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Silêncio obsequioso sobre a opção sexual de Lucio Dalla

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 6/3/2012

Marco Alemanno e Lucio Dalla






Um silêncio vergonhoso. A Igreja quase conseguiu sepultar o conhecimento de que Lucio Dalla, 69 anos, era homossexual e mantinha um relacionamento amoroso de mais de dez anos com o talentoso autor, ator, diretor teatral e fotógrafo pugliese Marco Alemanno, de 32 anos. Dalla nasceu e vivia em Bolonha.


Para a cerimônia na gótica Basílica de São Petrônio, duas exigências foram impostas: 1) silêncio sobre o relacionamento do falecido com Alemanno e 2) nada de se tocar as músicas liberais do falecido. Só para lembrar, um dos sucessos de Dalla tem o título Caro Amico ti Scrivo. E a letra diz: “Cada um fará amor como deseja”.


O grito de inconformismo e revolta contra a homofobia foi dado por Lucia Annunziata, jornalista de muito prestígio que já presidiu a RAI. Annunziata, no seu concorrido programa na Rai 3 intitulado In ½ ora, foi tomada pela ira santa, bem conhecida da Igreja, e disparou: “Os funerais de Lucio Dalla são um exemplo dos mais fortes do que significa ser gay na Itália: vai-se à Igreja, concedem os funerais e sepultam com o rito católico desde que não se diga tratar-se de um falecido gay”.


Domingo mais de 30 mil pessoas foram à Basílica de São Petrônio para o último adeus a Lucio Dalla, cantor, compositor e arranjador de sucesso e respeito internacional.


Em Bolonha, onde nasceu e morava, Dalla era adorado pela vida simples e permanente contato com as pessoas. Ele tomava o café da manhã num bar, circulava pela cidade, conversava com todos e, como afirmava, “viveva in mezzo alla gente”. À noite ele era visto pelos bares da cidade com amigos e a tocar e cantar para a alegria dos presentes.


Na noite de Natal de 2011, relata o jornal de esquerda Il Fatto Quotidiano, Dalla encomendou 132 ceias completas (atenção: completas), que, anonimamente, foram distribuídas aos pobres de Bolonha. Era desprendido, ajudava os necessitados sem nunca trombetear e tocar sinos.


Dalla amava Bolonha, a sua história e a sua gente. Em Bolonha foi construída e instalada a mais antiga universidade do chamado mundo ocidental. Para os direitistas, ela é a Bolonha vermelha, dos comunistas, berço dos sindicalistas, do anti-berlusconianismo. Em Bolonha está a maior quantidade de editoras de livros e revistas da Itália. Para os turistas, ela é a Bolonha das 100 torres e do maior número de pórticos do mundo: são 35 quilômetros. Para os amantes do cinema, é a Bolonha de Pasolini. Para os clérigos, é a Bolonha do papa Gregório XIII (1572-1585), aquele do calendário gregoriano que reformou o calendário giuliano e introduziu o ano bissexto.


Para o líder histórico do movimento gay italiano, Franco Grillini, em declaração publicada pelo jornal Unità, houve um silêncio hipócrita com relação a Marco Alemanno. Na basílica, Marco Alemanno participou do elenco de amigos que leram textos. A ele coube a leitura de uma poesia de Dalla: Le Rondini (http://www.youtube.com/watch?v=nFui_6xwmrs ). Nos discos de Dalla, competia a Marco a recitação. Com voz forte e lágrimas, Alemanno conseguiu concluir a leitura.


Na sua casa em Bolonha, Dalla, que já foi visto várias vezes a rezar nas igrejas católicas da cidade, tinha um quadro na parede do seu escritório. Um quadro do jovem pintor Adriano Pisanello retratando Dalla e Alemanno a empunhar microfones como se cantassem. Entre os dois, um iluminado Cristo na cruz.


Pano rápido. Interessou à Igreja reunir uma multidão e difundir o prestígio de comandar a cerimônia fúnebre de uma celebridade do porte e carisma de Lucio Dalla, um devoto do polêmico Padre Pio. Não fosse a voz de Annunziata, poucos teriam percebido a hipocrisia, pois o homossexual é discriminado, a começar pelo papa Ratzinger.


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