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Preso mafioso que dissolveu em ácido corpo de menino de 11 anos, filho de um colaborador de Justiça. Berlusconi não paga os agentes antimáfia.

Por Wálter Fanganiello Maierovitch- Terra Magazine.

IBGF,17 de novembro de 2009.

Domenico Raccuglia estava foragido há 15 anos.


Lógico, sem tirar os pés do eixo Palermo-Trapani.


Como a Máfia (Cosa Nostra siciliana) controla territórios e impõe a lei do silêncio, para um mafioso é mais seguro manter-se nos próprios domínios. Ou seja, o mafioso não se aventura fugir para local desconhecido.


Conhecido pelo apelido de Mimmo, o boss Raccuglia comandava a “famiglia mafiosa” (célula mafiosa) da cidade de Catturandi, ligada a Matteo Messina Denaro, o atual capo dei capi da Cosa Nostra siciliana.


Em 23 de novembro de 2003, Mimmo cumpriu a ordem que lhe foi transmitida por Giovanni Brusca, capo da 'famiglia' de San Giuseppe di Jato. Brusca acionou, em 23 maio de 1992, a carga de dinamite que mandou aos ares o juiz Giovanni Falcone, a sua esposa e a escolta.


A ordem recebida por Mimmo era a de seqüestrar Giuseppe Di Matteo, entã com 11 anos de idade.


A meta da cúpula da Cosa Nostra era fazer Santino Di Matteo, pai do pequeno Giuseppe, mudar o testemunho sobre o assassinado do eurodeputado Salvo Lima e do coletor Ignácio Lima, dois dos homens do ex-premier e senador Giulio Andreotti na Sicília. Santino era um mafioso da "famiglia de San Giuseppe di Jato e se tornou colaborador de Justiça.


Parênteses.

A “famiglia” de San Giuseppe di Jato já foi comandada por Antonio Salamone, que se estabeleceu em São Paulo.


Aalamone adquiriu, durante a ditadura militar, a cidadania brasileira. Lógico, com certidões falsas. Em razão do voto do ministro Marco Aurélio de Mello, do nosso Supremo Tribunal Federal, Salamone, traficante internacional de drogas, chefe mafioso da cúpula de governo de Cosa Nostra, e acusado de assassinatos, não foi extraditado. O ministro Marco Aurélio, como fez no caso Battisti, entendeu ter ocorrido prescrição dos crimes. Diante disso, e por apenas um voto, Salamone não foi extraditado e viveu no Brasil, tranqüila e ricamente, até falecer no final dos anos 90.


Fechado parênteses.


Como Santino di Matteo não mudou os seus relatos e testemunhos, o menino Giuseppe permaneceu sequestrado por mais de dois anos, ou seja, até o final do processo. Ficou num cativeiro mafioso ( “villa bunker”), na cidade de San Giuseppe de Jato.


Raccuglia, que dissolveu o corpo do menino Di Matteo em ácidoEm janeiro de 1996 (o sequestro consumou-se em 23 de novembro de 1993), e em face da condenação definitiva dos mafiosos pelos assassinatos do eurodeputado Salvo Lima e de Ignácio Lima, o menino Giuseppe Di Matteo foi morto a tiros e coronhadas.


O corpo de Giuseppe, de 11 anos de idade quando sequestrado, foi dissolvido em ácido e o resíduo líquido despejado na rede pública de coleta de esgoto.


Mimmo Raccuglia foi o responsável pelo despejo do ácido no corpo e cuidou de jogar o líquido na rede de esgoto.


Pelo crime de sequestro seguido de morte e associação mafiosa, Mimmo Raccuglia foi condenado à revelia. Ele recebeu a pena de 30 anos de prisão (caso o crime tivesse ocorrido no Brasil, é bom lembrar, Mimmo não seria julgado. Isto por não ter sido citado pessoalmente.O revel não citado pessoalmente não pode ser julgado no nosso país.


Por três outros homicídios, Mimmo Raccuglia recebeu a pena nominal de prisão perpétua: nominal, pois pelas regras constitucionais da União Européia não pode passar de 30 anos e isso vale até para assassinos do porte de Cesare Battisti e do próprio Mimmo Raccuglia.


PANO RÁPIDO. A prisão de Mimmo Raccuglia deveu-se ao trabalho investigativo da Esquadra Móvel de Palermo ( uma criação de Emanuele Basile, metralhado e morto pela Máfia), a mesma que prendeu Bernardo Provenzado, o chefe dos chefes, e que ficou foragido durante 43 anos, só saindo da Sicília para uma operação da próstata na França (Marselha).


Passada a euforia da prisão de Domenico Raccuglia, vem à luz a realidade.


Os policiais da “Squadra Móbile di Palemo”, há dois meses, estavam sem receber verba do governo Berlusconi para as ações antimáfia.


As diligências para a prisão de Mimmo foram realizadas com dinheiro dos próprios policiais. Fizeram uma “caixinha” para as despesas.


Como revelado hoje pelo jornal La Repubblica, os policiais da esquadra móvel de Palermo, no último mês de setembro, realizaram 100 horas extras.


Das 100 horas extraordinárias de setembro, o governo Berlusconi glosou e mandou pagar apenas 55 horas. Mas, até agora, só chegou o pagamento de 36 horas.


A Máfia agradece à administração Berlusconi e só lamenta a resistência dos policiais da “esquadra móvel” de trabalharem sem receber o estipêndio devido.

--Wálter Fanganiello Maierovitch--


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