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Aborto. Caso da menina brasileira estuprada volta a agitar o Vaticano. Pedida a cabeça do cardeal Rino Fisichella.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 22 de fevereiro de 2010.

arcebispo dom José.


1. Não dá para esquecer.



Tratei do tema neste espaço do IBGF. O fato ficou marcado na memória e doeu na alma, como atesta a quantidade de acessos e comentários deixados.



Refiro-me à brasileira de 9 anos que engravidou de gêmeos depois de estuprada pelo padrasto. Ela foi submetida a aborto. Frise-se, uma menina pobre, com debilidade físico-emocional. Pesava 30 quilos.



Juntamente com o médico e todos os envolvidos, direta ou indiretamente, na interrupção da gravidez, a menina acabou excomungada pelo então arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho. O arcebispo deu plena publicidade ao ato de excomunhão.



Movido por respeito humano, consciência profissional e misericórdia, o médico realizou, graciosamente em 2009, o aborto na supracitada menina. Tudo, aliás, como autorizava o nosso Código Penal: interrupção da gravidez em razão de estupro ou risco de a mãe perder a vida.



José Cardoso Sobrinho, o então arcebispo de Olinda e Recife, saiu de cena, diante da polêmica que atravessou o Atlântico e cruzou o rio Tevere. E saiu de cena por estar com o prazo de validade vencido para as funções (75 anos).



2. Neste final de semana, pela internet, soube-se da reunião da vaticana Academia para a Vida, composta por 158 membros. A questão da menina brasileira entrou na pauta de discussões.



O alvo direto dos fundamentalistas católicos que integram a Academia não era a pobre menina brasileira. No epicentro do “fogo do inferno” estava o culto, sensível e influente cardeal Rino Fisichella, de 58 anos de idade.



Fisichela, em junho de 1998, fora nomeado pelo papa Ratzinger para presidir a Academia para a Vida. Atualmente, Fisichella é reitor da Pontifícia Universidade Lateranenze de Roma. Sem dúvida, é um dos mais respeitados intelectuais da Igreja.



Com efeito. Fisichella virou alvo por ter publicado uma dura e racional carta em defesa da menina brasileira e contra a excomunhão de todos os envolvidos na decisão sobre o aborto.



Numa das passagens da carta, Fisichella assinalou: “O aborto provocado foi sempre condenado pela moral, mas a criança (brasileira) devia ser defendida em primeiro lugar, abraçada, acolhida com doçura de modo a perceber que estávamos todos com ela. Todos, sem nenhuma distinção. Antes de se pensar em excomungar era necessário e urgente salvaguardar a sua vida inocente e reconduzi-la a um plano de humanidade do qual nós, homens da Igreja, devemos ser peritos, anunciadores e mestres”.



A carta de Fisichella, publicada no Observatório Romano (diário oficial do Estado do Vaticano), termina por dizer que, no caso da excomunhão, a credibilidade dos ensinamentos da Igreja fora arranhada e o ato se apresentou, aos olhos de tantos insensíveis aos referidos ensinamentos, incomprensíbile e privo di misericórdia (ausente de misericórdia).



3. Indignados com a carta de Fisichella, 5 membros da Academia para a Vida, depois da reunião ocorrida neste mês de fevereiro de 2010, reagiram. Escreveram uma carta-resposta, que circulou pela internet no fim de semana, em infovias freqüentadas pelos ligados às questões vaticanas e curiosos. A carta-resposta, endereçada ao papa Bento XVI, temina por pedir a “cabeça” de Fisichella.



4. Ontem, a administração do Vaticano reagiu, com irritação. Em nota, informou que a carta-resposta dos 5 membros da Academia para a Vida, da qual constam pedidos de imediata demissão e de cautelar afastamento de Fisichella das funções eclesiásticas, não chegou ao papa Bento XVI nem ao cardeal Bertone, secretário de Estado.



5. PANO RÁPIDO. Um parágrafo da carta de Fisichella, certamente, foi redigido com o coração e dirigido à pobre menina brasileira e aos que a acolheram humanamente. Esse parágrafo serve para colocar uma pá de cal na questão: “Outros merecem a excomunhão, não os que te permitiram viver”.


Wálter Fanganiello Maierovitch


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