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Bento XVI ataca carreiristas em luta pela sua sucessão

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 24/2/2012
Ratzinger e seu companheiro de anos, Bertone






Raramente um papa fala na primeira pessoa. Na abertura da Quaresma o papa Bento XVI resolveu, estomagado, criticar abertamente os carreiristas que já tramam, com ele vivo e a gozar de boa saúde, para ocupar o trono de São Pedro.


Ratzinger estava irado com as fugas de notícias. Fugas que os jornalistas italianos, recipiendários dos documentos secretos, chamam de "santíssimos vazamentos". São notícias vindas da outra margem do rio Tevere, onde não está incrustado o Vaticano, o menor dos estados e a única monarquia teocrática.


Essas “futricas” internas coincidem com um momento delicado para a Santa Fé. O papa Ratzinger encontra dificuldade para adequar o IOR — Instituto para as Obras Religiosas — chamado de Banco do Vaticano, às normas internacionais sobre lavagem de dinheiro sem causa e reciclagem dos capitais lavados em atividades formalmente lícitas.


Com efeito, o papa Ratzinger, em plena abertura da Quaresma, mandou recado duro para os membros da hierarquia da Igreja. E falou na primeira pessoa. “A soberba está na raiz de todos os pecados”, frisou Ratzinger ao mencionar a “busca pelo poder”. Pelo que informa a mídia europeia, existe internamente, desde o final de 2011, uma luta intestina pela sucessão de Ratzinger. A saúde de Ratzinger está boa, mas a idade avança.


Na mensagem, o papa alerta os fiéis para não confundirem a fé na Igreja com as falhas humanas dos seus integrantes. Algo duro e que procurou atingir os que tramam, nos bastidores e vazamentos, pelo enfraquecimento do poder central e da missão papal. O certo é que documentos comprometedores chegam à imprensa italiana com frequência. Para se ter ideia deles e do teor conspiratório, o cardeal colombiano Dario Catrillon, um tradicionalista, alertou a Cúria sobre um complô para matar o papa Ratzinger.


Outro "santíssimo documento" é atribuído ao arcebispo de Palermo. Em viagem à China, o cardeal de Palermo, Paolo Romeo, deixou escapar que Bento XVI, apesar do forte esquema de segurança, seria assassinado nos próximos 12 meses. O cardeal desmente, mas sua revelação foi parar em documento enviado diretamente ao papa Ratzinger.


Para uma ala de futriqueiros de saia, quem estaria por trás da manobra seria o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado. Bertone, há anos, acompanha Ratzinger e foi seu vice na Doutrina da Fé, órgão que substituiu o antigo Santo Ofício. Bertone recebeu críticas porque teria sido complacente e imprudente com relação a apurações sobre clérigos pedófilos.


Hoje pela manhã, na inauguração de um centro pediátrico na cidade italiana de Potenza, o cardeal Bertone usou de uma imagem para atacar os integrantes da Igreja que vazam documentos para a imprensa sobre fatos que dizem respeito a interesses internos da instituição. Para Bertone, eles são os corvos (abutres) inconformados com o vôo de paz e elevado das pombas.


O esvaziamento de duas polpudas contas-correntes vaticanas em dois bancos italianos gerou suspeita das autoridades italianas, no final de 2011. As suspeitas decorreram porque as operações foram realizadas contra as normas internacionais mínimas a respeito de lavagem de capitais. E, frise-se, estavam em desacordo com as leis italianas que seguem as regras impostas pela União Europeia. A respeito, o Vaticano informou tratar-se de movimentações simples e voltadas a cobrir despesas com obras de caridade, como poderia comprovar.


Logo depois do esvaziamento das contas em bancos italianos, o papa Ratzinger determinou, mas parece que não consegue, ou pelo menos com a velocidade desejada, a adequação do Vaticano às normas internacionais protetivas da União Europeia: o Vaticano, como se sabe, não integra a ONU nem a União Europeia.


Ratzinger, na cerimônia que abriu a Quaresma, mostrou disposição de cortar as asas dos que se movimentam para fechar um nome para a sua sucessão. Evidentemente, sem fumaça branca e sem a inspiração do Espírito Santo, como reza a tradição: o Espírito Santo é quem escolhe o novo papa e conduz os votantes, que são meros instrumentos.


Pano rápido. O papa Ratzinger faz de tudo para recolocar os clérigos nos trilhos. Ele advertiu para que coloquem fim “às ambições pessoais e ao carreirismo na Igreja”.


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