São Paulo,  
Busca:   

 

 

Agora

 

Apfelstrudel e Pedofilia. Escândalos na Igreja alemã.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 12de setembro de 2010.

os irmãos Ratzinger.


O apfelstrudel, folhado de maçã originário da Áustria, dizem ter toque e sabor especiais quando preparado na região alemã da Baviera. Mais especificamente na cidade de Regensburgo, de imponente catedral, construções romanas e sítio dos históricos Colóquios de Ratisbona de 1541 e 1546, entre católicos e protestantes.



Desde a sexta-feira 5, esses doces azedaram não só na casa dos Ratzinger em Regensburgo, onde vive o padre Georg-, de 86 anos, irmão mais velho do papa Bento XVI. Os habitantes estão profundamente indignados com as denúncias, pela diocese local, de casos de pedofilia, a vitimar, entre 1958 e 1973, alguns meninos do coral da catedral.



O padre Georg dirigiu o coral no arco de 1964 a 1994. Ele passou o último fim de semana a repetir aos jornalistas que não cuidava da disciplina das crianças, mas “apenas de música”. Disse ainda nunca ter ouvido falar nada a respeito dos abusos sexuais denunciados e não acreditar neles. No particular, entrou em contradição com o bispo da cidade, Gerhard Ludwig Müller. Não pesa qualquer suspeita contra o padre Georg, que goza do respeito da comunidade e, juntamente com o irmão, ordenou-se sacerdote em 1951.



O coral de Regensburgo é o mais antigo do mundo, ou melhor, tem mais de mil anos de existência. No ano 975, os meninos da cidade foram treinados e incumbidos do coro litúrgico da catedral. No século XX, esses cantores tornaram-se mundialmente conhecidos como Pássaros Cantantes: Regensburger Domspatzen.



Num escrito intitulado Carta aos Familiares, Müller reiterou a ocorrência de crimes sexuais. Logrou evitar fuga de notícias de circulação interna e indicou, sem dar os nomes, dois culpados, ambos falecidos, para alívio da Igreja alemã.



Os criminosos teriam sido um prelado – censurado em 1971 quando o padre Georg era diretor musical – e, em 1958, um defenestrado professor de religião que acumulava a função de assistente do diretor da instituição. A propósito, a instituição religiosa de Regensburgo é composta de três unidades: colégio, internato e coral.



Não é a primeira vez que fatos de Regensburgo, onde Joseph Ratzinger foi reitor universitário, causam-lhe pantagruélicas dores de cabeça. Em setembro de 2006, o próprio papa protagonizou um infeliz episódio. Sem usar vestes pontifícias e em aula magna na Universidade de Regensburgo, o convidado Ratzinger, ao aludir à conversão religiosa mediante coação, citou um diálogo do imperador bizantino Manuel II – Paleólogo, e ofendeu a comunidade islâmica internacional: “Mostre-me, então, o que Maomé trouxe de novo e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, que ele determinou e que se propague, através da espada, a fé que ele prega”.



O ministro de Estado do Vaticano, à época, teve de atuar como bombeiro para apagar o incêndio papal: “O discurso do papa em Regensburgo foi interpretado de modo a não corresponder totalmente às suas intenções”. Bento XVI “lamenta profundamente” que algumas passagens do seu pronunciamento “tenham podido parecer ofensivas à sensibilidade dos fiéis muçulmanos”. Os islâmicos souberam perdoar o papa.



Com relação às novas descobertas sobre pedofilia e atentados violentos ao pudor, a Alemanha virou a bola da vez, mas com um plus. Ou seja, esses crimes também se consumaram em elitistas internatos laicos, como o tradicional colégio Odenwald, em Heppenheim, próximo a Frankfurt. Do lado religioso, os escândalos na Alemanha começaram em janeiro de 2010, quando o diretor responsável pelo colégio jesuíta Canisius, de Berlim, admitiu que muitos ex-alunos sofreram abusos sexuais nos anos 70 e 80. O escândalo de Regensburgo é apenas o último que veio a furo.



A onda de escândalos sexuais na Igreja passou por diferentes cidades e países. Na arquidiocese de Boston, por exemplo, foi afastado o cardeal engavetador Bernard Law, e 200 padres foram acusados de pedofilia. Em Los Angeles, houve o célebre pagamento, pela Igreja, de indenizações de cerca de 600 milhões de dólares, a título de ressarcimento a 508 vítimas de padres pedófilos. Na Áustria foi fechado o seminário de Sankt Polten, em razão de orgias gays.



No ano passado, em março, o papa Ratzinger afastou por acobertar apurações, referentemente ao escândalo na cidade irlandesa de Cloyne, o poderoso bispo John- Magee, ex-secretário particular dos papas Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II. Antes disso, Ratzinger havia frisado: “Nunca mais padres pedófilos, pois nos envergonhamos profundamente”.



No momento, a Igreja alinha uma carta aos fiéis irlandeses e fixa orientações gerais, do tipo (1) proximidade e apoio permanente às vítimas de pedofilia e violências sexuais; (2) empenho na reparação dos danos morais causados; (3) máxima transparência e que nada seja acobertado; e (4) seriedade na reprovação, a fim de reconquistar a confiança dos fiéis. Como se percebe e foi dito, o homem continua lobo do homem.

Wálter Fanganiello Maierovitch.


Assuntos Relacionados
© 2004 IBGF - Todos os direitos reservados - Produzido por Ghost Planet