São Paulo,  
Busca:   

 

 

Agora

 

Berlusconi diz que convencerá Kadafi a aceitar exílio

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 23 de março de 2011.


Berlusconi.


De Milão, exclusivo para TERRA MAGAZINE e IBGF.



1. Depois do acordo entre países da coalizão de deixar à Aliança Atlântica (Nato-Otan) a coordenação da chamada intervenção humanitária na Líbia, Berlusconi roubou a cena de Nicolas Sarkozy. Um Sarkozy que pensava, por ter iniciado a ação militar de intervenção, em continuar a protagonizar e tirar proveito político-econômico da tragédia líbia.



Com olhar de experto em bunga-bunga, ou seja, em “sacanagens”, o premier italiano Silvio Berlusconi acaba de afirmar: “Convencerei Kadafi a partir para o exílio”.



A certeza de Berlusconi espanta, num primeiro momento. Até porque já se cogitava desde ontem -entre os países da coalizão e à falta de previsão na apressada e vaga Resolução 1973 das Nações Unidas - se entregar, num acordo, a região da Cirenaica para os rebeldes e deixar a Tripolitânia com Berlusconi.



Só para lembrar, o petróleo e o gás estão presentes na Cirenaica e não na Tripolitânia. Com o desértico Fezzen, ninguém se preocupa, e as tribos nômades não têm com o que se desesperar.



Com a certeza que acaba de externar, Berlusconi vai muito além da divisão da Líbia. Com a garantia de que Kadafi não seria entregue ao Tribunal Penal Internacional, o premier Berlusconi está certo de que o raís líbico (raís, um o termo árabe que designa chefe) aceitará o exílio.



Para os que não acompanham o longo jogo de cena entre Berlusconi e Kadafi, trata-se de algo impossível. Só que não é bem assim. Pouco tempo atrás, Kadafi ameaçou a Itália e prometia agressões em face dos 30 anos de ocupação colonial. De repente, o raís chegou a Roma, instalou a sua tenda num parque maravilhoso, pagou garotas de programa para ouvir as suas palestras sobre o seu Livro Verde e celebrou um acordo bilateral a garantir cooperação mútua. Enquanto isso, os fundos líbios alavancaram empresa italianas e até a sociedade futebolística Juventus de Turim. Fora isso, o gás da Líbia aquece os invernos nas residências da “bota” e o petróleo move e sustenta a Eni (empresa de energia italiana).



Nesta semana, depois do domingo com caças peninsulares nos céus da Líbia, Kadafi chamou os italianos de traidores. Na segunda-feira, em Turim e no lançamento do candidato a prefeito pelo seu partido, Berlusconi, amigo declarado de Kadafi, falou da sua profunda tristeza e do estado de depressão que o acometeu depois de ver as imagens da destruição da Bab al-Aziziya, a residência do raís Kadafi.



Não se deve esquecer que, no início das hostilidades, Berlusconi, em entrevista, disse que não telefonaria ao amigo Kadafi em respeito ao repouso de fim de semana.



Num resumo de ópera bufa, Kadafi chama os italianos (sem nominar Berlusconi) de traidores. Por seu turno, Berlusconi, comovido com as imagens de destruição da residência oficial do raís, ameaça se debulhar em lágrimas.



Nesse quadro - com Berlusconi, que tem carreira artística de intérprete como cantor em cruzeiros marítimos, e com Kadafi, conhecido internacionalmente como homem de dupla-face -, não se pode desconsiderar a possibilidade de ser fechado um acordo quanto ao exílio.



Mais ainda, Berlusconi se mostra esperto, com relação ao termo “traidor” usado por Kadafi, para, logo mais, colocar os agravos na conta do presidente Giorgio Napolitano, pois a questão de integrar a coalizão é de Estado (Napolitano é chefe de Estado), e não de governo (Berlusconi é chefe de governo, primeiro-ministro).



2. Amanhã, o ministro italiano de Relações Exteriores seguirá para a Etiópia. Vai participar de uma reunião com os líderes da União Africana, único órgão em que Kadafi diz confiar e aceitar como negociador.



PANO RÁPIDO. Sarkozy tomou a iniciativa e diz não ter a população de Bengasi sido dizimada graças a intervenção francesa. Uma intervenção, frisa Sarkozy, que aconteceria com ou sem aval do Conselho de Segurança.



Como parceiro, Sarkozy pegou a Grã-Bretanha, do inexperiente David Cameron. E a Grã-Bretanha confundiu tudo. Atacou Trípoli e destruiu a residência de Kadafi. Em síntese, mostrou ao mundo que a sua tarefa era a de matar o tirano Kadafi.



Diante da manutenção do protagonismo, Sarkozy resistiu em aceitar a Otan no comando. De quebra, irritava a Itália - que queria a Otan - com a compra quase fechada da Parmalat, que foi totalmente reformulada e dá lucro fabuloso.



Com Kadafi no exílio, o grande vencedor será Berlusconi, e não Sarkozy.



Cá entre nós, este colunista espera que Kadafi proponha se exilar na cinematográfica villa de Berlusconi na Sardenha. Ou melhor, que finque a sua tenda nos jardins magníficos de Villa Certosa (Sardenha). Um amigo não deve desejar ao outro um exílio em Darfur (Sudão) ou Ciudad Juarez (México), por evidente.

Wálter Fanganiello Maierovitch


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet