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Máfia, Berlusconi e Rio de Janeiro.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 13 de fevereiro de 2010.

Berlusconi em caluniosa fotomontagem que circula pela internet, via google.



--1. O premiê italiano fecha a semana mergulhado em acusações de corrupção, envolvimento com a Máfia e um “mondo di ladri”. Mundo este a englobar um financista residente no Rio de Janeiro e dado como lavador internacional de dinheiro sujo. Por isso, Berlusconi quer mudar a Constituição e criar leis,num projeto de reformas já conhecido por “Salva Berlusconi.



Na minha coluna semanal “Linha de Frente para a Cidadania”, publicada na revista Carta Capital desta semana, tratei do tema e submeto aos leitores, neste tempo momístico. Chama a atenção uma tentativa berlusconiana de introduzir o modelo brasiliense, ou seja, de obrigatoriedade de “licença” da Câmara para ser processado. Com isso, ele quer resgatar uma norma original da Constituição italiana de 1948, já revogada.



--2.O pallazzo chigi, sede do governo italiano, passou a ser povoado por fantasmas trazidos pelo premier Silvio Berlusconi. Por exemplo, o fantasma do magistrado antimáfia Paolo Borsellino, cuja agenda reveladora das correlações entre a Máfia e o Estado desapareceu de dentro de sua pasta, logo depois de mandado aos ares pela Cosa Nostra, em julho de 1992, na palermitana via D’Amelio.



Na sua última entrevista, Borsellino contou sobre Vitorio Mangano, traficante internacional de drogas e mafioso com trânsito em julgado. Esse siciliano era o “cabeça de ponte” para os negócios sujos da Máfia no norte da Itália, disse Borsellino. Apesar dos antecedentes, Mangano acabou “contratado” por Berlusconi para “trabalhar” na sua esplêndida Villa Arcore. Segundo especialistas, a Cosa Nostra impôs Mangano para vigiar o milanês Berlusconi e não ser passada para trás.



Parênteses. O senador siciliano Marcello Dell’Utri, condenado em primeiro grau por ser associado à Máfia e cofundador do berlusconiano partido político Forza Italia, assumiu a paternidade da indicação de Mangano, seu amigo de infância e que todas as luparas sabiam ser mafioso. Mais ainda, Dell’Utri sustentou ter Mangano, já falecido, cuidado “muito bem” do haras de cavalos de raça em Arcore. Em juí-zo, e ouvido pelo magistrado instrutor Giorgio Della Lucia, Berlusconi disse nunca ter tido haras ou cavalos.



No plantão do Palazzo Chigi, nesta semana, marcou presença um agitado fantasma, conhecido pelo nome de Vito Ciancimino, nascido em Corleone, ex-prefeito de Palermo, morto em 2002 e antigo membro da cúpula de governo da Cosa Nostra. Don Vito fora o responsável, nos anos 90 e quando prefeito, pelas interlocuções da Máfia com políticos e seu partido, o PDC.



Para se ter ideia, coube a Don Vito, depois de a Máfia “dinamitar” o juiz Giovanni Falcone e explodir bombas em Roma, Milão e Florença, a incumbência de transmitir as condições para um armistício, grafadas em escrito (il papello) pelo corleonese Totò Riina, então chefe dos chefes da Cosa Nostra.



Nesta semana, o fantasma de Don Vito, pela boca do seu filho e ex-secretário particular Massimo Ciancimino (conhecido como Ciancimino Júnior), avisou, em audiência judicial e na condição de testemunha, que o partido Forza Italia, fundado por Berlusconi com os asseclas Marcello Dell’Utri e Cesare Previti (ex-deputado condenado por corromper três juízes romanos no interesse da Fininvest de Silvio Berlusconi), nasceu da tratativa da Máfia e o futuro premier. Ciancimino Jr. não é colaborador de Justiça. Está condenado, por lavar dinheiro da Máfia, à pena de quatro anos e três meses de prisão. Em março deste ano, continuará a depor no processo contra o coronel Mario Mori, acusado de celebrar acordo para deixar de prender Bernardo Provenzano, em troca da cabeça de Riina.



Como se percebe, todos os fantasmas revelam (1) as ligações de Berlusconi com a Cosa Nostra; (2) esquemas de corrupção; (3) construção de um suspeito império financeiro; (4) lavagem de dinheiro sujo; e (5) parcerias com um mondo di ladri: Don Vito, consoante revelou o filho, lavou dinheiro mafioso no primeiro grande empreendimento imobiliário de al-tíssimo luxo de Berlusconi, chamado Milano 2, e que teria sido executado com dinheiro sem origem lícita.



Não bastassem os fantasmas, na frente da praça onde está o Pallazzo Chigi, fica a galeria Alberto Sordi. Nela funciona a livraria Feltrinelli, que tem no L’Odore dei Soldi (O Cheiro do Dinheiro), sobre o clã Berlusconi, um campeão de vendas.



Desse livro consta o nome de um financista que reside no Rio de Janeiro e que, conforme apurado, reciclou, diretamente da Cidade Maravilhosa, 300 milhões de dólares para o “império financeiro de Silvio Berlusconi”. O “lavador” residente no Rio de Janeiro é o espanhol Juan Ripoll Mari.



Ripoll Mari, conforme revelado pelo jornal Diário do Nordeste, toca um empreendimento imobiliário no Ceará (Praia da Baleia) orçado em 15 bilhões de dólares e que estaria na mira do Coaf, a agência de inteligência financeira do Brasil.



Berlusconi sempre nega todas as acusações. Em 25 de fevereiro, ele espera que a Corte de Cassação, o Supremo da Itália, entenda que a corrupção do advogado David Mills (vendeu o seu silêncio a Berlusconi por 600 mil dólares e calou nos processos a Guarda de Finanças, a polícia alfandegária e a All Iberian) seja considerada um crime só. Caso isso a pena será reduzida e ocorrerá a prescrição a salvar o corruptor Berlusconi e o corrompido Mills.



Se a Corte confirmar a condenação, Berlusconi tem um plano B, representado por projetos de lei sobre processo breve, legítimo impedimento e imunidade. Sua aposta maior é no restabelecimento da imunidade parlamentar. A mesma solução que está a garantir José Roberto Arruda no governo de Brasília.

-- Wálter Fanganiello Maierovitch --


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