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Camorra. Mulher infiltrada prende chefão foragido há 15 anos. Um novo inigma, o do sorriso dos capi quando presos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 19 de novembro de 2010.


Ióvine, sorriso para as fotos.



1. Alguns fatos ainda são mantidos em segredo sobre a prisão, na casa do pedreiro Marco Borrata, de Antonio Iovine, de 46 anos, apelidado Ninno e chefe da Camorra de Casal di Principe (região da Campânia, que tem como capital Nápoles).



Como se fosse invisível, Iovine permaneceu 15 anos foragido da Justiça. Nunca deixou a região da Campânia e o comando da sua organização camorrista, sediada em Casal di Principe.



A cidade é a capital mundial da contrafação e uma escola para chineses enviados pelas Tríades para aprender a alta costura: são grosseiras as falsificações chinesas de marcas famosas. Casal di Principe, proporcionalmente, mantém em circulação a maior concentração planetária de automóveis da marca Mercedes-Benz (confira post abaixo).



A grande estrela da prisão de Ninno foi a policial Rosaria que integra a Esquadra Móvel de Nápoles (Squadra Móbile di Napoli), sob o comando de Vittorio Pisani, um calabrês de 43 anos e de muito sucesso na desarticulação dos “casalesi” (camorra de Casal di Principe).



Rosaria, uma napolitana que como policial conhece o dialeto e todo o jargão da Camorra, foi, no papel disfarçado de uma mulher comum, enviada a Casal di Principe. Alugou um apartamento e passou a trabalhar como secretária de uma empresa comercial. Ela cumpria a rotina de uma trabalhadora comum e, em três meses, estava integrada à vida da cidade, sem despertar suspeitas.



A policial Rosaria, parte do dia, realizava escutas telefônicas e “plantava” equipamentos em escuta ambiental (microespias), em especial no fundo de latas lixo que, após a coleta, voltavam para dentro das casas.



Depois do primeiro mês, Rosaria passou a seguir os passos do supracitado pedreiro Marco Borrata, da sua convivente Rosa Cantiello e da filha Benedetta Borrata. Essas duas mulheres preparavam as refeições e lavavam as roupas de baixo do latitante (foragido) Ninno.



O apartamento alugado pela disfarçada policial Rosaria ficava próximo daquele onde residia o pedreiro Borrata. Com relação a esse particular, o chefe da esquadra móvel, Pisani, nada esclarece. Por evidente, não foi coincidência locar um imóvel vizinho ao do pedreiro onde o super-boss Ninno comparecia para fazer uma refeição.



Segundo contou Rosaria à rede televisiva TG2, a sua tarefa era seguir o pedreiro e a família.



Na quarta-feira passada, Rosaria, pelos grampos telefônicos e escutas ambientais, sabia que Rosa tinha saído apressada para comprar panetone e, pouco tempo depois, a filha Benedetta, num automóvel, chegou acompanhada de um homem, com cerca de 40 anos, e que mantinha a cabeça baixa para não ser visto.



Com esses dados, o chefe da esquadra móvel, Pisani, deu o alarme para invadir a casa do pedreiro. Aos 200 homens envolvidos originalmente na operação juntaram-se outros cem.



O apartamento foi invadido pela polícia e presos Ninno, o chefão casalesi, e o pedreiro Marco Borrata, por favorecimento ao crime.



2. Um ponto intrigante que já chama a atenção de especialistas, o novo hábito dos chefões. Ninno, algemado e ao chegar à questura di Napoli (departamento de polícia), sorriu aos inúmeros fotógrafos e cinegrafistas.



No Brasil, os criminosos, comuns ou de colarinho branco, costumam esconder o rosto. Não de vergonha, mas para evitar a difusão das imagens pelos jornais e telejornais.



Na Itália, Totò Riina, o sanguinário capo dei capi (chefe dos chefes) da Máfia, foragido por 23 anos sem deixar o território siciliano que controlava, mostrava semblante sereno quando apresentado à imprensa: a sua prisão se deu em 15 de janeiro de 1993. Quando da prisão, Riina só fez uma pergunta, ou melhor, queria saber quem o havia traído.



O sucessor de Riina no governo da Máfia siciliana foi Bernado Provenzano, que ficou foragido por mais de 42 anos, sempre sem sair da Sicília nem abandonar a organização.



Com Provenzano começa uma nova postura. A de sorrir às câmeras. Provenzano apareceu sorridente em todos as fotos publicadas.



Pelo jeito, os camorristas passaram a copiar os chefões mafiosos. Sandokan Schiavone, “o rei de Casal di Principe” e principal chefão do clã dos “casalesi”, sorriu e fez pose quando preso. Como fazia halterofilismo, estufou o peito e cruzou os braços para mostrar os músculos.



3. Como esclareceu em nota o presidente italiano Giorgio Napolitano, o eficiente combate às organizações criminosas deve-se ao empenho dos magistrados do Ministério Público (na Itália a Magistratura é única) e das forças policiais, que conseguiram a sinergia necessária para enfrentar esse secular fenômeno.



O governo Berlusconi — que deve cair nos próximos dias quando se votará uma moção de desconfiança — procura faturar com as prisões. Nunca se prendeu tanto, disse o ministro Maroni, da pasta do Interior (responsável pela segurança pública). Nos dois anos do governo Berlusconi foram presos 406 foragidos.



PANO RÁPIDO. Depois da prisão de Ninno, as forças de ordem anunciam, para breve, a prisão do mafioso que estaria no controle da organização, Matteo Messina Denaro, de 48 anos apelidado “Diabolik”, e do camorrista, também de Casal di Principe, Michele Zagaria, de 52 anos apelidado “Capastorta”.



Como registrei em post de 17 de março passado neste espaço Sem Fronteiras de Terra Magazine, Matteo Messina Denaro foi um dos fiéis de Riina.



Com a prisão de Bernardo Provenzano, o chefão da Máfia passou a ser Matteo Messina Denaro, que comanda, na região de Trapani, a famiglia mafiosa da cidade de Castelvetrano. Ele realiza tráfico de drogas, de armas e extorsões. Está condenado por homicídios, associação mafiosa e por ter executado os ataques a Florença, Milão e Roma.



Denaro quase foi preso no início de março passado. Conseguiu fugir, mas seu irmão, que é o contador da célula mafiosa de Castelvetrano acabou preso. Foram pegos, também, 19 auxiliares diretos de Matteo Messina Denaro, que nasceu em Castelvetrano. Dentre os presos estão incluídos os que levavam os bilhetes escritos de próprio punho por Denaro (i postini).



Como se constatou com o mafioso Provenzano e com o camorrista Ninno, os grandes chefões não usam armas de fogo nem celular e nem internet. Enviam ordens por bilhetinhos (pizzini), que mudam de mãos várias vezes, até chegar ao destinatário. A supresa na Operação Golem, que quase prendeu Denaro em março, ficou por conta da prisão de Nino Marotta, um velho capo da mafia de 83 anos, membro da famiglia mafiosa de Castelvetrano, dirigida por Denaro.



Marotta, quando preso, sorriu e abanou a mão, como a cumprimentar, para os fotógrafos e cinegrafistas.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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