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Crime Organizado. O cala-boca Cabral e o troca-troca proposto por Beira-Mar.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 04 de dezembro de 2010.


--1. O cala-boca Cabral.




Ontem, informei que havia um novo conflito no Complexo do Alemão.



Um conflito entre autoridades e decorrente de inoportuno ataque verborrágico do governador Sérgio Cabral.



Em menos de cinco dias e sem ter competência constitucional, Cabral anunciou o nome do futuro ministro da Saúde do governo Dila Roussef e a manutenção do Exército, por 11 meses e com poder de polícia, nos território reconquistados no complexo do Alemão e na Vila Cruzeiro.



A respeito, os jornais de hoje contam as reações de desagrado do presidente Lula e do ministro Nelson Jobim, este diretamente da Polônia.



O presidente Lula e Jobim já determinaram, - e Cabral teve de engolir as conseqüências da sua precipitação--, que as tropas federais não ficarão no local por muito tempo e continuarão a atuar em apoio às polícias do estado do Rio de Janeiro, ou seja, nada de assumir o papel das polícias fluminenses, que é, constitucionalmente, a detentora do poder de policiamento.



Nas próximas horas, e o presidente Lula já determinou a redação de uma diretriz, que vai engessar Cabral e terminar com os seus arroubos inconstitucionais. Do regramento oficial contará, por exemplo, a delimitação da área onde a polícia contará com o apoio do EXército. Mais ainda, o apoio será “numerus clausus”, ou melhor, taxativo e não genérico, exemplificativo.



Não constará da diretriz a fixação de prazo certo para a permanência na área em questão. Mas, ficará expresso que será por prazo suficiente e com o mesmo efetivo, ou seja, 800 homens do Exército. E esse prazo suficiente, como será avisado Cabral verbalmente, não excederá sete meses.



Mais uma vez, e nem precisava, ficará expresso que as tropas do Exército terão comando de um oficial designado. Isto quer dizer que o comando não será do governador Cabral, como ele imaginava e, por isso, começou a soltar determinações.



Beira-Mar.



--2. O troca-troca das cartas de Beira-Mar.



O comando de Operações no Complexo do Alemão deixou vazar, --e o jonal O Globo de hoje publica longa matéria à página 20--, a apreensão de cartas na casa de Marcelino Niterói, braço direito de Fernandinho Beira-Mar.



Os policiais suspeitam que as cartas tenham sido escritas por Beira-Mar. Já foi feito um primeiro cotejo quanto à caligrafia. Por outro lado, o conteúdo revela que se trata de escrito de um preso que está custodiado em presídio especial e em desespero por não ver possibilidade de fuga sem que seja por uma barganha com as autoridades.



Nas cartas em exame, Beira-Mar prega uma imediata união do Comando Vermelho com as milícias. Com a união seriam realizados seqüestros (tem até um nome sugerido e não revelado pela polícia) para trocar os reféns por milicianos presos, como Batman, o ex-deputado Natalino Guimarães e o ex-vereador Jerônimo.



A idéia de Beira-Mar, --que também seria beneficiado numa das trocas--, já foi da predileção da Máfia siciliana e da organização terrorista que ficou conhecida por Brigadas Vermelhas ( a moeda de troca era o ex-primeiro ministro Aldo Moro, que presidia o partido da Democracia Cristão, o maior da época. Moro foi eliminado em razão da não aceitação da troca proposta).



Os mafiosos deixaram claro, para usar a expressão do saudoso escritor siciliano Leonardo Sciascia, que uma organização criminosa especial necessita sempre, para difundir o medo e até para trocas, de “vítimas excelentes” (pessoas de destaque, quer autoridades, quer celebridades) e, também, de “cadáveres excelentes” ( mortes a causar repercussões nacional e internacional).



Como se percebe, Beira-Mar, --com custódia em presídio de segurança máxima em Campo Grande (MS)--, não está devidamente isolado. Em síntese, continua a mandar cartas com ordens. --3. O diversionismo que favorece o crime organizado.



O diversionismo vem sendo a arma utilizada para reduzir a importância, embaçar o brilho e colocar em dúvida o êxito da atuação das forças de ordem no estado do Rio de Janeiro. Provocadas e desafiadas por uma “confederação criminal” formada por facções de matriz mafiosa, as polícias e as Forças Armadas lograram sucesso nas ações repressivas na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. A propósito, essa repressão ensejou as reconquistas do controle social e do espaço físico.



Com artes do mitológico Procusto, tem sido afirmado que a “guerra” declarada pelas facções criminais contra o Estado e contra a sociedade civil originou-se do fato de o governo Sérgio Cabral priorizar medidas de contraste às associações denominadas Comando Vermelho (CV) e Amigos dos Amigos (ADA) e de se omitir relativamente às organizações de paramilitares, chamadas de milícias pela população. Parêntese: as milícia foram criadas pela “banda podre” da polícia fluminense. Elas dominam territórios, cobram o “pizzo” (taxa de proteção da Cosa Nostra exigida dos moradores, comerciantes, prestadores de serviços e industriais), obrigam pagamentos de comissões nas locações e vendas imobiliárias, comercializam produtos piratas e drogas. Levado em conta o número de integrantes e o controle de áreas, as milícias já rivalizam com o CV. Como o CV e a ADA seguem o horizontalizado modelo da Camorra italiana, as milícias assemelham-se aos Los Zetas mexicanos.



Não faltam, ainda, os boatos sobre um acordo tácito celebrado, à véspera da tomada do complexo do Alemão, entre o governo e o crime organizado, como sucedeu em 2006 no estado de São Paulo. Pelo avençado, os criminosos abdicaram da resistência armada em troca da fuga. E a “vox nullius” ecoada sustentava que o acordo interessava aos governos estadual e federal pelo grande risco de derramamento de sangue inocente.



No Rio, foram marcantes algumas falhas operacionais. Por exemplo: os 007 dos serviços de inteligência estimaram em 600 o número de membros armados do CV que estavam prontos a resistir à invasão. Destes, apenas 23 foram presos. Os demais, inclusive os chefões Fabiano Atanázio da Silva, vulgo FB, e Roberto de Souza Paz, apelidado de Mica, teriam fugido por uma galeria de águas pluviais, de dois metros de altura por igual medida de largura. E na fuga os criminosos teriam passado por baixo da pista da Estrada do Itararé, onde estavam estacionadas as tropas do Exército.



Não é correto, tecnicamente, fazer-se a separação entre CV, ADA e milícias. Todas elas são espécies de um mesmo gênero, ou seja, são organizações com matriz mafiosa porque controlam, em áreas certas, os negócios, submetem os membros às suas leis, difundem o medo e perseguem sempre o lucro. As UPPs, pelo informado, objetivam acabar com uma espécie de secessão, caracterizada por um sistema de poder próprio. Ou, como dizia o constitucionalista de Mussolini, o jurista Santi Romano, são organizações que estabelecem um “poder paralelo”. O certo é que o governo tem poder discricionário na escolha da melhor estratégia de implantação das UPPs. Com isso não está a conceder “bill de indenidade” para as milícias.



As falhas operacionais na ocupação do complexo do Alemão derivaram da falta de conhecimento do fenômeno e isso não significa acordo com o crime organizado. O diversionismo em curso só aproveita ao crime organizado. Ele quebra a confiança dos cidadãos nas forças do estado. Durante anos assistiu-se, nas correlações entre associações criminosas e membros escravizados da comunidade , um vínculo de solidariedade constituído pelo medo. E tal vínculo acabou de ser desfeito com as retomadas.

-Wálter Fanganiello Maierovitch -- Walter Fanganiello Maierovitch--


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