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O livro-entrevista de Bento XVI e os temas polêmicos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 23 de novembro de 2010.


1. Hoje, nas livrarias e bancas européias, os interessados poderão comprar o livro-entrevista do papa Bento XVI. O entrevistador é o jornalista alemão Peter Seewald. O título da obra é Luz do Mundo. Certamente, o título não se refere ao entrevistado.



Numa jogada de marketing para despertar a curiosidade, o L'Osservatore Romano, uma espécie de diário oficial do Estado do Vaticano, soltou, no domingo, uma nota sobre a obra e difundiu algumas “pílulas” sobre o pensamento do papa. Em especial a respeito da nova postura de Ratzinger sobre o uso de preservativos .



A matéria do Osservatore Romano acabou por pautar as agências internacionais. Os jornais brasileiros destacaram a mudança.



A propósito de preservativos, trata-se de um velho braço de ferro entre o então cardeal Ratzinger, visto como teólogo maior, e o cardeal Martini, ex-arcebispo de Milão e homem de bom senso, diante de uma Igreja tida como retrógrada e surda aos anseios dos fiéis.



O cardeal Martini, na monumental catedral gótica de Milão e em homilia que fez respirarem melhor os fiéis, sustentou “a licitude do uso de preservativo quando usado entre esposos e quando um deles é soropositivo e não pode subtrair-se aos deveres conjugais”.



À época, Ratzinger defendia a posição do papa João Paulo II apresentada, em 1981, na Familiaris Consortio, dedicada às famílias católicas.



Segundo Karol Wojtyla, “é desonesta toda a ação que se proponha a tornar impossível a procriação”. Em outras palavras, ele condenava a camisinha, ou melhor, o emprego de profilático. E essa era a linha do teólogo Ratzinger, que, agora, mudou, mas não muito.



Para se ter ideia, no planeta temos 2,7 milhões de pessoas com o vírus HIV. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas, de 2000 até outubro de 2010, houve uma queda de 17% de transmissões e a camisinha teve papel primordial para essa importante redução. Por ano, são 90 mil novos casos.



Apesar da mudança de posição e aceitação limitada e condicionada, Ratzinger, na entrevista e sobre preservativo, diz que essa não é essa a maneira verdadeira e correta para vencer a infecção pelo HIV.



2. Para o papa Bento XVI, não se pode ordenar uma mulher para o exercício do sacerdócio. “Não se trata de não querer, mas de não poder. O Senhor deu as regras e a forma para a sua Igreja”. E seguir as regras, frisa Ratzinger, significa obedecer ao Senhor: “Um ato de obediência dos mais difíceis, diante da situação hodierna”.



O papa Eugênio Pacelli, pontífice com a identidade de Pio XII, foi “um grande justo”, pois salvou “muitos e muitos hebreus”, numa referência aos nazistas e à Segunda Guerra.



Naturalmente, diz Ratzinger, “sempre se pode perguntar por qual razão Pio XII não protestou de maneira mais explícita”. E a esse tipo de pergunta, sempre formulada pelos hebreus, o próprio Bento XVI responde: “Creio que tenha entendido quais teriam sido as consequências de um protesto público”.



Pio XII, já beatificado por Ratzinger, recebeu, pelo seu silêncio às atrocidades dos nazistas, o apelido de Papa de Hitler.



Sobre drogas ilícitas, Ratzinger falou que as pessoas ainda não têm uma idéia adequada do poder adquirido pelo comércio. E as drogas “destroem os jovens, as famílias e levam à violência. As drogas ameaçam o futuro de nações inteiras”.



PANO RÁPIDO. O papa Ratzinger busca, no livro-entrevista, melhorar a imagem do seu pontificado e alcançar uma liderança que já demonstrou incapacidade para conquistar, quer pelas vacilações, ambiguidades, homéricas trapalhadas e pouco senso de oportunidade e conveniência.



Bento XVI, ao demorar para enfrentar e admitir o problema da pedofilia entre clérigos, dificilmente conseguirá melhorar a sua imagem. Talvez, só por um milagre divino.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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