São Paulo,  
Busca:   

 

 

Agora

 

Cinzas, a morte de Borsellino. Máfia e nova Loja Maçônica P2.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF,20 de julho de 2010.
Falcone e Borsellino


1. Em Palermo, ontem, centenas de pessoas saíram em caminhada para homenagear o juiz Paolo Borsellino e recordar a tragédia de via D´Amelio, ocorrida há 18 anos.



Da caminhada participou o presidente da Câmara dos Deputados da República italiana, Gianfranco Fini.



Fini é hoje um dos opositores ao primeiro-ministro Silvio Berlusconi.



Ambos, no entanto, pertencem ao mesmo partido político, legendado PdL (Popolo della Libertà).

Fini, por exemplo, resiste à tentativa de Berlusconi em aprovar a “Lei da Mordaça”, que proíbe a veiculação, pela imprensa, de fatos criminais antes de decisão condenatória com trânsito em julgado.



Caso já estivesse em vigor a Lei da Mordaça, a imprensa não poderia divulgar o mais recente escândalo italiano. Ou seja, nenhuma linha sobre a formação de uma nova Loja Maçônica P2, voltada a condicionar as decisões das instituições, incluída a magistratura.



Hoje, e por participação na P2 (também chamada de P3), espera-se o indiciamento, e até prisões, de líderes políticos, de um ex-presidente da Suprema Corte de Cassação italiana e do presidente da Corte de Justiça de Milão, afastado preventivamente das funções.



2. Quando presidia a extinta Aliança Nacional (neofascista), Fini lançou Borsellino (de ideologia direitista) como candidato à Presidência da República. Na verdade, um anticandidato, sem nenhuma condição de vencer.



Tratava-se, como dizia Fini com acerto, de um candidato sem vinculação ao mundo político, incorruptível e corresponsável pelos resultados vitoriosos obtidos pelo pool antimáfia. Por exemplo, prisões de importantes chefes mafiosos, pela primeira vez nas histórias da Justiça italiana e de uma organização criminosa, Cosa Nostra (Máfia), com mais de 200 anos de idade.



Na concentração que antecedeu a caminhada, os participantes vaiaram Fini: a passeata começou na via D'Amelio e terminou na chamada Árvore Falcone. Um fícus a simbolizar a resistência à Máfia. Está plantada num canteiro do prédio de apartamentos onde morava o juiz Giovanni Falcone e sua mulher Francesca Morvillo, ambos dinamitados, com três homens de escolta.



Quando da morte de Falcone, cidadãos palermitanos deixaram mensagens na árvore, logo apelidada de “Albero Falcone”.



Fini manteve-se firme durante os apupos. Logo depois, respondeu às perguntas formuladas pelos que o vaiavam. No final, acabou aplaudido. Isto depois de concluir que não só a Máfia havia matado os juízes Falcone (23/5/1992) e Borsellino (19/7/1992), num intervalo de 57 dias.



Essa conclusão de Fini vem no momento em que uma Corte de Justiça italiana acaba de decidir que Roberto Calvi não se suicidou, mas foi assassinado.



Calvi presidia e quebrou o vaticano Banco Ambrosiano, que lavava dinheiro sujo. Era, com o cardeal Paul Marcincus e Michele Sindona, apelidado de “banqueiro de Deus”. Foi uma das peças-chave no escândalo da Loja Maçônica P2. O corpo de Calvi foi encontrado pendurado numa ponte em Londres, como se tivesse se enforcado. Com efeito, ligações de organizações secretas com a Máfia não aconteceram apenas na Sicília, terra da Máfia e da Antimáfia.



Para o procurador nacional antimáfia, Piero Grasso, havia, associada à Máfia, uma “entidade” com membros ainda não identificados. Essa entidade, por exemplo, escolheu os locais de explosões de bombas em Florença, Milão e Roma. Eram lugares de importância histórica e cultural.



