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O fantasma de Brenda, trans brasileiro, assusta celebridades italianas.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF, 23 de novembro de 2009.

Brenda.



De Roma.


Em primeira página, os jornais italianos continuam a noticiar a misteriosa morte da travesti brasileira Brenda, registrada no Pará como Wendell Mendes Paes: ela morreu, aos 32 anos de idade, asfixia pela fumaça de um incêndio em seu apartamento e teve carbonizado metade do seu corpo.


. No momento, o ROS, -- que é um grupo especial de repressão ao crime organizado mafioso e ao terrorismo--, realiza o levantamento do tráfico telefônico nos três números dos celulares utilizados pela falecida Brenda.


Enquanto isso, a associação italiana de transsexuais e a organização não governamental Libélula pediram, hoje na parte da manhã e ao chefe da Esquadra Móvel de Roma, proteção policial para os seus membros.


A Libélula é presidida pelo brasileiro conhecido por Leila Daianis, residente há trinta anos na Itália.


No sábado e organizado pela Libélula, houve passeata. Na faixa principal portada pelos participantes, -- fundo branco e escrita em tinta vermelha--, vinha grafado “Brenda: omicidio. Basta vittime”.


Brenda, segundo investigação em curso, pode ter integrado um grupo de extorsionistas ligados a Gianguarino Cafasso, Este, era um cafetão de travestis, que morreu de overdose de cocaína. Hoje, à mídia italiana, Pasquale Cafasso, pai do gigolô Gianguarino, afirmou que o filho foi assassinado.


Revelou Paquale ter o filho avisado-lhe que, -- em face do caso Piero Marrazzo (o governador filmado quando mantinha relacionamento com a travesti brasileira Matalia)--, estava sendo ameaçado de morte. Assim, o conhecido Rino (Gianguarino) pode ter sido drogado e, como era diabético, obeso e tinha insuficiência cardíaca, assassinado.


Rino, além de intermediar “programas com travetis”, descontava, abatida comissões, os cheques recebidos pelas travestis estrangeiras. Como todos as travestis estrangeiros estão ilegalmente na Itália, não podem abrir contas em banco. Ele manobrava, também, o chamado “mercato nero” de locações de mini-apartamentos para travestis, nas vias de Due Ponti e Acqua Certosa: o aluguel mensal variava de 500 a 600 euros mensais, sem risco de batida policial e prisão para os não portadores de autorização para permanência no país.


Brenda era uma das travestis desfrutadas por Rino, que fez proposta de venda do vídeo do “affair” do governador Marrazzo com a trans-brasileira Natalia ao cotidiano Libero e para uma agência de publicidade, onde o ROS realizou a apreensão, antes da difusão.


Com efeito. O ROS trabalha com a hipótese de Rino e Brenda terem se associado para filmar Marrazzo. E outros políticos e celebridades, --daí a importância do levantamento do tráfico telefônico para conhecimento das relações profissionais e sociais de Brenda--, podem ter sido alvos de chantagens financeiras.


A polícia trabalha com a hipótese de város vídeos e, no mundo “gossip”, fala-se da “lista dos doze”, nome associado aos apóstolos dos travestis. Especula-se a respeito de nomes de dois políticos, um ministro e um jornalista famoso.


Brenda, no primeiro depoimento ao ROS, contou que não conhecia Marrazzzo e “nunca tivera nada com ele”.


Depois de desmentida por outras transsexuais, admitiu, --no início deste mês de novembro--, encontros com o governador Marrazzo.


No segundo depoimento, colhido na presença do procurador Giancarlo Cataldo, Brenda falou de um segundo vídeo, que ela mesmo produziu. Ou seja, dela e da trans Michelly com o governador Marrazzo, numa banheira. Sobre esse vídeo Brenda disse haver sido feito com a anuência de Marrazzo e que, depois do escândalo com Natalia, ela apagou do computador, onde gravara.


Nesse segundo relato, surge menção ao computador, cuja existência, no primeiro depoimento, foi negado por Brenda: “não tenho computador porque não sei mexer neles”: um computador, debaixo d´água, restou apreendido no apartamento de Brenda, no dia do incêndio e da sua morte: o disco de memória foi recuperado pela perícia.


