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Narcossalas. Nobel de medicina é favorável.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 24 de agosto de 2010.




--1. Como noticiamos na semana passada, o presidente francês Nicolas Sankozy proibiu, em 13 de agosto passado, a instalação, --sob administração e controle das autoridades sanitárias francesas--, de “salas seguras” para uso de drogas proibidas, também conhecidas por “narcossalas”.



Em dois comunicados distintos, a Associação Nacional para a Prevenção ao Alcoolismo e à Dependência (ANPAA) e a Associação para a Redução de Riscos (AFR) criticaram a decisão. Essas duas associações gozam de grande respeito nos campos da redução de danos e riscos.



O governo não se sensibilizou com as críticas e muito menos com os dados estatísticos de outros países, a recomendar a abertura de salas seguras para consumo de drogas ilícitas.



Diante disso, especialistas em redução de danos e riscos apelaram ao professor Françoise Barre-Sinoussi, ganhador do prêmio Nobel de medicina. Referido professor é favorável às políticas sócio-sanitárias de redução de danos e de riscos. Ele e o professor Luc Montagnier descobriram e isolaram o vírus da Aids, em 1983.



O ganhador do Nobel de medicina foi recebido pelo chefe de gabinete do primeiro-ministro François Fillon: na França, o regime é presidencialista, mas se adaptou um primeiro ministro, com poderes menores. Quase sempre, um conservador e outro liberal ocupam os cargos, ou melhor e vice-versa, um de esquerda e outro de direito. No momento, Sarkozy representa o centro e a direita, enquanto Fillon o pensamento de esquerda.



A professor Françoise Barre-Simoussi foi avalizar o projeto francês de narcossalas, com base em evidências científicas. Mostrou dados de outros países e ironizou a decisão francesa proibicionista: - “ Fico com a impressão que os dados científicos publicados pelos países onde as narcossalas existem não contam muito por aqui”.



--2. A ANPAA, por exemplo, propõe “que a comissão consultiva nacional de ética para a ciência da vida e da saúde pública seja investida de atribuições para discutir e deliberar sobre questões sociais ( Nota do blog: narcossalas) referentes aos progressos na área do conhecimento”.



Para os membros da ANPAA, a “história epidemiológica e a experiência clínica demonstram que o projeto de uma sociedade sem consumo de drogas é ilusório. As posturas proibicionistas e repressivas são inócuas. Isto porque uma cura raramente se dá apenas com a abstinência”.



A abstinência, prossegue a ANPAA na sua moção de repúdio à vedação governamental à abertura de narcossalas, cria maior exclusão. Ela “afasta dos sistemas de proteção e de acompanhamento da parcela frágil e frequentemente marginalizada de consumidores de drogas proibidas”.



--3. Como já frisado em post anterior, no campo dos direitos humanos, as narcossalas representam práticas sócio-sanitárias. Além de locais seguros para consumo, oferecem programas de emprego, informações e assistência médica permanente.



O modelo europeu considerado de sucesso foi o implantado em Frankfurt, na Alemanha, em 1994, quando a cidade tinha cerca de 6 mil dependentes químicos. Até a Suíça trocou as praças pelos ambientes fechados e controlados.



Em Frankfurt, o número de usuários e dependentes caiu pela metade até 2003. Além disso, outras oito cidades alemãs adotaram as salas seguras. Os hospitais e os postos de saúde, antes das narcossalas, atendiam 15 casos graves por dia, com um custo estimado de 350 euros por intervenção. Tais resultados inspiraram a Espanha, que realiza experiências com as salas seguras.



O sistema alemão oferece acolhida aos que vivem marginalizados e em péssimas condições de saúde e econômicas. Foi, sem dúvida, uma forma de aproximação, incluindo cuidados médicos, informações úteis e ofertas de formação profissional e de trabalho. Com isso, o uso de drogas injetáveis despencou 50%.



Reduziram-se também significativamente os casos de Aids e outras patologias correlatas ao consumo de drogas proibidas. Vale destacar ainda que, entre os usuários que ingressaram nos programas de narcossalas, caiu o índice de mortalidade em virtude da melhora da qualidade de vida. Por sua vez, as mortes por overdose também baixaram, tendo o mesmo sucedido, no campo da microcriminalidade, com os delitos relacionadas ao consumo de drogas.



A experiência de Frankfurt serviu para afastar a tese de que as narcossalas poderiam estimular os jovens a ingressar no mundo das drogas. Pesquisas realizadas por autoridades sanitárias demonstraram que os jovens de idade entre 15 e 18 anos da cidade não partiram para o uso de heroína ou cocaína e menos de 1% nunca provou uma dessas drogas na vida. Um levantamento epidemiológico revelou o aumento na idade do consumidor: subiu para entre 30 e 34 anos.



As narcossalas, nos lugares onde foram implantadas, deram certo não só em relação à redução da demanda, mas também pela contribuição positiva quanto aos aspectos e práticas humanos, solidários e de reinserção social. Na Alemanha, as federações do comércio e da indústria apoiaram com cerca de 1 milhão de euros os programas das narcossalas.

---Wálter Fanganiello Maierovitch--


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