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Terrorismo de Estado. Serviço secreto do Afeganistão sequestrou médicos da associação humanitária Emergency.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 19 de abril de 2010.




1. Os 007 do Lashkar Gah, o serviço secreto do corrupto governo do presidente afegão Hamid Karzai, invadiram, no último 10 de abril e na província de Helmand, o hospital da Emergency.



Trata-se de um hospital mantido pela associação humanitária internacional Emergency, dirigida por Luigi Strada (Gino Strada), médico especializado em cirurgia de urgência.



Na ocasião, foram levados presos e mantidos incomunicáveis os três médicos do Emergency da província de Helmand. Ou seja, os cirurgiões Marco Garatti, Matteo Pagani e Matteo Dell’Aira.



A justificativa oficial para as prisões foi o encontro, no interior do hospital e pelos os homens de Amirullah Saleh, chefe do serviço de inteligência Lashkar Gah, fuzis, granadas de mão, explosivos e coletes protetores.



Esses armamentos, segundo o responsável pelo Lashkar Gah, seriam entregues aos talebans do mulá Omar (sogro de Bin Laden).



2. Desde a prisão dos três médicos, com ameaça de imposição em processo sumário de pena capital de fuzilamento por cooperação com o terrorismo, Gino Strada suspeitou de “armação”, ou seja, preparação de flagrante. A meta seria desmoralizar a Emergency.



Na verdade, a linha de ação da Emergency nunca agradou ao governo Karzay. Mais ainda, enfurecia o então presidente George W. Bush.



Presente com hospital para cirurgias de emergência na província de Helmed (zona de plantio de papoula e elaboração de pasta-base de heroína), onde atuam as tropas britânicas com bandeira das forças da Isaf-Nato, a Emergency também nunca caiu nas graças do então premiê britânico Tony Blair, um sabujo de Bush.



A política da Emergency é de tratar a todos que necessitam de cirurgias ou tratamentos de emergência.



Essa notável organização humanitária, fundada em 1994, atua em zonas de conflito e não indaga nem a identidade do ferido. Na entrada dos seus hospitais pode-se ler nas placas a informação de que a Emergency trata sem diferenciar os feridos. Em outras palavras, não interessa como se chamam, o que fazem e qual a ideologia que carregam.



A Emergency, que constrói e administra hospitais, está presente no Afeganistão, Iraque, Camboja, Serra Leoa, Sri Lanka e República Centro-Africana.



3. No sábado 17, durante a primeira entrevista coletiva logo após a soltura, o cirurgião Garatti fez uma indagação: “Temos mais de mil empregados afegãos. Como podemos garantir que nenhum seja culpado?”.



Para o governo Karzai, ficou, depois de oito dias de intensas investigações, comprovado que os três médicos não tinham nenhuma responsabilidade referente aos armamentos encontrados no hospital da Emergency, na província de Helmand. E também nenhuma ligação com os talebans, fora do hospital.



Os três médicos permaceram oito dias e em celas separadas e sem comunicação. Eles foram autorizados apenas a receber a visita de um enviado do Ministério das Relações Exteriores da Itália, país onde nasceram e mantêm a cidadania.



Na coletiva, os médicos sequestrados pelo governo Karzai afirmaram que permaneceram em celas limpas, com comida balanceada. Ainda mais, frisaram que não sofreram tortura física nos interrogatórios.



4. Gino Strada, já cogitado anteriormente para receber o Prêmio Nobel, teve um papel fundamental na liberação, em 19 de março de 2007, do jornalista de guerra Daniele Mastrogiacomo, do italiano La Repubblica.



Com autoridade moral em face do trabalho desenvolvido pela sua associação humanitária, Gino Strada conseguiu convencer os talebans a soltar Mastrogiacomo, que tinham sequestrado em 5 de março de 2007 e era mantido em cativeiro.



Gino Strada aceitou realizar a intermediação com a condição de os governos se afastarem dela. Teve sucesso.



O sucesso de Gino na liberação de Mastrogiacomo, no entanto, atraiu a ira de Karzai, W. Bush e Blair. E não faltaram os que afirmaram que Gino Strada estava do lado dos talebans.



5. Humanista e pacifista, Gino Strada, nascido em 1948, formou-se pela Universidade de Milão e especializou-se em cirurgia de urgência (traumatológica).



De 1989 a 1994 trabalhou para a Cruz Vermelha em várias zonas em conflito: Paquistão, Etiópia, Somália e Bósnia.



A Emergency, que fundou em 1994, realiza cirurgias de emergência e trabalha na recuperação de vítimas de guerra. Até 2008, tratou e cuidou de 3,2 milhões de pacientes, em especial civis, crianças e adultos de ambos os sexos, vitimados por minas terrestres.



PANO RÁPIDO. O presidente Karzai deve explicações à comunidade internacional. Os três médicos, liberados no sábado, nunca tiveram qualquer envolvimento com organizações terroristas.



No caso, ficou muito clara a tentativa, felizmente falida, de desacreditar o trabalho de Gino Strada e da sua Emergency.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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