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Líbia. Europa lava roupa suja e cresce desconfiança em Sarkozy

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 26 de março de 2011.


Sarkozy já trocou de parceiro.




De Bruxelas, exclusivo para Terra Magazine.



–1. Até quinta-feira 24, em sede de União Européia, os dissensos sobre a Líbia em razão da Resolução 1973 do Conselho de Segurança eram tratados como normais e decorrentes de o presidente francês lutar para manter o protagonismo.



O presidente francês Nicolas Sarkozy gaba-se de haver evitado um massacre em Bangasi, quando tropas fiéis ao raís (chefe) Muammar Kadafo já estavam na periferia de uma cidade populosa.



Atenção: a revolta começou em 17 de fevereiro com a prisão de um advogado. Este defendia presos políticos e protestava, em prça de Bengasi, por não poder, fazia meses, contatar com os seus 1.200 constituídos, todos presos. Só depois da prisão do advogado soube-se que o contato não era permitido porque os 1.200 presos políticos tinham sido executados pelo regime de Kadafi.







Ontem, o cenário mudou em Bruxelas, coração da União Européia. E assistiu-se à deflagração de uma outra guerra, esta contra a França de Sarkozy e a Grã-Bretanha do seu aliado David Cameron, premier britânico.



Não se fala em aberto, mas todos os corredores sabem, que pesa uma grave desconfiança com relação a Sarkozy.



Com objetivos econômicos camuflados em humanitários, Sarkozy teria apoiado, inclusive com envio de armas, os rebeldes da região da Cirenaica (detém mais de 80% do petróleo e do gás líbio), cuja cidade principal é Bengasi.



Sarkozy, de fato, foi o primeiro a reconhecer como legítimo representante do povo líbio os insurgentes de Bengasi, reunidos num conselho transitório de governo nacional, composto por 34 membros, incluídas 4 mulheres.



Mais ainda, quando foi assinada a Resolução 1973 da ONU os aviões militares franceses já navegavam na direção de Bengasi. A propósito, Sarkozy havia frisado que a França interviria com ou sem a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU).



Dias antes da reunião do Conselho de Segurança da ONU, Sarkozy lançara um balão de ensaio, ou seja, um plano de ataque com alvos adrede escolhidos.



Como pegou mal a proposta francesa, uma vez que não disfarçava a intenção de liquidar com Kadafi, o presidente Sarkozy, com o aliado britânico David Cameron, entregou ao Conselho de Segurança um plano voltado à constituição de uma zona de bloqueio aéreo, com foco na proteção aos rebelados.



Na reunião do Conselho da Europa desta semana, o premier Silvio Berlusconi fez cara de poucos amigos e deixou que ouvissem o desabafo junto a alemã Angela Merkel: “- Eu deveria ter seguido a Alemanha e não entrado nessa fria”. Esqueceu-se de falar do Brasil, Índia, China e Rússia, que também se abstiveram de votar a Resolução 1973.



A essa altura, todo praticante de bunga-bunga sabe que a França não quer abrir mão da coordenação política da Resolução 1973 e apenas aceita em deixar para a Aliança Atlântica (Nato-Otan) as ações técnicas de implantação de uma no-fly zone.



A coordenação política francesa, –e não dá para enganar mais ninguém–, significa tentar dividir a Líbia em dois estados. A da Tripolândia ficaria com Kadafi, que os britânicos quiseram matar ao bombardear nesta semana a sua residência oficial. Nas negociações, poderia levar a região de Fezzen, onde está o deserto e grande número de tribos (a Líbia conta com 1.400 tribos, sendo que apenas três delas tem influência. E uma das influentes é a de Kadafi).



Em outras palavras, a antiga Tripolitânia, com poucas reservas, ficaria com Kadafi. A rica Cirenaica seria entregue aos revoltosos, cujos líderes estão alinhados com os franceses.



A Itália, nessa divisão, amargaria uma perda econômica com estragos maiores do que o Etna e o Vezuvio em erupções permanentes. Por isso tudo, Berlusconi, ao deixar a reunião do vértice do Conselho da Europa, falou, numa referência ao presidente francês, de estar cansado de “conversa fiada”: “solo chiacchere”.



Hoje, Sarkozy e Cameron voltaram a falar que a coordenação política não ficará com a Nato, que começará, a partir de segunda feira (não mais domingo, como anunciado), a coordenação de um plano técnico, que terá a duração de 90 dias: a Nato teria 90 dias para implantar e fazer funcionar uma zona de exclusão aérea.



Quanto aos ataques em terra (os franceses, já se sabe, anunciaram o abate de um caça de Kadafi quando este foi atingido em terra), o presidente francês e o premier britânico desconversam. Muitos dos seus assessores lemrbaram que a Resolução 1973 fala em asseguram proteção aos civis, que pode ser em terra, no mar e nos céus. Lógico, eles esquecem o plano que motivou a elaboração da resolução da ONU e que era apenas o de constituição de uma zona de exclusão aérea.



–2. PANO RÁPIDO. Os líderes da revolta, na sua maioria, fizeram parte da ditadura de Kadafi, ou seja, apoiaram e garantiram por 40 anos um raís-tirano.



Sarkozy apóia e forneceu armas a um grupo político que já sustentou Kadafi e quer dele se afastar, mas com o poder. Os dois grandes líderes dos rebelados foram ministros de Kadafi, nas pastas da Justiça e de relações exteriores de Kadafi.



Como se percebe, não existe bala-perdida.

– Walter Fanganiello Maierovitch–


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