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Encontro Obama e Abu Mazen. Retórica e guloseimas para os palestinos.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 10 de junhode 2010.

Obama e Abu Mazen, segundo encontro desde a posse.


–1. O presidente Barack Obama teve ontem, e desde que tomou posse, o segundo encontro com Abu Mazen, presidente palestino.



Obama não perdeu a oportunidade para soltar uma frase de efeito: - “Devemos transformar uma tragédia em ocasião para melhorar a vida de quem vive na Palestina”.



Não se sabe bem se Obama fazia referência ao episódio de 31 de maio passado (nove mortos na embarcação Mavi Marmara) ou à desproporcional reação de Israel aos ataques palestinos, com foguetes de curto alcance, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009.



Nessa reação de Israel, 4.000 casas foram destruídas e 1.400 palestinos mortos, a grande maioria composta por civis.



Além da frase de efeito supracitada, Obama abriu os cofres e entregará US$400 milhões para emprego na faixa de Gaza.



–2. Como num jogo de cartas marcadas, Israel, depois da reprovação internacional pelo gracioso e sangrento ataque de 31 de maio último, anunciou que não serão mais bloqueados batatinhas fritas, biscoitos, marmeladas, sucos de fruta e refrigerantes, para os 1,5 milhões de palestinos que habitam na blindada faixa de Gaza.



Em outras palavras, guloseimas e bebidas poderão entrar na faixa de Gaza.



–3. Primeiro ponto de dúvida.



Os US$400 milhões serão repassados e administrados pelo governo de Abu Mazen?



É sabido que é o Hamas, — que quer a destruição de Israel–, tem o governo absoluto na faixa de Gaza, desde junho de 2007.



A Fatah do presidente Mazen foi expulsa da faixa de Gaza pelos líderes e agentes do Hamas.



Não se deve esquecer que, desde Yasser Arafat (morto em novembro de 2004), a Autoridade Palestina tem um histórico de corrupção institucionalizada. Algo bem semelhante ao que ocorre no Afeganistão, onde os EUA alimentam o corrupto governo do presidente Hamid Karzai.



–4. Segundo ponto de dúvida.



Os palestinos da faixa de Gaza necessitam de matérias de construção, cujo ingresso é proibido em face do bloqueio de Israel. Haverá liberação ?



O material é necessário para se reerguer as quatro mil casas destruídas pelos bombardeamentos israelenses. Também para gerar empregos no campo da construção civil: a desocupação na faixa de Gaza alcançou o patamar de 42% entre a população ativa.



A essa altura, liberar “batatinhas” soa piada de mal gosto, ou melhor, insensibilidade. Em resumo, os palestinos de Gaza só podem importar bens permitidos pela lista de Israel. E não podem exportar nada. Bloquear armas, admite-se e é legítimo em face de um vizinho belicoso e quer a destruição de Israel. Mas, bloquear produtos outros, sem destinação bélica, catacteriza imposição de sanção ilegítima.



Por evidente, os 400 milhões de dólares jamais chegaram ao Hamas, que, frise-se, quer a destruição de Israel e, para tanto, é financiado pelo Irã e a Síria.



Nas mãos do presidente Mazen, um líder moderado que não governa e nem ingressa na faixa de Gaza, o dinheiro ofertado pelos EUA dificilmente chegará ao destino determinado pelo doador.



–5. No encontro com Obama, o presidente Mazen, que condenou os ataques de 31 de maio, deixou um recado para os países árabes moderados, aqueles com preocupação pela crescente influência persa (Irã) e xiita sobre o Hamas: - “ O que nós palestinos temos de desejo no coração é de viver em coexistência com Israel”.



–6. Fora a retórica, a grana sem destino e a liberação de guloseimas, o encontro Obama-Mazen pouco serviu para alavancar o processo de paz.

–Wálter Fanganiello Maierovitch–


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