A propósito, o ex-premiê Walter Veltrone, em 12 de julho passado, observou que uma mente tosca como a de Riina seria incapaz de determinar a explosão de uma bomba nas proximidades da célebre e fiorentina Galeria degli Uffizi, uma das mais importantes da Europa, pelo seu acervo,



3. Mais ainda, Fini respondeu que Vittorio Mangano não era um herói, como o considerou o senador siciliano Marcello Dell'Utri, condenado neste mês de julho, em sede de apelação, a 9 anos de reclusão por ter se associado à Máfia.



Mangano, chefe mafioso e traficante internacional de drogas ilícitas, acabou contratado por Berlusconi, apesar das condenações com trânsito em julgado, para estaleiro na sua cinematográfica Villa Arcore, em Milão. Segundo uma corrente de estudiosos do fenômeno mafioso, a contratação de Mangano foi imposto pela Máfia, num acordo com Dell'Utri. A Máfia sentia necessidade de fiscalizar Berlusconi.



Para o senador Dell'Utri, o falso “estaleiro” Mangano era um herói. Isto por não se transformar num colaborador de Justiça e, como tal, lançado, como tantos, inverdades a seu respeito. Mangano, isso é certo, revelou-se um autêntico mafioso ao seguir a lei do silêncio, a omertà.



Segundo o referido presidente da Câmara dos Deputados, Mangano “não pode ser um herói. Ele era um cidadão italiano condenado por associação à Máfia em sentença definitiva. Os heróis são aquele que se sacrificam pelo Estado”.



Fini, de mão dada com o pequeno neto de Borsellino (leva o nome do avô), acendeu a primeira tocha para homenagear Borsellino.



Os jovens que participaram do cortejo carregavam faixas e vestiam uma camiseta com os dizeres: “Borsellino, herói nacional”. Entre eles, a respeitável Rita Borsellino, irmã do magistrado dinamitado.



4. O encontro, seguido de caminhada para homenagear Borsellino, começou com a leitura da carta enviada pelo presidente da República, Giorgio Napolitano, à viúva de Borsellino: “Plena luz sobre a estação de tragédias que, no início dos anos 90, comoveu a Itália”.



Napolitano referia-se aos processos pelas mortes de Borsellino e Falcone, reabertos pela Justiça da cidade de Caltanissetta, diante de fatos novos (a respeito, confira-se post abaixo, de 18 de julho). Napolitano, na carta à viúva Agnese, fala, também, no dever das instituições de responder ao apelo dos cidadãos, “pela verdade e Justiça”.



5. De Milão e da sua cela no presídio Opera, o sanguinário Totò Riina, chefe dos chefes da Cosa Nostra à época das tragédias, autorizou, há pouco, o seu advogado a dizer, em coletiva à imprensa, que ele não havia assassinado Borsellino e que os responsáveis eram outros. Sobre esses outros, Riina nada fala. Aliás, silencia sempre e nega tudo, até a existência da Máfia.



6. Um pouco de cinzas. No dia 19 de julho de 1992 uma carga de dinamite, colocada num veículo furtado e ativada a distância, mandou para os ares o juiz antimáfia Paolo Borsellino e os cinco agentes da sua escolta.



Os danos materiais foram vultosos em todo o quarteirão. A megaexplosão aconteceu no momento que Borsellino acionou o interfone instalado no portão de entrada de um prédio de apartamentos onde morava a sua mãe, que pretendia visitar.



Um incêndio seguiu-se à explosão. Então, agiu, com sucesso, uma pessoa que estava destacada para cumprir a tarefa de abrir o carro oficial que servia ao magistrado e subtrair a sua “agenda de capa vermelha”, guardada na pasta de trabalho.



Na “agenda vermelha”, Borsellino registrava as correlações entre mafiosos, 007 do serviço secreto do Estado italiano e políticos. Ele elaborou uma lista dos suspeitos de terem executado, 57 dias antes, o juiz Giovanni Falcone.

Wálter Fanganiello Maierovitch


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet