enviado carta a Ratzinger com aviso de que ele será vítima de assassinato neste ano. O troco especial está reservado para a festa de São Pedro-São Paulo, na próxima sexta 29. Ratzinger prepara a reformulação da Cúria Romana. Em outras palavras, "cabeças vão rolar".

Depois do desabafo na primeira pessoa, fato dado como raro em pontificado, Ratzinger enfrentou (1) fugas de notícias publicadas com grande destaque na mídia; (2) lançamento do livro Sua Santidade, de Gianluigi Nuzzi e instruído com documentos secretos e (3) a prisão, em 23 de maio passado, do seu mordomo Paolo Gabriele. A propósito, Nuzzi é autor do best seller Vaticano S/A, sobre os escândalos do Banco do Vaticano.

Gabriele, que não é anjo, repassava documentos secretos para fora das "mura Leonine": muralha construída pelo papa Leão IV, entre 848 e 852, para proteger a colina Vaticano e a basílica de São Pedro.

O erro do mordomo, ou melhor, a sua identificação deveu-se ao fato de subtrair documentos guardados na escrivaninha de Ratzinger e ainda não enviados à Cúria Romana. Gabriele tinha acesso ao quarto e à escrivaninha do papa Ratzinger.

No início do pontificado, Ratzinger mostrou-se um elefante em loja de cristais e deu foras homéricos com agravos às comunidades islâmicas (ofensa a Maomé na conferência de Ratisbona) e judaicas (santificação do papa Pacelli, o que silenciou quando judeus foram retirados do gueto romano da Pístico d'Ottavia e enviados de trem a campos de concentração nazista).

Na verdade, Ratzinger, tendo como vice o arcebispo Tarcisio Bertone (atual secretário de Estado e já acusado de encobrir casos de padres pedófilos) trazia o vezo de quem havia comandado a pior das repartições da Cúria, ou seja, o antigo Santo Ofício, já Sacra Congregação da Inquisição Universal e atual Congregação para a Doutrina da Fé.

Com o tempo, Ratzinger controlou-se melhor e passou a usar o tempo para colocar certas coisas no lugar. Por exemplo, no recente escândalo da fuga de notícias e da traição do mordomo Gabriele, o papa Ratzinger nomeou uma comissão apuratória.

Nessa comissão, o papa Bento XVI colocou à frente o cardeal-decano Jozef Tomko, de 88 anos. Gabriele continua em prisão fechada e em fase de purgação de faltas e de eventual denúncia dos que o cooptaram a tramar contra Ratzinger.

Como Gabriele é um católico praticante, os vaticanistas (jornalistas especializados em Vaticano) acham que o mordomo acabou cooptado por radicais, que são contrários ao governo de Ratzinger e querem puxar-lhe o tapete, ou melhor, tirá-lo do trono de São Pedro.

Com a comissão apuratória na linha de frente, o papa Bento XVI reserva-se e não fica exposto. Para a festa de São Pedro-São Paulo (29 de junho), o papa Ratzinger começa de forma sutil a reforma da Cúria Romana. Com ela, a primeira cabeça a rolar pode ser a de Tarcisio Bertone, que por ocupar a sua secretária-geral só está abaixo do papa Bento XVI. A Cúria Romana, que significa “corte” em latim medieval, é o coração administrativo da Igreja. A “corte do papa”, chefe do Estado do Vaticano, uma monarquia absoluta.

Pelos especialistas, a Cúria Romana é definida como “os órgãos e autoridades que constituem o aparato administrativo da Santa Sé e que coordenam e fornecem a organização necessária para o correto funcionamento da Igreja Católica e o alcance dos seus objetivos”. O principal órgão da Cúria é a secretaria de Estado (Secretaria Apostólica), criada no século XV para assistir o papa. No organograma vaticano e abaixo da secretaria de Estado, seguem as congregações, os tribunais (num total de 12), os conselhos pontifícios, os sínodos etc.

Na festa do dia 29 de junho de São Pedro-São Paulo chegarão ao Vaticano 44 arcebispos metropolitanos e cardeais escolhidos a dedo. Sete brasileiros foram convidados.

O destaque será o purpurado Berlino Rainer Maria Woelki, que aos 55 anos de idade é o mais jovem dos cardeais e integra o rol de papáveis dos vaticanistas.

No dia 29, como acabou de informar o jornal Corriere della Sera, o papa Bento XVI escolherá os interlocutores para as discussões a respeito da “renovação da Cúria romana”.

Logo após a festa, o papa sairá em férias de verão e dará expediente para questões urgentes no famoso Castel Gandolfo.

Pano rápido. A Inquisição, de triste memória, não existe mais. Mas na reforma da Cúria Romana pode-se usar, em sentido figurado, a expressão “cabeças vão rolar”. A principal usa solidéu vermelho de cardeal e atende pelo nome de Tarcisio Bertone.


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