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Pedofilia e Igreja. Busca e Apreensão em dossiês em sede da Conferência dos Bispos, catedral e cripta.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 28 de junho de 2010.

Ratzinger e Bertone.


Do Estado do Vaticano, para IBGF


1. Em tempo de Copa do Mundo, um outro embate chama a atenção. Até pelas caneladas. Trata-se do choque, em pleno desenvolvimento, entre a Santa Sé e a Justiça da Bélgica.



O “pega”, como noticiado por Terra Magazine (confira post abaixo, de 24 de junho), começou quando magistrados e policiais, informados sobre documentos escamoteados da Justiça a respeito de abusos sexuais com menores por parte de padres da Igreja católica na Bélgica, realizaram diligências de busca e de apreensão de documentos na (1) sede da Conferência dos Bispos da Bélgica; (2) na catedral de Mailes (25 km de distância da capital Bruxelas) e (3) na tumba do venerado cardeal Mercier, um dos precursores do ecumenismo, em país nascido no ano de 1830 e graças a um acordo entre católicos e liberais.



Os policiais e magistrados apreenderam cerca de 475 dossiês (não se sabe se todos correlacionados à pedofilia), computadores, celulares e agendas dos bispos que, quando das diligências judiciais, estavam reunidos em sessão plenária.



2. Na Bélgica, antes das apreensões, o clima já estava tenso. Isto desde que o bispo da cidade de Burges, o cardeal Roger Vangheluwe, de 73 anos, confessara haver abusado sexualmente de um jovem durante dois anos.



O desfrutamento sexual do jovem continuou depois de Vangheluwe ter sido elevado ao cardinalato de Burges. Mais ainda, por toda a Bélgica sabia-se que o clérigo André-Joseph Léonard, presidente da Conferência Episcopal da Bélgica, abafara apurações sobre padres pedófilos no país.



3. Ontem, o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone (com antecedente de haver atrasado e opinado contra a punição de um clérigo pedófilo quando, no antigo Santo Ofício, era o segundo na hierarquia comandada por Ratzinger, atual papa), aproveitou, quando estava num seminário na Universidade de Lunsa, para falar em “sequestro de bispos, sem água e comida, como nos regimes comunistas”.



De passagem, Bertone falou, também, da necessidade de mudanças na desclassificada seleção italiana de futebol. Paralelamente, o Ministério de Relações Exteriores do Vaticano convocou o embaixador da Bélgica, que lamentou o ocorrido.



4. Hoje, na parte da manhã, esperava-se uma nota oficial do papa Bento XVI. Ou melhor, algo formal. A pressão dos fundamentalistas católicos era forte, sempre na linha da paranóia, ou seja, de "um gigantesco processo de desmoralização da Igreja”.



Os jornalistas que hoje rondaram a secretaria de Estado e procuraram contato com o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, saíram apenas com uma cópia da carta de solidariedade enviada pelo papa Ratzinger ao núncio apostólico da Bélgica, Giacinto Berloco.



Na carta, o papa Ratzinger usa, para definir as ações, os termos “deploráveis e surpreendentes”.



Tudo muito estudado. Nada a caracterizar a abertura de um conflito diplomático que leve a uma ruptura com o Estado laico belga. Assim, o papa Bento XVI não mandou expedir nota formal nem chamou o núncio apostólico para consultas.



5. Na verdade, não se pode concluir que apenas a Justiça belga cometeu abusos (e os cometeu, no episódio em tela e ao tratar a Igreja como uma organização criminosa). Afinal, durante anos a Igreja encobriu escândalos e não puniu os clérigos envolvidos em pedofilia e outros abusos sexuais.



O papa Ratzinger, com a carta, voltou a falar em colaboração com a Justiça na apuração de crimes. Assim, confirmou o papa Bento XVI, depois de vacilações e recebimento de equivocados discursos centrados em tentativas de desmoralização da Igreja, a linha da tolerância zero com os clérigos criminosos.



Sem prejuízo do discurso papal, o premiê belga (católico e que está de saída) e o porta-voz da Magistratura deixaram claro o exagero do cardeal Bertone, que já confirma a fama de trapalhão.



Não houve sequestro de bispos e, durante as diligências, puderam se alimentar, beber água e receberam tratamento digno, disse em tom irado o porta-voz da Magistratura.



6. Vários advogados a serviço da Santa Sé foram contatados, consoante noticiam os jornais La Repubblica (maior em circulação) e Corriere della Sera (segundo em tiragem). Eles estudam eventuais ações por danos materiais: documentos apreendidos referem-se à folha de pagamento de servidores da diocese, que deixaram de receber salários. Também, ações por danos morais, por lesão à imagem da Igreja.



Comenta-se, até, que os dossiês eram secretos, pois vítimas denunciantes pediam apenas apurações internas e não revelação dos seus nomes.



Só falta o papa Ratzinger, chefe de uma Igreja abalada por escândalos e condenações de clérigos pedófilos em várias partes do mundo, embarcar nas propostas dos advogados contatados a mando do cardel Bertone, secretário de Estado.

Wálter Fanganiello Maierovitch



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Retrospectiva.



24/06/2010.

De Palermo (Itália), para IBGF.


Hoje, os jornais europeus destacaram a atuação do Ministério Público da Bélgica. Alguns dos seus membros saíram em busca de documentos sobre abusos sexuais de clérigos na sede da arquidiocese de Malines, distante 25 km da capital Bruxelas.



A medida veio na esteira (1) do escândalo provocado pelo bispo da cidade de Burges, Roger Vangheluwe, 73 anos, que confessou ter abusado de um rapaz durante anos e (2) da acusação de que o cardeal Andrè Joseph Léonard, presidente da Conferência Episcopal da Bélgica, abafou apurações sobre padres pedófilos na Bélgica.



O porta-voz da chefia do Ministério Público belga, Jean-Marc Meilleur, revelou que membros da instituição foram verificar in loco a existência de dossiê escondido pela arquidiocese de Malines. O porta-voz contou que “por meio de um dossiê, a Procuradoria-geral (chefia do Ministério Público) tomou conhecimento de envolvimento padres em abusos sexuais contra crianças”.



Para o jornal belga De Standaard, “a Procuradoria belga quer examinar se existe na arquidiocese de Malines algum dossiê não enviado à comissão Adriaenssens, que leva o nome do docente da Universidade de Lovanio que a preside.



PANO RÁPIDO. Depois de vacilações, o papa Bento XVI, que se desculpou em diversas oportunidades, adotou a linha da tolerância zero com relação a clérigos católicos envolvidos em pedofilia. E o papa Ratzinger ordenou que todos os membros da Igreja colaborem nas investigações conduzidas pelas polícias.



Como se percebe, depois dos escândalos na Irlanda, Alemanha, Noruega, EUA e Áustria, a bola da vez é a Bélgica.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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