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Escândalo Vaticano. Arcebispo acusado de corrupção. Lavanderia vaticana.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 22 de junho de 2010.
Propaganda Fide, em Roma.





1. Com exclusividade, informamos neste espaço, no mês de maio e em vários posts, que uma nova Operação Mãos Limpas estava em curso na Itália e as falcatruas atravessaram o rio Tevere e chegaram ao Vaticano.



Na ocasião, dois prelados se destacaram, ou seja, dom Evaldo Biasini, de 83 anos, da Congregatio Missionariorum Pretiotissimi Sanguinis, e o prelado Francesco Camaldo, cerimoliatista encarregado, dentre outras atribuições relevantes, de colocar o solidéu na cabeça do papa Ratzinger.



Dom Biasini confessou lavar dinheiro para o construtor Diego Anemone. Para isso, usava o caixa da Congregação como Caixa 2 de Anemone.



No Caixa 2 da Congregação dom Biasini ocultava 1milhão de euros.



Parte desse dinheiro ocultado e sem origem lícita, 900 mil euros, foi usado para dar de presente um valioso apartamento, com vista para o Coliseu, ao então ministro do Desenvolvimento Econômico, Cláudio Scajola.



Camaldo, por seu turno, fazia a ponte de Angelo Balducci — sócio do construtor Anemone, ex-presidente do Conselho Superior de Obras Públicas do governo italiano e consultor da centenária Propaganda Fé ( atual Congregação para a Evangelizaçãodos Povos) — com o Vaticano e o seu Banco (IOR — Istituto per Le Opere di Religione).



2. Os dois outros e novos filões investigativos conduzidos pela magistratura do Ministério Público toparam com o cardeal Crescenzio Sepe, ex-presidente da Congregação para a Evangelização dos Povos e, desde maio de 2006, arcebispo de Nápoles.



O cardeal Sepe, acusado pelo Ministério Público de Florença, seria parte de um esquema que subtraiu dos cofre italianos milhões de euros.



Pelo esquema, o ministro da Infraestrutura da Itália, Pietro Lunardi, recebeu um valioso imóvel em Via dei Prefetti, pertencente à Propaganda Fide.



O referido imóvel foi comprado pelo ministro Lunardi por 3 milhões de euros, quando valia entre 9 e 11 milhões de euros.



Depois da compra, Lunardi, como ministro, determinou a reforma do majestoso e histórico palácio “seicentesco” da Propaganda Fide (obra do magistral Gianlorenzo Bernini, concluída em 1664 pelo festejado Francesco Borromini. Pela UNESCO, a obra é considerada patrimonio da humanidade), localizado na badaladíssima praça de Espanha.



A diferença entre o valor dispendido pelo governo italiano e o custo da inacabada obra (em espaço considerado extraterritorial) de reforma foi de 5 milhões de euros. Com efeito e segundo os magistrados italianos, parte da diferença embolsada por Lunardi serviu para a compra do imóvel da Via dei Prefetti.



No imóvel da Via dei Prefetti, Lunardi instalou as duas empresas familiares, de razão social Stone e Rocksail.



O cardeal Sepe, sempre quando estava à frente da Propaganda Fide, acertou um segundo bom negócio para o Vaticano, mas ruinoso para o Estado italiano: 2,5 milhões de euros para as reformas, internas e externas (pela lei italiana, o Estado só pode investir em obras externas pertencentes a organizações vaticanas e localizadas nas cidades italianas) nos prédios da Universidade Gregoriana (palácios Lucchesi e Frascara).



De se acrescentar que as reformas supracitadas ficaram a cargo da construtora de Anemone, que tem Balducci (encontra-se preso preventivamente) como sócio.



Outro na “dança” é Guido Bertolaso, responsável pelas obras públicas no governo Berlusconi e suspeito de receber favores de Anemone, que, surpreendentemente, logrou ganhar licitações bilionárias em 2009. Isto para as obras do G-8 (ilha de Madalena), do mundial de Natação (Roma) e das comemorativas aos 150 anos da Unificação da Itália.



3. O cardeal Sepe nega irregularidades, enquanto os magistrados dizem em “dinheiro suspeito a Sepe, sem causa legal”.



Sepe é um cardeal napolitano e populista. Goza de muito prestígio em Nápoles. No Facebook, pós-escândalo, recebeu cerca de 500 mil mensagens de solidariedade.



O papa Ratzinger falou em transparência e pediu para que as pessoas e autoridades laicas não confundam a responsabilidade da Igreja com eventual responsabilidade individual de prelados por crimes.



Enquanto o Observatório Romano e a Rádio Vaticano silenciam, os marqueteiros vaticanos fazem correr a notícia de Sepe ter sido promovido e nomeado para a Propaganda Fide pelo papa João Paulo II.



Ratzinger foi quem substituiu Sepe pelo cardeal Ivan Dias indiano.



Mais ainda, para colocar uma pá de cal nos escândalos no Banco Vaticano desde a era Marcinkus, Calvi e Sindona, o papa Bento XVI colocou na direção do IOR, em 23 de setembro de 2009, Ettore Gotti Tedeschi. Este adotou todas as normas contra lavagem de dinheiro estabelecidas pela União Europeia.



4. Quanto ao rápido atendimento das cartas rogatórias enviadas pela Justiça italiana e voltadas a indagar sobre movimentações no Banco Vaticano de investigados, o juiz único do tribunal da Santa Sé, Piero Antonio Bonnet, disse que o atendimento será demorado.



Para Bonnet, existe uma burocracia na tramitação, pois estão envolvidos Itália e Vaticano, dois estados independentes. Esclareceu, também, que terá de verificar a competência, ou melhor, se a questão diz respeito ao Estado do Vaticano ou à Igreja.



