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Guerra às Drogas. Os cartéis irão se autodestruir afirma presidente mexicano.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 26 de agosto de 2010.




--1. A cada dia, o presidente Felipe Calderon solta uma idéia nova ou uma frase de efeito para tentar distrair os alarmados mexicanos.



Depois da recente descoberta dos 75 cadáveres no estado de Taumalipas, o presidente Calderon soltou, ontem, a seguinte pérola: - “ Acho que a violência vai aumentar, mas, no final, tudo acabará em razão de os narcos estarem se autodrestruindo”. Como idéia, ele apresentou a dos “juíz sem rosto”, objeto do post abaixo. A frase soa estranha. Em outras palavras, Calderon admite que não será uma vitória da sua política de militarização no combate à criminalidade organizada. No seu vaticínio, a autodestruição colocará fim à violência. Até hoje, essa forma extintiva é desconhecida na historiografia do crime organizado de matriz mafiosa. Só para registrar, na “guerra às drogas”, Calderon emprega as Forças Armadas. São 50 mil militares em ação nessa “war on drugs”.



A “guerra às drogas” de Calderon gerou aumento de despesas para os cartéis. Essas organizações precisaram das melhores armas e mais capital para corromper as forças de ordem. Em razão disso, muitos cartéis entraram em luta pela conquista de territórios.



É certo que antigas alianças foram desfeitas como, por exemplo, entre o cartel do Golfo e Los Zetas. Mas, a “caixinha” dos militares envolvidos na repressão tem possibilitado uma expansão do cartel de Sinaloa, liderada por El Chapo Guzmán.



Mas, cooperações foram acordadas. Para os 007 da CIA, o cartel de Sinaloa, comandado por Joaquín Guzmán, conhecido como El Chapo e tido como o mais rico, celebrou aliança com La Familia Michoacán. E no que toca à comercialização da marijuana, houve acordo entre os cartéis Beltran Leyva e a Família Michoacán.



Por outro lado, a corrupção facilita o fortalecimento de alguns cartéis: comenta-se que Chapo (cartel Sinaloa) teria contado com o apoio de forças policiais para estabelecer um corredor de drogas em Tijuana (fronteira com a norte-americana San Diego) e a obrigar um recuo por parte dos homens comandados por El Teo, ligado ao potente cartel de Tijuana.



--2. A corrupção de autoridades é muito comum no México.



O ex-czar antidrogas do México, general Gutierrez Rebolo, acabou corrompido e virou personagem do filme Traffic, um campeão de bilheterias.



Raúl Salinas, --irmão do ex-presidente Carlos Salinas--, acumulou fortuna no mandato de Carlos e isto por dar proteção aos cartéis de drogas: só na Suíça, foram bloqueados US$58,3 milhões de Carlos Salinas.



--3. Dos sete principais cartéis mexicanos ( Tijuana, Juarez, Beltran Leya, La Mamilia, Michoacán, Sinaloa, Golfo e Los Zetas), muitos estão em expansão e gozam de apoio popular.



Na relação das dez organizações criminais que representam risco à segurança dos EUA, os 007 da Central Intelligence Agency (CIA) incluíram o cartel mexicano conhecido por La Familia Michoacán. O seu líder é Nazareno Moreno González, vulgo El Más Loco ou El Chayo.



O apelido El Más Loco tem a sua razão de ser. O líder impõe aos 9 mil filiados a leitura diária da Bíblia e a obrigação de frequentar cursos de aperfeiçoamento espiritual. Também são obrigados a ler as obras do pastor evangélico norte-americano John Eldredge. Sem querer, Eldredge virou guru de sanguinários narcotraficantes organizados.



Os membros desse cartel estão obrigados a seguir um código de ética, com todas as ambiguidades decorrentes do fato de ter sido produzido pela cabeça de um chefe que faz jus ao apelido. Nesse código está escrito, por exemplo, que o membro da organização não pode consumir bebidas alcoólicas nem usar cocaína, anfetaminas ou maconha.



Para eles, não vale nem a descriminação recém-prevista na lei mexicana para pequenas quantidades de drogas destinadas ao uso próprio. No México, permite-se a posse para consumo de até 5 gramas de maconha, meio grama de coca/a, 50 miligramas de heroína-, 40 miligramas de metanfetaminas e 0,015 miligrama de ácido lisérgico (LSD). Como os integrantes da La Familia Michoacán devem ser fiscalizados pela população, o chefão El Más Loco determinou o uso de camiseta com as iniciais FM estampadas.



Nos muros das cidades de Michoacán e Guerrero, sempre aparecem escritos para lembrar a “filosofia” da organização: “La Familia não mata por dinheiro, não elimina mulheres nem inocentes. Ataca apenas aqueles que fazem por merecer. Promovemos a justiça divina e protegemos a população da escória criminosa”.



Por ironia, o cartel nasceu na cidade de Michoacán, de onde é natural o presidente mexicano Felipe Calderón. Sua fundação data de setembro de 2006 e a penetração no Estado ocorreu de forma muito rápida, com muitas ações sociais e até assessoria de imprensa, esta a cargo de Dionisio Loya Plancarte, vulgo El Tio. Até agora, já foram presos e condenados dez prefeitos e oito chefes de polícia por envolvimento com La Familia, que também explora a extorsão mediante sequestro.



La Familia logo se espalhou pela região conhecida por Tierra Caliente, que vai de Acapulco à fronteira com a cidade norte-americana de San Diego. Hoje, a organização criminosa tem presença em 30 cidades dos EUA e mais de vinte Estados mexicanos. Tudo isso sem prejuízo de também cuidar da distribuição de cocaína e de drogas sintéticas psicoativas para Holanda, Bélgica e China.



O chefe militar do cartel é Servando Gómez Martínez, apelidado de Tuta, responsável por ações que já mataram centenas de policiais. Nas ações espetaculares, o braço armado do cartel espalha panfletos, sempre com a mesma mensagem: “Reflitam se vale a pena prender um dos nossos”.



Com a prisão dos irmãos Arellano Félix, do cartel de Tijua-na, a Familia Michoacán aumentou seus domínios e passou a operar a maior parte do tráfico de drogas no Golfo da Califórnia. Mais ainda, hoje o cartel controla a passagem pela região de Tijuana e coloca drogas em Los Angeles. O caminho inverso serve para o recebimento de armas e munições, compradas nos EUA.



Projeções realizadas pela CIA mostram que todos os dias entram no México, pela fronteira com os EUA, cerca de 2 mil armas de fogo. No arco de 2006 a setembro de 2009, foram apreendidos 4,8 milhões de projéteis de armas de fogo made in USA. No mesmo período ocorreram 35.943 apreensões de armas de fabricação norte-americana no México.



O cartel liderado por El Más Loco – um dos mais potentes do México – está em permanente guerra com os do Golfo, cujos membros da ala armada são conhecidos por Los Zetas, e do cartel Milenio, que planta maconha e papoula em Michoacán.



O chefão do cartel do Golfo, Osiel Cárdenas Guillén, está preso. Os irmãos Valencia, do cartel Milenio, perderam força com a desarticulação do cartel colombiano de Medellín, ao qual mantinham uma rede de negócios.



--4. Alguns dados recolhidos pelos 007 da CIA impressionam:
--a. Cerca de 90% da cocaína consumida nos EUA passa antes pelo México.
--b Os cartéis mexicanos contam com mais de 500 mil membros e estão mais bem armados do que os agentes do Estado.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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