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O papa e Fidel, um espetáculo à parte

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 27 de março de 2012.


Religião diplomática entre dois Estados






Hoje em Havana, no Palacio de la Revolución, o papa Ratzinger encontra Raúl Castro e “seus familiares”, diz o comunicado oficial de imprensa distribuído aos jornalistas. Como já consignei neste espaço, estará presente Fidel Castro, ex- aluno de colégio jesuíta e que revisita questões teológicas como revelou, tempos atrás, em entrevista seu amigo Frei Beto.


Castro tem grande admiração por Cristo, o maior de todos os revolucionários. Lógico, por ter sido Cristo um revolucionário perfeito. O seu único ato de violência, sem lesões ou torturas, representou um desabafo contra a hipocrisia e ficou conhecido ‘ira santa’. A formação de Castro não pesou na Constituição cubana que coloca o Estado como comunista e ateu.


Em 1998, o papa Wojtyla, na viagem a Cuba, foi recebido por Fidel num encontro entre chefes de Estado, ou seja, de Cuba e do Vaticano. O encontro, já passados 14 anos, surpreendeu e com o tempo pode-se concluir que resultou numa abertura mais profícua em direção à liberdade religiosa na Ilha.


Fidel conhecia o anticomunismo presente no DNA de Wojtyla e seu papel fundamental na derrubada do Muro de Berlim. Mas, num jogo político, Fidel tinha também um invejável currículo, este de resistência ao imperialismo norte-americano.

Nesse jogo contaram até os detalhes e Fidel mostrou-se esmerado. Por exemplo. Wojtyla — e o mesmo ocorreu com Ratzinger — começou a visita por Santiago. Conta a história que a Revolução Cubana começou em Santiago com o ataque, em 26 de julho de 1953, ao quartel Moncada. O ataque não teve êxito imediato e foi executado por um grupo de rebeldes comandado por Fidel Castro. No entanto, serviu para o corrupto ditador cubano Fulgêncio Batista, mantido pelos EUA e pela Cosa Nostra siculo-americana, começar a fazer as malas, acertar com Franco o exílio dourado na Espanha e se apropriar de fortunas pertencentes ao povo.


Ratzinger, especialista em homéricas trapalhadas no seu pontificado reacionário, poderá, a qualquer momento, pisar na bola e deixar o cardeal de Havana, Jaime Ortega, sem sustentação.


Ontem, em Santiago, o papa Ratzinger conseguiu fazer, para a alegria dos diplomatas de batina, a lição de casa. Ele saudou, além dos fiéis, todos os habitantes “desta bela ilha”. E saudou, também, “todos os cubanos onde quer que se encontrem”. Com isso, alertam os vaticanistas que acompanham Ratzinger na viagem, o papa deu um recado, pois englobou os exilados, os presos políticos e as dissidentes Damas de Branco, que anunciaram 150 prisões às vésperas da chegada do pontífice.


Ratzinger deixará Cuba amanhã na parte da tarde, depois de uma celebração na Plaza de la Revolución e já destacou que muitas questões mereceram avanço nas relações bilaterais.


Pano rápido. Ratzinger falou em ajudar nessa fase de passagem, “sem traumas”, para a democracia. Do alto do seu trono de monarca absoluto e já com experiência de quem reprimiu os adeptos da Teologia da Libertação, Ratzinger, efetivamente, terá muito a ajudar.



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