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FARC sem saída. Mono Jojoy e Alfonso Cano em confronto interno

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 16 de agosto de 2010.


Mono Jojoy.



1. Depois da morte de Manuel Marulanda, apelidado Tirofijo (tiro certeito), as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) mergulharam numa luta intestina em busca de um novo líder.



A morte de Marulanda foi anunciada em 26 de maio de 2008 por Timoleón Jimenez, então secretário do chamado “estado-maior da guerrilha”.



Enquanto viveu Raúl Reyes, a luta interna não havia provocado grande debandada e nem um pleno rompimento das Frentes com as ordens emanadas do comando central.



Com a morte de Reyes, dinamitado em acampamento na selva equatoriana em 26 de maio de 2009, as Farc perderam o que restava de unidade.



Hoje, o antropólogo Alfonso Cano apresenta-se como líder e sucessor de Marulanda. Um vídeo divulgado esta semana mostra Cano a dizer da sua disposição em dialogar com o novo presidente colombiano. Em oposição, está Mano Jojoy, o “ministro do Exército” das Farc.



O vídeo de Cano, para alguns especialistas, acabou por causar o ataque de quinta-feira passada, perpetrado por contrários à abertura de um diálogo com as FARC. O certo é que até agora não foram identificados os responsáveis pela explosão, ou seja, os direitistas uribenhos, com antigos paramilitares por trás, ou Jojoy, da linha de frente das Farc.



A ala militar, sob comando de Mono Jojoy, não acata as ordens de Cano. Em síntese, a linha de frente do movimento eversivo atua como lhe convém, inclusive financiando-se com capital proveniente da cocaína. Tudo em face de acordo celebrado com os chefes de uma miríade de cartelitos que infestam a Colômbia: os cartelitos substituíram o antigo sistema de grandes cartéis e os traficantes-chefes não se expõem publicamente.



De todo modo, a explosão de quinta-feira serviu como aviso ao presidente Santos, recém-empossado. Aviso contrário à abertura de um processo de paz com as Farc.



2. As Farc foram fundadas em 20 de julho 1964.



O seu primeiro comandante foi Jacobo Arenas. Sobre o início do movimento, Jacobo Arenas deixou escrito: “Combatíamos, comíamos, dormíamos, cantávamos e recitávamos peças teatrais. Éramos muito felizes”.



Jacobo Arenas morreu de infarto em 1990, aos 72 anos. O substituto escolhido foi Manuel Marulanda, também fundador das Farc.



Na Colômbia pós-Marulanda, as Farc perderam apoio popular. Menos de 1% da população simpatiza com o movimento que conta com cerca de 9 mil homens, ou seja, uma redução do efetivo em quase 50%.



3. O presidente Santos, que contou para se eleger com o apoio do controvertido Álvaro Uribe, parece não querer atrito com os vizinhos sul-americanos. Ele deseja continuar com a recuperação econômica: a projeção para crescimento do PIB é de 6%, a inflação foi debelada e os investimentos estrangeiros crescem, em especial no setor petrolífero.



Os presidentes Chávez (Venezuela), Correa (Equador) e Morales (Bolívia) perceberam não dar aprovação internacional o apoio às FARC, metidas com o narcotráfico e à desumana política de imposição de anos de cativeiro às pessoas sequestradas. Daí, esses presidentes já falarem em fim das Farc, anistia (igual a realizada com os paramilitares) e volta à legalidade, como partido político.



Alfonso Cano.



4. Esse novo cenário parece não ter sido percebido no Brasil.



Pior, para fins eleitoreiros e de forma distorcida, as Farc entraram na agenda política. O terror, também. Por exemplo, a revista Época, desta semana, em matéria requentada e com Dilma na capa, mostra a candidata como terrorista, apesar de a mesma desmentir ter participado da luta armada contra a ditadura militar.



5. Na campanha eleitoral em curso, o candidato tucano José Serra volta, como em 2002, a tentar colar no Partido dos Trabalhadores (PT) e, por tabela, em Lula e na concorrente Dilma, a imagem de apoiadores das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc). Serra ignora a história da Colômbia, país onde a violência tornou-se endêmica desde a morte por tuberculose do frustrado Simón Bolívar, em dezembro de 1829.



O ex-governador de São Paulo faz tábula rasa do longo arco temporal em que as Farc eram uma organização insurgente, nascida em 20 de junho de 1964 e diante de uma heroica resistência campesina ao plano genocida elaborado pelos EUA e chamado Latin American Security Operation. Esse plano competiu ao exército colombiano, com assessoria norte-americana. Algo muito comum na historiografia da Colômbia: para matar Pablo Escobar, os americanos treinaram policiais colombianos e os direcionaram, com recursos tecnológicos made in USA, até o esconderijo do narcotraficante. A matança ficou por conta da mão do gato, no caso, os soldados colombianos.



A Serra, nesta campanha presidencial, só interessa as Farc da dupla Álvaro Uribe e George W. Bush. Com o Plano Colômbia (iniciado no governo Bill Clinton) e a morte de Manuel Marulanda, apelidado de Tirofijo, houve, como já frisado acima, a quebra de unidade de comando nas Farc, perda de disciplina nas frentes e luta pela sucessão.



Deu-se o conflito entre as alas lideradas pelo antropólogo Alfonso Cano e pelo combatente Mono Jojoy, uma espécie de general de campo e promotor da busca de recursos financeiros sujos, isto é, provenientes do tráfico de cocaína operado por uma miríade de cartelitos, que substituíram os grandes cartéis dos tempos de Escobar, de Gacha, dos Ochoa e dos irmãos Orejuela.



