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Sexogate e crise política. Berlusconi por um fio.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 11 de novembro de 2010.

Berlusconi.


1. O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi está em queda livre. E já se fala abertamente em um novo governo para a Itália.


No fim de semana, em Perúgia, o presidente da Câmara, Gianfranco Fini, pediu a saída de Berlusconi.


Fini, um ex-fascista que hoje veste o figurino ideológico de uma direita progressista, democrática e que respeita direitos humanos, lançou as diretrizes do seu novo partido, Futuro e Libertà. O atual presidente da Câmara fundou o partido chamado Aliança Nacional, neofascista e o extinguiu ao se vincular à coligação de apoio a Berlusconi, líder do Popolo della Libertà (PDL).


O nome de Fini aparecia estampado nas cédulas, quando das últimas eleições. E estava grafado logo abaixo do nome de Berlusconi. Tal fato é usado, pelos parlamentares ligados a Fini, para sustentar a tese de Berlusconi não ter ganho sozinho as eleições.


Nos três últimos meses, Berlusconi, com a mão do gato, tentou destruir Fini. Pelo jornal controlado pelo irmão de Berlusconi, noticiou-se um escândalo a envolvê-lo. Ele estaria metido numa grossa tramóia de compra e venda de um apartamento em Monte Carlo, a beneficiar o próprio cunhado e a lesar a Aliança Nacional, ex-proprietária do referido imóvel. Aliás, imóvel recebido por doação de uma já falecida militante da direita nacionalista, fascista.


Ontem aconteceu a primeira grande derrota política berlusconiana. Seu governo não conseguiu, no Parlamento, aprovar o Tratado Itália-Líbia, firmado em 15 de maio de 2009 pelo premiê italiano com o ditador líbio Muammar Kadafi. Era a prova da destruição, por enquanto de fato, da base parlamentar de Berlusconi.


Os parlamentares do novo partido Futuro e Libertà votaram com a oposição (Partido Democrático-PD) ao governo do premiê Berlusconi. Tal tratado, violador das mais elementares regras de proteção ao imigrante, acabou rejeitado.


Para se ter idéia, o tratado permitia que embarcações, por determinação do Ministério do Interior italiano e em águas internacionais, fossem interceptadas e os que tentavam imigrar encaminhados às autoridades da Líbia. A Líbia não aceita, em seu território, uma agência da ONU para refugiados, ou seja, um órgão para acompanhar casos de refugiados políticos, como os que tentam escapar da ditadura de Kadafi. Assim, os que se arriscam a imigrar e são capturados submetem-se às penas desumanas de um regime ditatorial.


No Parlamento, Berlusconi conta, no momento, apenas com o apoio da Liga Norte e isto não lhe dá maioria, evidentemente. Como todos sabem, sem maioria não se consegue governar.


2. Não bastasse a crise política, a ética, moral e criminal voltou a atingir em cheio Berlusconi.


No início da tarde de hoje foi demolida a farsa que o ministro do Interior (segurança pública interna), Roberto Maroni, encenou ontem no Senado. Isso para tentar por fim ao sexogate, conhecido também por caso Ruby Rubacuori (Ruby rouba-coração).


A subprocuradora Anna Maria Fiorillo, da magistratura do Ministério Público na função de curadora de menores de idade, desmentiu a versão sustentada por Maroni. Para ela, o departamento de polícia (questura) de Milão, no fatídico 27 de maio de 2010, violou a lei italiana para atender Berlusconi, interessado na liberação da menor Karina el Mahroug, apelidada no mundo das garotas de programa de Ruby Rubacuori.


Só para lembrar.


Em 27 de maio de 2010, Ruby, uma escort que frequentava as orgias berlusconianas, foi presa devido à acusação de roubo de 3 mil euros.


Uma amiga de Ruby, a brasileira Conceição Santos Oliveira, também conhecida por Michelle Conceição de Oliveira, telefonou para Berlusconi a fim de avisar sobre a prisão e pedir ajuda.


Com o aparelho celular do chefe do corpo de segurança, Berlusconi telefonou à questura e, para justificar a soltura, contou que Ruby, uma marroquina sem visto de permanência na Itália, era sobrinha de Hosny Mubarack, do Egito. Assim, precisava ser solta, para se evitar problemas diplomáticos: Mubarack soltou um protesto diplomático.


Depois da pressão feita diretamente pelo premiê Berlusconi, Ruby foi entregue, contra determinação expressa da lei de proteção a menores em situação irregular, à tutela de Nicolle Minetti.


Na questura, Minetti se apresentou como ex igienista dentale de Berlusconi: Minetti foi eleita, com apoio de Berlusconi, conselheira municipal em Milão. Logo depois da liberação, a menos de um quarteirão de distância da questura, Minetti teria se despedido de Ruby. Para a procuradora Fiorillo, que acaba de representar ao Conselho Nacional da Magistratura, houve descumprimento da lei por parte da questura. E também se violou sua deteminação: naquele dia 27 de maio ela atuava, no plantão do Tribunal de Menores, como curadora.


Em tais casos, explicou Fiorillo ao site do jornal La Repubblica, a menor é encaminhada a uma “Casa de Acolhimento”. Como existiam vagas em várias delas, a questura milanesa não poderia, contra orientação do Ministério Público, ter entregue Ruby para Nicolle Minetti, de 27 anos.


Numa síntese, toda a versão do ministro Maroni, que é da Liga Norte, foi desmentida e reduzida a pó pela procuradora Fiorillo. E agora o caso está no Conselho Nacional da Magistratura, que poderá dar razão à magistrada Fiorillo.


3. Ruby tinha 17 anos quando frequentava as festas de Berlusconi e afirmou que na Villa Arcore (cinematográfica mansão de verão de Berlusconi na Sardenha) dançava-se o “bunga-bunga”.


Na origem, o bunga-bunga era uma dança de tribos quenianas, em que os homens, a se agitar numa fila, esperavam a vez para sodomizar o inimigo capturado. Nas festas de Villa Arcore fazia-se um “trenzinho” e peças de roupa eram tiradas durante as evoluções das simbólicas composiçôes.


No dia 1 de novembro de 2010 Ruby completou 18 anos de idade. Desde então, ela comemora em requintadas casas noturnas, e as festas acontecerão durante todo o mês com bolo, prosecco e muitos convidados.


PANO RÁPIDO. Está sendo aguardado o testemunho de Conceição Santos Oliveira, a brasileira que tinha o número do celular de Berlusconi.


Por enquanto, já se cuidou de arrumar — como no caso da napolitana Noemi (também menor de idade quando conheceu Berluscon) — um noivo para Ruby. Chama-se Sergio.


Na capa da revista Oggi, que acaba de chegar às bancas italianas, está a foto de Veronica Lario, que entrou com um pedido de divórcio contra Berlusconi.


O título estampado na capa é sugestivo: “La Vera Storia di Veronica” (A Verdadeira História de Verônica).


Wálter Fanganiello Maierovitch


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