Enquanto o ROS cuida das investigações sobre extorsão, a Esquadra Móvel de Palermo apura sobre a morte de Brenda.


O procurador Giancarlo Cataldo continua a insistir no homicídio. Mas, não se descarta a hipótese de morte acidental, ou seja, um incêndio quando Brenda estava sob efeito de alta dosagem de sonífero e de ingestão de álcool: confira no “post abaixo” os três mistérios ainda não solucionados.


Incêndio, consoante os peritos, iniciado em uma maleta com rodas (troyller). O que havia no interior da referida maleta para provocar a combustão não se sabe. Hoje, no período vespertino, será ouvidos os bombeiros que apagaram o fogo no apartamento. Serão perguntados sobre a cor das labaredas.


Hoje, no velho bairro do Trastevere, almocei com a competente jornalista Vera Araújo, que, com muito brilho, escreve semanalmente ao Terra Magazine.


Vera Araújo, mais de 20 anos em Roma, bem definiu o que se passa no momento: “o italiano, e os jornalistas daqui, acham que a morte da travesti Brenda é apenas a primeira camada de um mar de lama.


Na verdade, quando as coisas começam por acaso e chocam, ninguém sabe onde elas chegarão.


Essa é a frase que mais ouvi na capital da Itália, que é, também, a da região Lazio. A frase decorre do chamado “caso Marrazzo”, com duas pessoas mortas num arco de dois meses: Gianguarino Cafasso, apelidado Rino ou Chiappe d´Oro e morto aos 37 anos de idade, e Wendell Mendes Paes, transsexual apelidado Brenda, de 32 anos de idade e natural do Pará, morto há menos de uma semana.


Só para lembrar, abro parêntese.


Lazio é a região cujo governador, Piero Marrazzo, renunciou depois da divulgação da notícia de haver sido filmado numa cama e a fazer sexo com a travesti carioca conhecida por Natália.


Natalia (ela reclama quando o jornais escrevem Natalie) é uma travesti, -- por aqui se fala e escreve “viado”-- que mora, por coincidência, vizinha ao apartamento onde ficou em cativeiro, e depois acabou assassinado, o ex-primeiro ministro, presidente do partido da Democracia Cristã e professor de direito processual penal, Aldo Moro. O jus-político Moro foi vítima das Brigadas Vermelhas, em 1978.


Em setembro passado, os integrantes do ROS recolheram em interceptações ambientais e telefônicas a informação de uma extorsão, a vitimar o governador Marrazzo.


À época, o ROS investigava tráfico de cocaína pela facção casalese (da cidade campana de Casal de Príncipe) da Camorra.


O vídeo do ‘affair’ Marrazzo-Natalia estava sendo oferecido a jornais, editoras e emissoras privadas de televisão. Soube-se, também, que Marrazzo fora extorquido por quatro policiais carabineiros: os carabineiros invadiram o apartamento de Natalia e o surpreenderam com a travesti e grande quantidade de cocaína em cima de uma mesa.


Pelas provas colhidas, os policiais, dados como extorsionistas, foram avisados da presença de Marrazzo no apartamento de Natalia pelo cafetão Rino. Segundo a acusação, --e dois dos quatros policiais estão presos--, Marrazzo entregou quatro cheques aos policiais. No particular, um outro mistério, ou seja, os cheque não foram descontados no banco sacado.


Até agora, as imagens do vídeo Marrazzo-Natalia não vazaram.


Marrazzo é do partido de oposição a Berlusconi, que, depois de um mês, resolveu contar-lhe sobre o vídeo oferecido para a sua empresa editorial. Dias após, enquanto Marrazzo tentava comprar as cópias do vídeo com a agência que recebera em consignação, o ROS chegou primeiro e realizou a apreensão.


PANO RÁPIDO. Gabriele Paoli anunciou que está na posse de um vídeo, feito por ele há vinte anos atrás. O filme conta a vida e entrevista um jovem transsexual brasileiro que se prostitui em Roma. O trans é a falecida Brenda.

--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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