Antes do Plano Colômbia, conforme revelado pela Central Intelligence Agency (CIA), as fontes de arrecadação das Farc, por ordem de importância, eram as seguintes: sequestro de pessoas para fim de extorsão, abigeato (furto de gado), “taxa” de proteção aos produtores de café e milho e arrecadação de “imposto de circulação” gerado pela venda de folha de coca nos mercados. Hoje, segundo divulgam os 007 da Drug Enforcement Administration (DEA), as Farc arrecadam 1% do movimento financeiro operado pelo tráfico internacional de cocaína. Como fazem esse cálculo, só a unidade de propaganda imperialista e anti-Farc saberia informar.



Certa vez, Andrés Pastrana, já sequestrado pelas Farc e antecessor de Uribe, reclamou, em pronunciamento como presidente recém-eleito, como o seu país era objeto de análises equivocadas no exterior: “A Colômbia padece de duas guerras nitidamente diferentes. Aquela do narcotráfico contra o país e o mundo. E aquela da guerrilha contra um modelo econômico, social e político, que é injusto, corrupto e gerador de privilégios”.



Com relação ao narcotráfico, Pastrana não se referia às Farc, com as quais procurou negociar um plano de paz e estabeleceu zonas desmilitarizadas. Apesar das críticas do governo Clinton, pela voz do general Barry MacCafrey, czar das drogas da Casa Branca e autor do Plano Colômbia, o conservador presidente Pastrana, filho do ex-presidente Misael, precisava conquistar confiança como negociador. Numa Colômbia que, em 1953, atraiu guerrilheiros de esquerda para o chamado pacto de “Paz, Justiça e Liberdade” e, às ordens do general Gustavo Rojas Pinilla, acabou por fuzilar, em três meses, 10 mil dos que haviam deposto as armas.



Pastrana, ao mencionar o narcotráfico, referia-se ao escândalo do seu antecessor, Ernesto Samper Pizano, que recebeu dinheiro dos cartéis de cocaína para a campanha presidencial, e à força adquirida por essas organizações criminosas durante a presidência de César Gaviria Trujillo (hoje associado a Fernando Henrique num projeto de legalização de todas as drogas proibidas pela Convenção das Nações Unidas). Nesse período, até Pablo Escobar se elegeu deputado.



Tendo em vista a trajetória da família Uribe, com laços estreitos com o narcotráfico, e como bem definiu, em 1881, o embaixador argentino na Colômbia, “este é um país onde matar um opositor ideológico não é considerado verdadeiro crime comum, e sim apenas o desenvolvimento natural de uma tática política”.



A origem remota das Farc não escapou à pena brilhante de Gabriel García Márquez. Na obra Cem Anos de Solidão ele descreve a chacina, em 1928, de Ciénaga, de responsabilidade da estadunidense United Fruit. Os bananeiros da zona de Santa Marta se negaram a carregar os trens parados na estação ferroviária de Ciénaga, destinados a levar bananas para Nova Orleans. Os trabalhadores exigiam repouso semanal, melhores condições sanitárias, pagamento do salário em dinheiro, em vez de vales só aceitos em comércios da United Fruit. O exército foi acionado pela companhia americana e, antes do término do prazo para o carregamento dos vagões, abriu fogo e matou uma centena de bananeiros. Após isso, a United Fruit passou a se chamar Frutera de Sevilla e, em 1980, Chiquita Banana, Del Monte e Dole.



À tragédia de Ciénaga reagiu Jorge Eliécer Gaitán, líder da União Nacional da Esquerda Revolucionária (Unir). Gaitán tornou-se o candidato à Presidência, nas eleições de 1950. Era candidato imbatível, com maciço apoio popular. Acabou assassinado em 9 de abril de 1948, num complô armado pela CIA, que temia a expansão comunista, apesar de Gaitán nunca ter sido comunista e de ter até se transferido para o Partido Liberal.



Efetivamente, a violência colombiana é endêmica. No século XIX, por exemplo, a Colômbia republicana enfrentou duas guerras com o Equador, oito guerras civis internas de amplitude nacional e 14 guerras civis regionais. Os partidos, Conservador e Liberal, desde 1848 monopolizaram a vida política com programas diferentes, mas em permanente união na defesa do latifúndio, das elites, dos paramilitares e contra a formação de sindicatos.



Os conservadores tinham por lema “Deus, pátria e família”. Os liberais, aparentemente progressistas, proclamavam a fórmula francesa da igualdade, liberdade e fraternidade. A forte Igreja Católica colombiana pendeu para os conservadores e fechava os olhos à exploração do trabalho. Gaitán foi a renovação liberal e o denominado “gaitanismo” lograva unir os pobres nas cidades e nos campos. Depois do assassinato de Gaitán, começaram as grandes resistências camponesas e o nascimento das Farc.



Uribe é desde sempre um governante empenhado na manutenção a qualquer custo do status quo. Quando governador de Antioquia, Uribe inventou o Conviver, uma segurança privada que promoveu o extermínio dos opositores. No fim do seu mandato, Antioquia já estava, com o aval de Uribe, sob controle dos paramilitares das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Durante anos, os grandes cartéis de cocaína, com Gonzalo Rodríguez Gacha à frente, financiaram os paramilitares contra as Farc. Gacha foi considerado pela revista Forbes, no fim dos anos 80, o homem mais rico do mundo, bem à frente de Escobar.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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