São Paulo,  
Busca:   

 

 

Agora

 

O novo Alemão e a Indústria das Drogas. População aprova unidades pacificadoras.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 15 de dezembro de 2010.


Complexo do Alemão




--1. O novo Alemão e a indústria das drogas.



Sozinho e com a elementar cautela de substituir os habituais paletó, gravata e sapatos de amarrar, por camiseta, bermuda e tênis, dei um giro pelo Complexo do Alemão. Só faltou uma volta de teleférico porque estava em reforma. Deu para sentir o novo astral e a exultação da comunidade decorrentes das designações (1) do experiente general Fernando José Lavaquial Sardenberg, infante e paraquedista, para comandar a Força de Paz no Alemão (foi o primeiro em missão no Haiti) e (2) de juízes estaduais para solucionar conflitos e dissensos, quando estes, antes da reconquista pelo Estado, eram resolvidos pelo crime organizado, que aplicava as suas “leis”. Não se deve olvidar, como já ensinou Piero Calamandrei nas suas “Opere Giuridiche”, que o Judiciário ao solucionar conflitos restabelece a tranquilidade social. Enfim, os moradores do Alemão voltaram a ter cidadania e até uns trocos do “ cartão Família Carioca”, um nada original “bolsa família” criado pelo prefeito Eduardo Paes: 440 mil moradores que vivem abaixo da linha da pobreza serão beneficiados e 12% habitam no Alemão.



No Alemão, dentre tantas coisas, interessei-me em saber sobre a casa, com piscina e deck de madeira, de um dos chefões do tráfico de drogas. A foto dessa casa foi manchete e os jornais noticiaram como tendo sido uma surpreendente descoberta feita pelas forças de ordem. A tal casa fica no alto e se destaca na paisagem.. Poderia ter sido objeto de fotografias aéreas ou de filmagens pelos 007 da inteligência policial. Por evidente, uma “banda pobre” policial mantinha a sua blindagem.



Uma comparação assaltou-me no Alemão. Na região andina fotografias aéreas e imagens de satélites são registradas com o objetivo de acompanhar as áreas por onde se espalham os arbustos da coca, cuja folha é a matéria prima na elaboração do cloridrato de cocaína. Desse importante material de imagens decorreu a conclusão segundo a qual as áreas de cultivo de coca migram. Mais ainda, nos últimos 20 anos, nunca foram reduzidas.



Ora, não se vence a batalha contra o crime organizado, quer de matriz mafiosa, quer terrorista, sem ataque à economia que movimenta e lhe dá força. Quando a meta é levar as associações delinquenciais à bancarrota, torna-se imprescindível a coleta de dados, como a da casa do chefão do tráfico de drogas ilícitas do Alemão ou os estabilizados 200 mil hectares de arbustos de coca nos países andinos. Sem o desfalque patrimonial, as organizações criminosas continuam a exercitar o poder corruptor, a se infiltrar no poder e influir em época eleitoral.



Depois de preso, Al Capone, que controlava em Chicago a “famigila” da Cosa Nostra, resolveu revelar como conseguiu, em 13 anos de lei seca (1920-1933), amealhar US$60 milhões: - “I own the policie”. E para ter a polícia na mão, Al Capone precisava de dinheiro. Parêntese: Capone, que era bronco, não lavava dinheiro e foi preso por não pagar tributos. O lavador de dinheiro da Cosa Nostra sículo norte-americana era Meyer Lansky, dado como gênio das finanças. O octogenário Lansky nunca foi preso e jamais passou mais de 40 minutos num distrito policial.



Conforme revelado pelo jornal Valor Econômico, a polícia do Rio utiliza um potente softwer. Como o programa carece ser abastecido de dados, algo anda a falhar. Dessa base de dados não contava a casa com piscina e deck no Alemão. Numa visão macro, a criminalidade organizada do Rio e de São Paulo (PCC) ainda não foi atingida para valer no seu “bolso”. As apreensões de imóveis de Polegar e de Thiago Santos Igreja são insignificantes à luz do fenômeno criminal instalado há mais de 30 anos no Rio. Outrossim, impressiona o fato de o jornalismo investigativo e não as polícias haver revelado, em matéria de O Globo e diante da grande quantidade de drogas encontradas no Complexo do Alemão, que traficantes brasileiros ligados a Beira-Mar têm fazendas em Capitan Bado e Pero Juan Cabalero e de lá sai parte da maconha ofertada nos mercados do Rio e de São Paulo. Pior: desde 2000, o Instituto Brasileiro Giovanni Falcone denuncia, em Capitan Bado, o uso de sementes transgênicas de maconha.



Com efeito. O secretário da segurança do Rio, que conseguiu pela primeira vez na história nacional uma marcante vitória contra o crime organizado na Vila Cruzeiro (Penha) e Complexo do Alemão, sem derramamento de sangue inocente e dentro da legalidade, deveria reforçar as ações de contraste à economia das associações que atuam dentro do Rio e, também, identificar as redes, fora do Rio, de fornecimento de drogas e armas as quais o Comando Vermelho, os Amigos dos Amigos e as Milícias estão plugadas.



Convém não esquecer um sempre atual ensinamento do advogado Edwin Meese, colaborador do FBI nas questões de branqueamento de capitais. Para ele, a “ lavagem de dinheiro é como o banco de sangue que dá vida ao crime organizado”. E como “pecunia olet” (o dinheiro tem cheiro), o capital sujo pode ser perseguido.




























-2. A Pesquisa.


O porcentual de aprovação é altíssimo. Ou melhor, na consulta por amostragem realizada pelo Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), 92% de moradores em favelas pacificadas aprovaram a política chamada de Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs).



Foram entrevistados 800 habitantes de favelas.



Nos locais onde ainda faltam as UPPs existe um anseio positivo, da ordem de 77%.



A supracitada pesquisa é matéria de capa do jornal O Globo de hoje.



Ela revela, também, porcentual razoável de confiança dos moradores em UPPs nos policiais militares: 60% confiam. Nos morros que aguardam a implantação e cuja conclusão será em 2014, o porcentual é de 28%, ou seja, bem baixo.

--Wálter Fanganiello Maierovitch--


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet