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Crime Organizado. Polícia e Exército tomam bola nas costas. Fugas espetaculares do Complexo do Alemão.

IBGF, 2 de dezembro de 2010.





1. No Brasil, ainda é grande o desconhecimento das autoridades sobre o fenômeno representado pelo crime organizado de matriz especial, mafiosa, ou seja, acerca de organizações criminosas que mantêm o controle social e de território. Por isso, e para usar uma linguagem futebolística, as forças de ordem acabam sempre por tomar “bola nas costas”.



O jornal O Globo de hoje mostra que os integrantes da facção Comando Vermelho (CV) que controlava e governava o Complexo do Alemão fugiram do confronto com as forças de ordem pelas galerias pluviais. Mais ainda, os criminosos associados, pelos espaços onde correm os dutos da Estrada do Itararé, passaram por baixo de tropas do Exército que lá estavam estacionadas.



De se frisar que, no Complexo do Alemão, o crime organizado controlava o território, conhecia muito bem todos os cantos, becos e galerias. Quanto às galerias, sabiam até que tinham 2 metros de altura, com igual medida de largura. Em resumo, circulação fácil até para obesos.



Qualquer organização criminosa com controle de território (matriz mafiosa) estabelece rotas de fuga. E os chefões das organizações puxam a fila, fogem na frente.



No Complexo do Alemão os órgãos de inteligência estimavam que 600 homens do CV enfrentariam, fortemente armados, as forças policiais e do Exército. No sábado, os soldados do CV fizeram disparos com armas de fogo e os experientes militares do Exército, com atuação no Haiti, devem ter exultado com a identificação do lugar de concentração. Os disparos, no entanto, restaram efetuados para distrair a atenção, enquanto os cabeças da facção escapavam pela galeria pluvial do outro lado.



Por ironia, saíram no Morro do Adeus. O verdadeiro adeus deram quando entraram na galeria da rua Joaquim de Queiroz (primeiro ingresso).



2. Numa terra de bacharéis e de leguleios como a nossa, começam as discussões de o Exército permanecer no Complexo do Alemão por sete meses, até que os novos policiais concluam seus cursos nas academias.



É que a Lei 117/2014 fala, referentemente ao uso subsidiário das Forças Armadas, em tempo limitado.



Para alguns, sete meses seria muito, com grande risco de corrupção. Para esses, a volta ao quartel e permanência por lá seria mais seguro. Seguro para eles, claro. E para a população?



Dada a situação particular do Rio de Janeiro — com o crime organizado há mais de 20 anos controlando territórios e a vida das pessoas das comunidades —, é evidente que sete meses não pode ser considerado tempo longo. Muito menos, ilimitado (limite: 7 meses).



3. Certa vez estava na Itália e conversava com dois magistrados da Procuradoria Nacional Antimáfia. Estavam indignados com a polícia. Por quê? Simples, um grande chefe camorrista, foragido da Justiça italiana há mais de cinco anos, fora, no final de 2009, localizado num condomínio residencial. A polícia cercou o prédio e todos os moradores deixaram os apartamentos. Depois da saída dos condôminos, a polícia vasculhou o prédio e não achou o camorrista procurado, que morava no térreo. Ele, havia muito tempo, cavara um túnel que ligava a sua unidade condominial ao salão de festas. E, no fundo do salão, havia uma galeria de escoamento de águas pluviais, com tampa e cadeado. O camorrista tinha a chave do cadeado, sabia como fugir dali.



Nos anos 90, na capital de São Paulo e no chamado presídio do Hipódromo e na Casa de Detenção, era comum os presos cavarem túneis. Quando fui juiz corregedor de presídios, visitei, na Casa de Detenção, uma obra de engenharia. Um túnel, iluminado e ventilado artificialmente, cavado pelos presos. E os agentes penitenciários não desconfiaram de movimentação de terra e seu armazenamento em sacos.



A partir daí fiquei com uma certeza, que se reforça em episódios como a fuga no Complexo do Alemão por galeria pluvial: criminoso vira rato quando quer escapar. E sabe ser gato para correr pelas lajes das favelas.



PANO RÁPIDO. Como já escrevi diversas vezes neste espaço Sem Fronteiras de Terra Magazine, os membros de uma quadrilha ou bando de punguistas têm, à luz do Código Penal Brasileiro, o mesmo enquadramento legal dos integrantes do Comando Vermelho (CV), do Amigo dos Amigos (ADA) e do paulista Primeiro Comando da Capital (PCC).



Wálter Fanganiello Maierovitch


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