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Racismo. Justiça esportiva condena a vítima de racismo, Balotelli, da Inter de Milão.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 13 de janeiro de 2009.

Balotelli.



Volto ao tema do post de ontem, que, por não ter entrado em horário nobre por atraso da minha exclusiva responsabilidade, contou com pouco menos de 10 mil leitores, segundo a estatística do Google Analytics.



Com efeito. No meu celular, guardo fotos de algumas salas de audiências de fóruns da Justiça italiana.



Essas fotografias revelam – com letras garrafais escritas nas paredes atrás das bancadas dos juízes e para que todos os que participem de sessões judiciárias possam ler – um princípio da Constituição. Princípio em vigor desde 1948, pós-fascismo: “Todos são iguais perante a lei”.



Na chamada justiça esportiva das federações futebolísticas, que por evidente não pertence à Justiça do Estado italiano, o princípio vigorante é o inverso, ou seja, nem todos são iguais perante a lei. No Brasil, e referente à justiça esportiva da Confederação Brasileira de Futebol, sucede o mesmo e estão aí os Eurico Miranda para comprovar.



Ontem, o juiz esportivo Gianpaolo Tosel mostrou que não se daria bem caso tivesse abraçado a carreira de um verdadeiro magistrado.



Tosel, pasmem, condenou Mario Balotelli, da Internacional de Milão, que, na partida da última rodada da série ‘A’ do campeonato italiano e contra o time do Chievo, ouviu, de torcedores racistas, o coro “buuu” e a marchinha de uma frase só (no Brasil temos o samba de uma nota só, que não é racista): “os italianos não são negros”.



Estádio Olímpico de Roma

Balotelli, nascido em Palermo e cidadão italiano, foi condenado a pagar 7 mil euros (cerca de R$ 20.500,00). Motivo: ao ser substituído da partida, debaixo de um coro racista, bateu palmas para a torcida.



Não se deu conta o juiz esportivo Tosel, que tem a profissão de comerciante, que a reação de Balotelli caracteriza a figura jurídica da retorsão imediata. Ensinam os manuais de direito penal, em todo o Ocidente laico, que a retorsão imediata, que exclui sanção quando moderada, proporcional, é a repulsa pronta às ofensas proferidas. Portanto, Balotelli, ao aplaudir, agiu legitimamente.



Na história, um extraordinário personagem que passou por aqui há mais de 2 mil anos, recomendava oferecer a outra face. Mas ele próprio, certa vez, perdeu a paciência com vendilhões e, com chicote em punho, colocou-os para correr. Parece que a razão estava do seu lado, pois os tais vendilhões do templo, semelhantemente ao ocorrido no governo Fernando Henrique Cardoso, tinham realizado imoral privatização de bem público.



PANO RÁPIDO. Balotelli, 19 anos, foi vítima de um racismo dos ultrà (membros de torcidas organizadas) que continuam a exteriorizar comportamento racista nos estádios.



Nas organizadas torcidas da Internacional existem alas racistas, também. Por coincidência, um jogador do Chievo, Luciano, já foi vítima de ofensas racistas, proferidas pelos ultrà interisti.



Ontem, Balotelli resolveu se explicar melhor. Estava muito tenso quando falou à rede Sky de ter nojo do público de Vernona. Ele avisou que tem nojo dos que praticaram racismo e não dos torcedores de Verona que, no estádio e durante a partida, se comportam corretamente. Aproveitou Balotelli, também, para dizer que se “ envergonha da torcida da Inter que havia ofendido o jogador Luciano, do Chievo”.



A partida no estádio Bentegodi de Verona, entre o Chievo e a Inter, teve 25.579 espectadores. Nem todos são racistas, evidentemente. Daí, o esclarecimento Balotelli.



Por outro lado, o fato de o Chievo ter sido “barbaramente” prejudicado pela arbitragem (era para a Inter ter tomado dois gols ), não justificava a hostilidade contra Balotelli. Muitos falam que “a Inter só ganha roubando” e que o excepcional jogador holandês Ruud Gullit, que jogou no Milan, nunca deu bola aos “buuu” e aos ataques racistas. Ora, um coisa não tem nada a ver com outra.



Sobre o juiz esportivo Gianpaolo Tosel, que condenou Balotelli a pagar 7 mil euros, tomo emprestado a observação do colunista italiano Tommaso Pellizzari: “Quando il saggio indica la luna, lo sciocco guarda il dito (quando o sábio aponta para a lua, o tolo olha o dedo)”.

Wálter Fanganiello Maierovitch


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