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Máfia calabresa lava dinheiro público de partido político

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 4 de abril de 2012. De Roma, para o Portal Terra


Levado no chapéu e na sacola












Não bastasse a derrota do Milan para o Barcelona, o norte da Itália, berço do partido separatista Liga Norte, rebatizado de federalista fiscal, teve ontem uma segunda e mais tocante decepção.


A Procuradoria Nacional Antimáfia descobriu que o tesoureiro do partido Liga Norte, Francesco Belsito, usava a potente ‘Ndrangheta (associação de modelo mafioso sediada no Sul da Itália, na Calábria) para lavar dinheiro de financiamentos públicos do partido e de campanhas políticas.


O partido Liga Norte nasceu separatista. Seu líder, Umberto Bossi, inventou, e é desmentido pelos historiadores, a região da Padânia, banhada pelo rio Pó e a mais fértil de toda a Itália. Sob argumento de que a Padânia (Norte da Itália) carregava a região meridional (Sul do país), sempre pobre, saiu a autoproclamar a sua independência. Com o tempo e para evitar processos, a Liga Norte adotou o discurso do federalismo fiscal, para distribuição de renda e a fechar torneiras ao Sul.


A surpresa decorreu da ligação da Liga Norte com o Sul do país, ou melhor, do elo criminal estabelecido com a potente ‘Ndrangheta para lavar dinheiro público e reciclá-lo em atividades formalmente lícitas.


O tesoureiro Francesco Belsito, até ontem homem de confiança de Umberto Bossi, líder do partido e ex-sustentador do desastrado governo Silvio Berlusconi, usava a 'Ndrangheta para reciclar dinheiro no setor imobiliário de Cipre e em outros paraísos ainda não revelados pelas autoridades.


Numa adaptação do genuíno sistema de carregar dinheiro na cueca, o tesoureiro Belsito o transportava dentro do chapéu e em sacola apropriada para carregar garrafas de vinho. Foram apreendidos, no chapéu de Belsito, 100 mil euros. Já se sabe que só o lavador Stefano Bonet, em 2011, recebeu de Belsito 250 mil euros.


Na Itália, o financiamento das campanhas e dos partidos é público. Mas, consoante revelado nos autos processuais da famosa Operação Mãos Limpas (apurou corrupção na política partidária italiana a partir de Milão), a verba oficial nunca é suficiente. Daí, o recurso à ilegalidade, com contribuições, para usar o jargão brasileiro, “não contabilizadas”. Um então dirigente do Partido Socialista, durante a Operação Mãos Limpas, disse que os “partidos são máquinas que comem dinheiro”.


Desde Garibaldi, que foi ao Sul para unificar a Itália e entregá-la ao então rei do Piemonte (Norte da Itália, capital Torino), a preocupação do Conde de Cavour, estadista piemontês, era com a pobreza meridional. Ou melhor, o contraste entre o Norte rico e o Sul pobre, tirado das mãos dos Bourbons espanhóis: reino das Duas Sicílias.


Bossi, fundador da Liga Norte, explora essa diferença ainda existente e condena a forma de distribuição da renda, sempre a afirmar que o Norte sustenta a Itália.


Num pano rápido, a região meridional (Sul) italiana, dominada pela 'Ndrangheta, sustenta as ilegalidades da Liga Norte. E vão dizer, não vai demorar, que ninguém controlava o contador Francesco Belsito. Há um mês, um ex-senador, tesoureiro de outro partido político, comprava em seu nome, e para seu desfrute, imóveis luxuosos com verbas públicas. Os dirigentes partidários disseram-se surpreendidos.


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