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Terrorismo. De Osama para Obama.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch/CARTA CAPITAL

IBGF, 30 de janeiro de 2010.

Bin Laden, em veste de profeta.


--1. Os 007 da agência norte-americana de inteligência (CIA) garantem que Osama bin Laden está vivo e circula na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, em impenetrável região tribal sunita. E o presidente Barack Obama acredita nisso.



Em 2002, na caça a Osama, a CIA informava que o terrorista tinha grave problema renal e precisava ser submetido a permanentes hemodiáleses.



A referida CIA chegou até a repassar a informação de que, nas cavernas onde se escondia no Afeganistão, Osama contava com equipamento para realizar a filtragem do sangue: hemidiálise.



As bombas penetrantes mandadas soltar por Bush foram inócuas. Osama fugiu para o Paquistão montado num cavalo árabe, segundo a lenda que circula entre os fundamentalistas sunitas.



Como Osama estaria envelhecido,e “derrubado”, garante a CIA ser este o motivo de haver , desde 2004, só enviado mensagens de áudios.



Nesse cenário, analistas se debruçaram sobre o último áudio “de Osama para Obama”. O presidente Obama, neste final de semana, analisará as interpretações.



Na edição desta semana da revista Carta Capital, onde sou colunista independente há quase 10 anos, escrevi sobre a nova estrutura alqaedista, a nova geografia do terror e a preocupação dos analistas em face da última mensagem atribuída a Osama. O artigo segue abaixo, a partir do item 2.



Oficialmente, a Casa Branca, quando o assunto é Osama, só repete um mantra e fecha-se em copas: “- Terminará por responder diante da Justiça”.



--2. Com efeito, tudo ficou muito diferente na Al-Qaeda central e na Casa Branca. O marketing do medo que propiciou um segundo mandato presidencial a George W. Bush foi abandonado pelo atual hóspede do imóvel. Assim, o áudio de sete minutos que circulou no último fim de semana pela internet – e que a rede Al Jazira divulgou como sendo uma mensagem do alqaedista Osama bin Laden – não mereceu resposta do presidente Barack Obama. Mais ainda, os 007 das agências de espionagem dos EUA ficaram proibidos de confirmar ou negar a autenticidade do áudio.



Com um mês de atraso, o áudio referia-se ao “presente de Natal” de Osama para Obama. Ou melhor, versava sobre o falido atentado terrorista protagonizado pelo jovem nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, filho de um potente banqueiro filoamericano, que já havia avisado a CIA sobre o impulso jihadista do rapaz. O nigeriano era passageiro do voo Amsterdã-Detroit e a sua tarefa era explodir o avião da empresa Delta, no espaço aéreo norte-americano.



Em termos de mudanças alqaedistas, o chefe Osama também se mostra diferente. Não exibe os músculos de antigamente e não mais conta com uma “força especial”, comandada por um soldado “perfeito” e 18 camicases fanatizados a ponto de nunca amarelarem nas ações terroristas.



Mohammed Atta, responsável pelos ataques às torres gêmeas e dado como soldado “perfeito” de Osama, já era. No lugar de Atta, o capo alqaedista revelou ao Ocidente o jovem Farouk Abdulmuttalab, treinado às pressas, vacilante e com a cabeça mobiliada com ideias confusas. Diante dessa sua nova realidade e para voltar à ribalta, Osama joga como se a bisonha ação do jovem nigeriano tivesse sido um sucesso. Na verdade, serviu apenas para desmoralizar o sistema de prevenção ao terror nos aeroportos.



O nigeriano embarcou exibindo um visto norte-americano e isto apesar de o seu nome constar da base de dados norte-americana reservada aos suspeitos de vizinhança com organizações terroristas de matriz islâmica. Desse arquivo eletrônico constam 500 mil nomes, mas apenas 4 mil foram repassados à base batizada como “No Fly”, ou seja, os “proibidos de voar”.



Especialistas norte-americanos em segurança pescaram no áudio uma frase de Osama e concluíram pela iminência de um atentado, sem dizer onde: “Se as nossas mensagens pudessem ser transmitidas mediante o uso de palavras, não as teríamos transmitido pelos aviões”.



Os 007 da inteligência centram a preocupação em outro trecho, repetido duas vezes por Osama e que representaria um sinal verde para um ataque camicase: “Que a paz esteja com aqueles que seguem o caminho justo”. Especulações à parte, Osama de novo apresentou uma proposta de acordo a Obama: “Corte o apoio a Israel e nós pararemos de atacar os EUA”.



As mudanças alqaedistas são significativas. A Al-Qaeda central ficou reduzida a 300 homens. Osama é protegido por 15 guarda-costas, não se afasta da região tribal paquistanesa e, para evitar riscos, mantém-se fisicamente distante de Al-Zawahiri, o segundo na hierarquia.



Além de perder uma centena de militantes em combate, a Al-Qaeda central está no vermelho e se fragmentou. Osama e Al-Zawahiri apostam no ciberterror e nas infovias da internet, a custo zero. Enquanto as mensagens de Osama com vídeo sumiram, as de áudio cresceram: a primeira aparição de Bin Laden data de 7 de outubro de 2001. Nesse mesmo ano, a Al-Qaeda central difundiu vídeos em 13 e 29 de dezembro. Em 2005, Osama manteve-se em silêncio e, em 2006, divulgou dois áudios. A partir de 2007, os áudios alqaedistas cresceram em progressão geométrica.



Hoje, a organização de Osama se apoia em quatro pilares: 1. Al-Qaeda central e tradicional, na qual pontificam Osama, Al- Zahawiri e Al-Libi. 2. Rede de Afiliados, composta de grupos independentes, como, por exemplo, os que atuam no Iêmen e na Argélia. 3. Grupo dos “Inspirados” ou “Nômades Globais”, com atuação escoteira ou em associações temporárias e impulsionados pela regra alqaedista do “faça você mesmo a sua parte”. 4. Grupo dos Facilitadores, estes soltos pelo mundo e com a meta de estabelecer ligames da Al-Qaeda central com organizações islâmicas terroristas ou com os denominados “Inspirados”. Os “Facilitadores” arregimentam homens-bomba, recolhem contribuições e, por vezes, prestam auxílio material em atentados de pequeno porte.



Essa nova cara alqaedista mudou a geografia do terror. Por exemplo, no Líbano e na Síria atuam os afiliados grupos sunitas Fatah Al-Islam e Brigadas Azzam. Eles promovem ações contra Israel, atacam os capacetes azuis da Força de Paz da ONU (sul do Líbano) e procuram enfraquecer o xiita Hezbollah. Os afiliados da Al-Qaeda do Maghreb (Norte da África) agem na Argélia, na Mauritânia, no Mali e no Marrocos.



Num pano rápido, Osama, em 2010, continua como o principal nome do terrorismo planetário e a Al-Qaeda central, como marketing, assume a responsabilidade por atentados de que toma conhecimento apenas pela internet.

--Wálter Fanganiello Maierovitch


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