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Máfia. 18 anos de morte de Falcone e novas investigações sobre partcipação do serviço secreto do Estado.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, 24 de maio de 2010.
Falcone e Borsellino, dinamitados pela Cosa Nostra.


--1. No último 23 de maio, numa tradição iniciada em 1999, dois navios lotados (La Nave della Legalità) de jovens estudantes desembarcaram em Palermo. Isto para as cerimônias voltadas a recordar a morte do juiz Giovanni Falcone, mártir da luta contra a Cosa Nostra siciliana.



Mais de 2 mil estudantes, embarcados de vários pontos da Itália, chegaram a Palermo, na chamada caravana da legalidade.



O ponto de encontro foi “L´Albero Falcone”, eleita, quando da sua morte, como a árvore da vida e da antimáfia.



A árvore, -- um fícus magnólia--, fica defronte ao prédio de apartamentos onde residia Giovanni Falcone e a esposa Francesca, ela também juíza.



No início deste mês, as mensagens que são coladas no tronco da árvore tinham sido subtraídas durante a madrugada. Era a primeira vez que isso ocorreu. Até 1995, a árvore fora vigiaga por soldados do exército, como se fosse um símbolo nacional. À época temi-se que a Cosa Nostra a destruísse.



--2. No dia 23 de maio de 1992, a Cosa Nostra mandou aos ares o juiz Giovanni Falcone, a sua mulher Francesca Morvillo e os agentes de escolta Antonio Montinaro, Vito Schifani e Rocco Di Cillo. Apenas se salvou o motorista do automóvel onde estavam Falcone e Francesca.



Uma carga de dinamite fora colocada num duto de escoamento de água pluvial, na estrada que ligava o aeroporto Punta Raisa (hoje aeroporto internacional Giovanni Falcone e Paolo Borsellino) a Palermo, capital da região da Sicília.



Quando da passagem do carro blindado da escolta, o mafioso Giovanni Brusca acionou, à distância, a tecla de um telecomando. O carro blindado que transportava Falcone, e que trafegava imediatamente atrás ao veículo da escolta, também foi alcançado pela explosão.



A explosão aconteceu em território da cidade de Capaci.



O atentado fazia parte do plano de guerra contra o Estado italiano. Uma guerra declarada pelo sanguinário Salvatore Totó Riina, o chefe dos chefes da máfia.



Riina, preso em janeiro de 1993, está condenado como exceutor ou mandante de 800 consumados homicídios.



Funeral de Giovanni Falcone.



--2. Em junho de 1989, Falcone já havia sido alvo de um falido atentado com “58 bastões de dinamite”. Isto ocorreu em uma casa de praia em Addaura (Sicilia), que ele alugara para passar férias.



Na ocasião, os alvos eram Giovanni Falcone e os magistrados suíços Carla del Ponte (depois procuradora do Tribunal Penal Internacional) e Claudio Lehmann. Os dois suíços, em férias com Falcone, tinham realizado, por solicitação de Falcone (carta rogatória) vultosos seqüestros em contas-correntes mantidas por mafiosos sicilianos no suíço Cantão de Ticino.



A carga de dinamites estava escondida em uma elevação de pedra que cortava a praia e penetrava no mar. A carga explosiva seria acionada quando Falcone e os convidados estivessem a passear pela praia. Na ocasião, o telecomando falhou.



--3. No processo criminal e graças aos colaboradores de Justiça, foram identificados o mandante (Riina) e os executores mafiosos do projeto assassino. Todos se encontram definitivamente condenados.



A lei sobre colaboradores de Justiça foi introduzida, na legislação antimáfia, por iniciativa de Falcone e, por ironia, Giovanni Brusca, da “famiglia mafiosa” de San Giuseppe Jato virou colaborador de Justiça e está em semi-liberdade.



L´Albero Falcone, estilizada.


--4. Neste ano de 2010, decorridos 21 anos do sucedido em Addaura, as investigações sobre o falido atentado foram reabertos.



Relados de novos colaboradores de Justiça apontam para a participação, junto com mafiosos, de dois agentes do serviço secreto civil italiano.



Até então, sabia-se que a Cosa Nostra havia cooptado o agente Bruno Contrada, já condenado por associação mafiosa.



Contrada, depois de longos 10 anos atrás das grades, recebeu prisão domiciliar, em razão do seu precário estado de saúde.



A descoberta da participação ativa de dois agentes reabre a suspeita de que a Cosa Nostra, --nos assassinatos dos juízes Falcone e Borsellino, além de ataques em Milão, Florença e Roma e das mortes de policiais, como o general Carlo Alberto Dalla Chiesa (1982)--, agia em conjunto com o Serviço de Inteligência Civil italiano.



Sobre os atentados e posterior tratativa de um acordo de paz entre a Cosa Nostra e o Estado italiano, a envolver figurões da vida política italiana, existiria até um escrito (“papello”) que Don Vito Ciancimino, então prefeito de Palermo e chefe mafioso ligado a Riina e Bernardo Provenzano, contara ao seu filho Massimo, também mafioso e candidato a colaborador de Justiça. Don Vito, já falecido, seria um dos articuladores desse acordo.



--5. O presidente da República italiana, Giorgio Napolitano, manifestou-se sobre a tragédia de 23 de maio de 1992 e o exemplo deixado por Falcone.



Para surpresa geral, Napolitano, respeitado chefe de Estado, declarou que dará sustentação às novas investigações, em face das graves suspeitas.



--6. Durante as manifestações, o procurador nacional Antimáfia, Piero Grasso, e o procurador Antonio Ingroia (iniciou na magistratura do ministério Público como auxiliar de Paolo Borsellino) atacaram a tentativa do premier Silvio Berlusconi de reduzir a autonomia da Magistratura. Está em curso um projeto de reforma constitucional.



--“Sem autonomia da Magistratura não podem ser conduzidas novas investigações de modo a clarear a responsabilidade de altos representantes do Estado nacional”, disse o procurador antimáfia Antonio Ingroia.

-- Wálter Fanganiello Maierovitch--


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