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Demóstenes Torres adota comportamento de capo mafioso

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 31 de maio de 2012.

Quem não te conhece...






Durante anos, o senador Demóstenes Torres colocou-se em panos de Varão de Plutarco na defesa da ética, da probidade, do aumento das penas e contra a criminalidade organizada.

O passar do tempo incumbiu-se de demonstrar que Demóstenes não era um Varão de Plutarco, mas um farsante.

Na realidade, era o “tartufo” da consagrada obra do francês Molière. Em duas operações da Polícia Federal — uma delas engavetada por mais de dois anos pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel — comprovou-se a ligação do senador Demóstenes com a organização criminosa cujo chefe era Carlinhos Cachoeira.

Hoje, perante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) voltada a apurar os tentáculos da organização delinquencial de Cachoeira, o senador Demóstenes mostrou, como já havia ocorrido no seu depoimento longo, mentiroso e inconsistente, à Comissão de Ética do Senado, mais uma das suas facetas. Demóstenes adota o comportamento de capo (chefe) mafioso.

Um mafioso à siciliana. Sem o terno listrado, o par de sapatos bicolor nem o charuto cubano. O mafioso siciliano se veste discretamente e, no máximo, calça o anel de família. Demóstenes estava com vestes discretas e, pelo misticismo apresentado em pronunciamento estudado, parecia pronto para a primeira comunhão.

Todo o capo da Cosa Nostra, quer da siciliana quer da máfia sículo-norte-americana, apresenta-se em audiências públicas, perante a Justiça ou no Parlamento, como homem que observa com rigor os preceitos bíblicos e os do Novo Testamento.

No maxiprocesso decorrente do trabalho do juiz Giovanni Falcone, dinamitado pela Cosa Nostra, vários capi-mafia (chefões da Máfia) foram ouvidos. Todos, sem exceção, portavam e expunham para que todos vissem um exemplar da Bíblia ou exagerados rosários, com um enorme crucifixo pendurado.

Antes de mergulhar em profundo silêncio e de modo a não responder às perguntas acusatórias, os supracitados capi mafiosos falavam sobre Deus e faziam ecoar nas salas das audiências dos Tribunais colocações místicas. Demóstenes, no depoimento à CPMI, quis passar a imagem de místico e valoroso: “Aproximei-me muito dos homens e afastei-me de Deus”.

Numa síntese apertada, Demóstenes apresentou um novo personagem, uma vez que já despojado das vestes de Varão de Virago. Fez o tipo papa-hóstia, rato de sacristia, dono de franchising evangélica ou de um falso demiurgo enquadrável no Código Penal.

Demóstenes não quis ajudar na apuração da CPMI. Protegeu Cachoeira, que disse não saber que comandava a jogatina organizada na Goiás onde Demóstenes foi delegado de polícia, secretário de segurança pública, promotor criminal e procurador da Justiça. Tudo antes de chegar ao Senado.

Como desculpa esfarrapada, Demóstenes ofertou aos membros da CPMI, como se não pudessem requisitar, o relato dado à Comissão de Ética onde é acusado de faltar com a verdade em manifestação no Parlamento sobre a legalização dos jogos eletrônicos de azar.

Em outras palavras, Demóstenes não engana mais ninguém. Agora, comporta-se como um mafioso. Um capo silencioso, religioso e de valores supremos.

Certa vez, acompanhei o depoimento de um capo-mafia. Ele já havia integrado o órgão de cúpula, a comissão de governo, da Cosa Nostra siciliana. Esse capo-mafia, Antonino Salamone, levou um exemplar da Bíblia, disse que era muito religioso e se recusava, pelos seus valores morais, a responder acusações infundadas. Não respondeu a nenhuma pergunta formulada pelo juiz em depoimento numa carta-rogatória da Justiça italiana.

Outro, Bernardo Provenzano, ex-chefe-dos-chefes (capo dei capi) da Cosa Nostra siciliana, mandava ordens por meio de bilhetes. E cada destinatário era identificado pelo número de um versículo bíblico. Num exemplo da classificação de Provenzano, Demóstenes poderia ser o versículo 171.

Pano rápido. Demóstenes tem a esperança de não será cassado. Aposta no voto secreto e já se aproximou de Renan Calheiros, que antes reprovava.


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