Como se nota, a promessa do papa Ratzinger de transparência e rápidos esclarecimentos poderá não ser cumprida, diante de entraves burocráticos.

Wálter Fanganiello Maierovitch. Retrospectiva:


Ratzinger e Camaldo.



LAVANDERIA VATICANA.


25/05/2010.

Wálter Maierovitch para revista CARTA CAPITAL.


Certa vez, em encontro internacional sobre repressão à lavagem de dinheiro sujo, chegou-se à conclusão de que o sucesso de uma operação criminosa dependia muito da criatividade do fautor, ou seja, do lavador. No Brasil, já tivemos ações ousadas. De bilhetes premiados comprados por deputado à tentativa de o Timão virar lavanderia gerida por testa de ferro iraniano de oligarca russo.



A meta da burguesia criminal que precisa lavar e reciclar capitais sujos é, caso sejam usados os canais legais do sistema financeiro, embaralhar os rastros deixados pela circulação de capitais em redes telemáticas do tipo Swift, esta criada em 1973 pelas 250 maiores instituições financeiras.



Em breve, o papa Joseph Ratzinger terá novo dissabor com a chegada, no Estado do Vaticano, de uma carta rogatória com indagações feitas pela magistratura do Ministério Público de Perúgia sobre lavagem de dinheiro sujo por meio de instituições religiosas e de movimentações em contas correntes no Banco do Vaticano. O Istituto per Le Opere Religione (IOR) nasceu após o escândalo do Banco Ambrosiano, no qual pontificaram os falecidos Roberto Calvi e Michelle Sindona, apelidados de banqueiros de Deus e da Máfia.



Na mira dos magistrados de Perúgia estão a Congregazione Missionari del Preziosissimo Sangue di Gesù e a Propaganda Fide, esta fundada em 1622 para cuidar da evangelização dos povos. A Propaganda Fide detém um patrimônio imobiliário no centro histórico de Roma avaliado em 9 bilhões de euros.



Da rogatória poderão constar também pedidos de quebras de segredos bancários dos monsenhores Francesco Camaldo e Evaldo Biasini, respectivamente, com 60 e 83 anos. Os magistrados investigam concessões de obras e serviços públicos a favorecer uma cricca (bando) comandada pelo construtor Diego Anemone e pelo engenheiro Angelo Balducci, correntista do IOR, membro leigo da Propaganda Fide e ex-presidente do Conselho Superior de Obras Públicas da Itália. Segundo as investigações, a Construtora Anemone restaurou imóveis da Propaganda Fide, além de reformas de igrejas.



Ratzinger e Biasini.



Em troca de favores, a construtora, por prestanomes, oferecia apartamentos de luxo, promovia reformas estruturais e decorativas. Os beneficiários seriam políticos, prelados e altos funcionários públicos, como, por exemplo, o general Francesco Pitorru, carabineiro lotado no serviço secreto, que levou dois apartamentos, e Ercole Incalca, homem forte do Ministério da Infraestrutura. Favores sexuais também eram prestados na Salaria Sport Village, centro de relaxamento pertencente a Anemone, com duas brasileiras no quadro de empregados: Monica da Silva Medeiros, fisioterapeuta, e a promoter Regina Profeta.



O monsenhor Camaldo goza de prestígio na alta sociedade italiana, tem blog, Facebook e recita orações no YouTube. Em função religiosa é ele quem coloca o solidéu na cabeça de Ratzinger, estica-lhe os paramentos e segura o microfone. Como escriturário, participa do secreto conclave de eleição do papa e elabora a ata.



Para Laid Hidri Fathi, motorista do construtor, Camaldo abriu as portas do Vaticano para a dupla Anemone e Balducci. Sem saber que estava na mira das investigações, o monsenhor, quando da prisão preventiva de Balducci, deu declarações à imprensa: “É uma pessoa de absoluta transparência moral, conhecida e estimada no Vaticano”.



O monsenhor Biasini, responsável pela direção financeira da Congregazione Missionari del Preziosissimo Sangue di Gesù, fez dela, como confessou, um caixa 2 da construtora de Anemone. Por meio de um esquema de corrupção, a construtora foi contemplada com as obras públicas destinadas aos encontros do G-8 na ilha de Maddalena, na Sardenha, em 2009, ao Mundial de Natação, em Roma, também em 2009, e às futuras comemorações dos 150 anos de Unificação da Itália, em 2011.



Anemone desembolsou 900 mil euros para completar a compra de um luxuoso apartamento, com vista para o Coliseu. Os 900 mil euros saíram do caixa 2 gerenciado pelo monsenhor Biasini. O contemplado foi o ministro Claudio Scajola, da pasta de Obras Públicas, que só pagou uma parte do preço final estabelecido em 1,7 milhão de euros.



O apartamento pertencia às irmãs Beatrice e Barbara Papa, que provaram ter recebido à vista o 1,7 milhão de euros. A escritura de compra e venda foi passada em nome de Scajola, por um valor inferior a 660 mil euros. O arquiteto Angelo Zampolini, da gangue de Anemone, fez a entrega de 80 cheques distintos às vendedoras, no total de 900 mil euros. Ou seja, para despistar, Zampolini trocou no Deutsche Bank os 900 mil euros tirados do caixa 2 do monsenhor Biasini por 80 cheques ao portador.



Pano Rápido. Ratzinger deve estar a sentir odor de dinheiro sujo entre as muralhas do Vaticano. Não se sabe se o sentiu no domingo, quando convocou-se, na Praça São Pedro, um encontro de fiéis em sua solidariedade, em face da suspeita de acobertamento de casos de pedofilia. Mais de 200 mil fiéis lotaram a praça. Camaldo não foi visto.

WFM.


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